Chega a parecer um filme repetido: os venezuelanos vão às urnas no próximo domingo (15) para decidir se o presidente Hugo Chávez, no poder há dez anos, pode ser reeleito mais uma vez (ou por todas as vezes que quiser), e continuar seus planos de implantar o “socialismo do século XXI”. É a segunda vez que a consulta popular é feita em menos de dois anos, e não há sinais claros sobre o quanto este referendo vai ser definitivo.

 

 

“O próprio presidente já falou que, se o ‘Não’ ganhar, pode realizar até um referendo por ano até o fim do seu mandato”, disse ao G1 o cientista político venezuelano José Vicente Carrasquero, opositor de Chávez, ressaltando que ir às urnas em referendos já é quase uma rotina para os a população do país, e que o presidente vai continuar tentando aumentar seu tempo no poder.

Depois da derrota governista no referendo que mudaria a Constituição do país, no final de 2007, esta é uma nova tentativa do presidente de ter o direito de se manter no poder – ou ao menos tentar -, nas próximas eleições. A vitória do “Sim” no referendo aprova uma emenda constitucional que passa a permitir que todos os governantes eleitos na Venezuela possam tentar reeleição quantas vezes quiser. Caso o “Não” vença, a legislação limita as reeleições e Chávez terá que deixar o governo ao fim do seu mandato, daqui a quatro anos. A reeleição sem limites era apenas um dos mais de 80 itens que faziam parte da reforma constitucional rejeitada no final de 2007.

 

 

Favoritismo

Se Chávez sair vitorioso no referendo deste mês, diz carrasquero, vai consolidar o aumento do seu poder, e deve tentar retomar as outras propostas rejeitadas em 2007. “Se o ‘Sim’ ganhar, Chávez vai se achar com mais poder e vai tentar retomar as mudanças mais amplas que haviam sido propostas em 2007, se perpetuando no poder da Venezuela”, diz.

 

Segundo o jornal local “El Universal”, uma vitória do “Sim” vai fazer com que Chávez repuita uma estratégia usada em 2000, quando renunciou ao mandato e convocou novas eleições imediatamente, capitalizando sua força da última vitória para já garantir um novo mandato e ficar mais de que os quatro anos que o mandato atual garante.

 

As pesquisas de intenção de voto até a última semana antes do referendo mostram um equilíbrio grande, e é difícil dizer quem vai ganhar. As primeiras sondagens apontavam vitória da oposição por mais de dez pontos de vantagem, mas as mais recentes deixam a disputa dentro da margem de erro.

 

“A oposição tem muito mais ânimo nesta votação de que os chavistas”, disse Carrasquero. “Esta é mais uma chance de interromper os planos do presidente de se manter no poder, e é uma chance de rejeitar as reformas que ele vem propondo. Até mesmo para os que gostam do presidente, falta algo que os convença a ir votar, já que ter reeleição ilimitada não aumenta a qualidade de vida das pessoas.”

 

Segundo o cientista político, a vitória da oposição em 2007 e em alguns estados importantes nas últimas eleições regionais demonstram um fortalecimento deste grupo em detrimento da força política do presidente.

 

 

Sai, não sai

O tipo de mudança que uma nova derrota chavista pode levar ao país ainda é incerto. O próprio Chávez dá informações desencontradas sobre o que vai acontecer após o referendo, caso o “Não” receba mais votos no dia 15.

 

Em entrevista recente à rede de TV CNN, o presidente disse que aceitaria a derrota e deixaria o poder após o fim do seu mandato. “Se eles ganharem, eu vou embora”, disse, afirmando que a democracia no país é plena.

 

Na mesma entrevista, entretanto, abriu a possibilidade de novas consultas populares, incluindo a formação de uma nova Assembléia Constituinte. “Se o povo insistir, podemos convocar até mesmo uma emenda por ano, pois na Constituição não há limite da quantidade de vezes que uma emenda possa ser proposta”, disse.

 

Para o cientista político ouvido pelo G1, uma derrota de Chávez, entretanto, pode enfraquece-lo e interromper seus planos de continuar no poder. “Se o ‘Não’ ganhar, vai ser a terceira vitória da oposição, que está se fortalecendo, e que torna cada vez mais difícil o projeto chavista de permanecer no governo. Vai ser preciso capitalizar estas vitórias, mas é possível que a votação traga mudanças”, disse.

 

G1

 

 

 

Total
0
Compartilhamentos
Deixe seu Comentário