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É sempre a hora da militância, amém: nem o luto escapa da guerra política

O ano era 1997 e no auge dos meus 12 anos, eu sabia pouca coisa sobre a vida, mas sabia de cor a letra de “Milla”, do cantor baiano Netinho. O Brasil inteiro também sabia porque a música explodia nas rádios, invadia programas de TV, atravessava as ruas através dos carros de som e animava as festas de aniversário daquela década. Bastava apertar o play e o país inteiro cantava junto.

Corta para 2026 e eu no alto dos meus 41 anos me deparo com uma postagem nas redes sociais do próprio cantor sobre a missa de 7º dia da sua morte. Nela a data de nascimento está escrita da forma convencional, já a data da morte, ocorrida em 13 de outubro, aparece como “12+1/10”.

Diante da dor da perda de alguém após uma longa batalha contra o câncer, isso me fez pensar no tamanho da doença política que contraímos como sociedade.

Todos sabiam das posições políticas de Netinho já que ele fez delas uma bandeira pública, defendeu candidatos e assumiu lados. Nada demais, isso era seu direito, como é direito de qualquer cidadão.

Mas a morte deveria ser uma espécie de fronteira sagrada, um instante em que as paixões da terra aceitam, ainda que seja por pouco tempo, a própria insignificância.

Quando alguém morre, pouco importa em quem votou, qual hashtag compartilhou ou qual lado ocupava na guerra permanente das redes sociais. O que realmente importa é que uma vida chegou ao fim. O que também importa é a dor dos que ficam e a memória construída ao longo dos anos. O que importa acima de tudo é a humanidade.

Por isso me estarrece a percepção de que a polarização parece incapaz de fazer uma pausa até mesmo diante do luto.

Diante da publicação, foi inevitável que apoiadores do campo adversário corressem aos comentários para apontar o absurdo de transformar o próprio número 13 em tabu numa mensagem de despedida. Mas, confesso que me faço uma pergunta incômoda: se a situação fosse inversa, haveria a mesma indignação? Tenho minhas dúvidas porque a minha impressão cada vez mais frequente é de que a empatia se tornou seletiva tanto de um lado quanto do outro porque dependendo de quem morre, do que pensava ou em quem votava, o luto deixa de ser luto e passa a ser munição.

Eu sei, já ficou claro que já não discutimos apenas política, nem divergimos apenas sobre projetos de país. Transformamos a identidade política numa espécie de religião cotidiana, presente em todos os espaços, em todos os assuntos, mas o que me assusta é que agora isso ultrapassou até a morte!

O adversário não pode ter razão, o número sequer pode ser escrito. O símbolo não pode ser mencionado, a militância precisa permanecer vigilante, mesmo quando a realidade está nos lembrando da única verdade que realmente nos iguala: a morte.

Essa tal morte que não é de direita nem de esquerda, não vota, não usa camiseta de candidato, não participa de motociatas nem de manifestações.

A morte apenas chega e quando chega torna ridiculamente pequenas muitas das disputas que passamos a vida tratando como se fossem nossas maiores batalhas.

Por isso que aquele “12+1” me causou tanto desconforto.

A sensação é de que estamos perdendo a capacidade de reconhecer os momentos em que a política deve sair de cena para que a humanidade entre.

Netinho foi um artista que marcou uma geração inteira e para muitos brasileiros, sua voz será sempre a trilha sonora de um verão, de uma paixão adolescente, de uma lembrança feliz. E, diante da morte de alguém que ocupou esse lugar na memória afetiva de tanta gente, talvez a militância pudesse finalmente descansar.

Thatiane Sonally


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