Um palestino morreu e outros 25 ficaram feridos nesta sexta-feira, 23, na Faixa de Gaza após disparos de soldados israelenses, fato que evidencia a fragilidade do cessar-fogo decretado na quarta-feira após a operação militar "Pilar de Defesa". O Governo do Hamas anunciou que apresentará ao Egito, fiador do acordo, uma queixa contra Israel pela morte de Anwar Abdul Hadi Qudai, de 20 anos.
"Entraremos em contato com o mediador egípcio para discutir o incidente", assegurou, em comunicado, o porta-voz do movimento islamita, Sami Abu Zuhri, que assegura que "Israel violou o cessar-fogo". Zuhri acrescentou que seu movimento "ainda não decidiu como responderá, mas espera que novas violações não voltem a acontecer.
Qudai participava esta manhã, junto com um grupo de palestinos das aldeias de Al Garara e Abasan, de uma manifestação de protesto contra Israel junto à cerca que separa ambos os territórios, na altura da cidade de Khan Yunes. Segundo várias testemunhas de Abasan, "um grupo de agricultores tentou se aproximar das fazendas perto da cerca e os soldados dispararam e feriram seis deles."
"Depois do fato, dezenas de moradores organizaram uma passeata em direção à fronteira, e um dos manifestantes que levava uma bandeira palestina correu rumo à ‘zona de segurança’ e os soldados o mataram", explicaram. A chamada "zona de segurança", que em alguns trechos chega a ter 500 metros, é uma faixa delimitada há anos por Israel que impede o acesso aos palestinos de Gaza, apesar de se encontrar de seu lado da fronteira.
Escavadeiras militares alisam o terreno periodicamente e erradicam dela todo vestígio de vegetação para poder avistar qualquer agressor que se aproxime de Israel e impedir as milícias de construir túneis que atravessem a fronteira. A Jihad Islâmica, o segundo movimento em importância na Faixa de Gaza depois do Hamas, afirmou que o ataque se trata de uma "violação" ao acordo, porque o cessar-fogo inclui também a zona contígua à fronteira, segundo o xeque Nafez Azam, um de seus dirigentes.
Após uma investigação, o Exército israelense confirmou que seus soldados abriram fogo contra "cerca de 300 manifestantes que provocaram desordens, tentaram entrar em Israel e causaram danos na cerca". "Os soldados (…) dispararam para o ar em sinal de advertência e quando viram que os manifestantes não se afastavam dispararam em suas pernas", acrescentou.
Israel negou que as pessoas fossem agricultores e sustenta que um dos palestinos que participou dos protestos conseguiu inclusive "abrir passagem através da cerca e entrar em Israel", onde foi detido e pouco tempo depois devolvido a Gaza.
O Egito ainda não se pronunciou sobre o fato, que pode pôr em perigo o cessar-fogo que o presidente Mohamed Morsi conseguiu na quarta-feira após oito dias de hostilidades. O acordo consta de uma primeira fase na qual as partes se comprometem a não realizar atividades de caráter ofensivo e de uma segunda "após 24 horas", na qual negociarão com sua mediação para aliviar o bloqueio à Faixa de Gaza e facilitar a liberdade de movimentos de pessoas e mercadorias.
Um negociador israelense viajou nesta sexta-feira ao Cairo para acompanhar as negociações, informou a edição digital do jornal Yedioth Ahronoth. Enquanto se ativa a segunda fase, o número de mortos na faixa como consequência da operação militar voltou a subir com a morte de dois feridos em um bombardeio israelense na terça-feira à noite.
Ashraf Al Qedra, porta-voz do ministério da Saúde do Hamas, informou que, por enquanto, o número de mortos chega a 166 – sem incluir os de hoje – e os feridos a cerca de 1.300. Em Israel, onde o balanço de vítimas é de seis mortos e meia centena de feridos, a imprensa local fez estimativas do impacto que a ofensiva pode chegar a ter nas eleições do dia 22 de janeiro.
Eleições em Israel
Uma pesquisa do jornal Maariv reflete que a coalizão Likud Beiteinu, aliança formada pelo primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, e o titular das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, mantém a ampla vantagem em intenção de votos que tinha há duas semanas.
Segundo a pesquisa realizada pelo instituto Maagar Mohot, esta aliança política obteria 37 das 120 cadeiras do Parlamento israelense (Knesset), e governaria o país à frente de um bloco de direitas de 70 deputados, frente aos 50 da centro-esquerda.
Estadão








