O tribunal internacional pelas Nações Unidas começou nesta terça-feira, 17, a julgar por genocídio o chefe da câmara de tortura do Khmer Vermelho, Kaing Guev Eav, primeiro dos cinco acusados da exterminar 1,7 milhão de pessoas há três décadas. Kaing, conhecido como "Camarada Duch", de 66 anos, era chefe de um dos maiores campos de prisioneiros do regime e acusado de chefiar pessoalmente o assassinato e tortura de pelo menos 15 mil detentos.
 

Duch, o ex-Khmer Vermelho de menor categoria que será julgado, dirigiu o centro de interrogação de Tuol Sleng, também conhecido como S-21, localizado em Phnom Penh, durante quatro anos depois da vitória do Khmer Vermelho em 1975. Os que sobreviviam à tortura eram enviados para execução nos chamados "campos da morte". Segundo a BBC, houve enormes filas para assistir ao julgamento do ex-chefe da S-21. Para os sobreviventes, o dia de abertura de julgamento oferece a primeira oportunidade de se ver uma das figuras da liderança do Khmer Vermelho sendo julgado.

 

Duch foi levado ao edifício do tribunal do próximo centro de detenção em um carro blindado, protegido por um comboio de veículos carregados de membros das forças de segurança. A primeira audiência do julgamento do comandante da Tuol Sleng (árvore da fruta venenosa), ou S-21, tem como objetivo determinar os procedimentos e fixar a ordem de comparecimento do acusado e das testemunhas que declararão nas sessões, previstas para meados de março.

 

Duch e sua máquina de matar simbolizam o genocídio cometido pelo Khmer Vermelho entre abril de 1975 e janeiro de 1979, período no qual um quarto da população do Camboja foi executada ou morreu de crise de fome ou por doenças nos imensos campos de trabalhos forçados. Apesar do número de mortos, apenas outros quatro influentes ex-dirigentes do regime maoista estão presos e acusados de cometer crimes similares aos quais Duch é acusado. Este, ao contrário do resto dos acusados, que negam ter tido conhecimento das atrocidades e inclusive da existência de Tuol Sleng, admitiu sua culpa e aceitou sua responsabilidade pelas ações realizadas.

 

A criação do tribunal internacional foi estipulada em 2003, após vários anos de difíceis negociações entre as Nações Unidas e o governo do Camboja, que o administram conjuntamente, introduzindo elementos da legislação internacional e nacional. Desde que iniciou os procedimentos judiciais, o tribunal auspiciado pela ONU foi alvo de críticas por comprometer os padrões da justiça internacional e por sua vulnerabilidade à manipulação por parte do primeiro-ministro e "homem forte" do Camboja, Hun Sen, que desertou do Khmer Vermelho para se unir às tropas do Vietnã que invadiram o Camboja.

 

O partido Khmer Vermelho esteve no poder no Camboja entre 1975 e 1979 e foi responsável por um dos maiores episódios de assassinato em massa do século 20. Mais de um milhão de pessoas morreram. Algumas estimativas colocam o número de vítimas em até 2 milhões, mortos de fome, por excesso de trabalho ou vítimas de execuções. O Camboja pediu à Organização das Nações Unidas (ONU) e à comunidade internacional para ajudar no estabelecimento de um tribunal para julgar o genocídio há mais de uma década.

 

Um tribunal conjunto finalmente foi estabelecido em 2006 depois de muita negociação entre o governo cambojano e a ONU. Recursos impetrados, procedimentos para a criação do tribunal e outros problemas atrasaram ainda mais o início do julgamento, que é presidido por juízes cambojanos e internacionais.

 

Agências internacionais

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