No livro “Missa Negra”, o filósofo político John Gray discute como “a política moderna é um capítulo na história da religião”. Liberais creem no progresso. Revolucionários acreditam na ruptura. Conservadores confessam a ordem espontânea. Ideologia política é religião por outros meios.
A política moderna promete trazer a nova terra, enquanto se esquece do céu. Visões políticas são ilusões de que o homem pode redimir o mundo e a condição humana. Crenças utópicas na política são expectativas escatológicas de redenção universal.
O Iluminismo não foi a era da racionalidade política. Pelo contrário. Crenças racistas, colonialistas e de expurgo da religião do espaço público foram justamente os sonhos iluministas que orientaram a radicalização política dos sistemas totalitários no séc. XX.
A reação neoliberal, no fim do séc. XX, foi pregar que a redenção viria do livre mercado, mas subestimou o poder da religião e do nacionalismo. Os neoconservadores reagiram denunciando que o mercado não é neutro e que valores religiosos e nacionais importam para gerir o Estado.
Contudo, os neoconservadores se afastaram do ceticismo e abraçaram o messianismo político. Após o 11 de setembro, de Bush a Trump, neoconservadores entenderam que o eixo do mal seria vencido pelo poder político. E creram que, por meio de soldados armados e políticos tidos como mitos, a redenção de nações não democráticas seria alcançada.
A religião nunca foi vencida por secularismo. Ela só foi ressignificada para uma política redentiva. Missa negra é um ritual sacrílego em que a missa é rezada de trás para frente. A missa negra na política ocorre quando a política se torna redentora do mundo, tentando impor as últimas coisas no agora.
