A madrugada estava gélida, quase glacial para os padrões regionais. Buscou o sono, mas as preocupações foram maiores. Aquele homem de meia idade continuou na inquietude de uma cama vazia. Nada estava ali, além dos seus clamores. Buscou refúgio no “O Mundo de Sofia” e, dali, passou a questionar a vida, o ser, a própria physis dos filósofos pré-socráticos, sem encontrar uma resposta que lhe contentasse. Respirou fundo, sentiu o cansaço dos alvoroçados, mas continuou a passear seus dedos de forma frenética pelo teclado, extensão do seu próprio corpo.

Lembrou-se do filósofo Diógenes de Sinope, também conhecido como o Cínico, que fez da extrema pobreza uma virtude. Pobre homem, pensou aquele homem pobre de felicidade. Por uma fração de segundo decidiu que iria abdicar da vida material. Compraria uma lamparina, assim como o grego, moraria dentro de um barril e buscaria um ser humano honesto. Refletiu melhor e decidiu manter-se medíocre em meio a uma sociedade desprovida de valores sociais e corrupta.

Em gesto automático, resolveu fumar um cigarro. Vagou por toda a casa e lembrou que nunca fumara. Estranhou a ação e pensou estar ficando louco. Indagou o espelho sobre a sanidade, mas não obteve resposta. Egoísta! Exclamou aquela figura lúgubre, para em seguida tentar refúgio na varanda do apartamento.

De forma lenta, quase tranquila, observou a solidão da rua e a escuridão que engolia todo um mar. Um oceano vasto e misterioso como a própria essência humana. Sentiu inveja dos pescadores, principalmente daqueles que sumiam com o canto das sereias. Lembrou-se de Ulisses, dos Ciclopes, do rei Éolo e da Odisseia daquele herói que navegou em águas que o levaram até o Mundo Inferior.

Seu pensamento vagava nesse belo espetáculo mitológico, até singrar para a ilha das Sereias. Numa calma quase estoica, lembrou que Ulisses poderia ter destino similar a dos pescadores, não fosse a tripulação do seu barco que o amarrou no mastro. Homem de sorte! Exclamou nosso protagonista.

Enquanto estava na sacada, sentiu o vento percorrer todo o seu corpo e buscou as asas de Ícaro num pensamento fértil. Olhou para o firmamento e decidiu fugir do imenso labirinto chamado vida. Não temeu cair, e partiu, deixando todo o seu fardo para Hércules e Atlas. Minutos de paz gozou, mas Zeus o proibiu de seguir jornada. No entanto, aquele personagem coberto por um pijama listrado voltou à condição humana. Segundos depois, um breve sorriso no canto esquerdo da boca denunciou o prazer de ter sido um semideus ilusório.

Sua doce quimera foi quebrada por um barulho vindo de um catador de lixo que cantarolava uma música infantil que há muito ele não ouvia. Não se sabe o motivo, mas ele recordou a obra de Victor Hugo, mais especificamente “Os Miseráveis” e a personagem de nome Gavroche, um menino que percorre a área entre as trincheiras para recolher munição em meio aos revolucionários e o exército francês.

Gavroche, um pequeno revolucionário, enquanto canta sua canção favorita e recolhe balas, é atingido e morre. Morre feliz, pensa o homem que decide sair da varanda, pois o canto dos pardais e a presença dos primeiros raios solares já o incomodam.

Esgotado pela fadiga, ele lembra que, um dia, foi como aquele pequenino francês. Um idealista; um revolucionário, um sonhador de fato, mas que o labirinto do rei Minos o aprisionou e, até hoje, trava lutas homéricas contra o Minotauro, contra a própria vida, sem direito a dormir em paz. Mas vive, e vive com a garra dos guerreiros espartanos.

 

Eliabe Castor
PB Agora

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