O Egito informou nesta quarta-feira que a conferência de reconciliação entre as duas principais facções palestinas, o grupo radical islâmico Hamas e o secular Fatah, foi adiada. O anúncio, noticiado pela agência estatal de notícias egípcia Mena, foi feito horas depois que a negociação de uma trégua duradoura entre Israel e o Hamas chegou a um impasse.

 

Tanto a tentativa de acordo entre os palestinos quanto a proposta de trégua são intermediadas pelo governo egípcio, um dos poucos interlocutores considerados legítimos tanto pelos israelenses quanto por diferentes facções palestinas. A importância do Egito nas negociações foi ressaltada pelo fracasso das tentativas europeias e da ONU de mediar as negociações israelo-palestinas durante o último conflito, em janeiro, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos são vistos como muito pró-israelenses.

 

Marcada inicialmente para o próximo dia 22, a conferência de reconciliação foi decidida na última sexta-feira (13) em uma reunião, no Egito, entre dirigentes do Hamas e do Fatah, o primeiro encontro entre eles desde que o Hamas tomou o controle da faixa de Gaza, em junho de 2007.

 

O membro do governo egípcio que anunciou o adiamento da conferência não relacionou a decisão à declaração do Hamas, feita nesta quarta-feira, de que não aceita uma das condições impostas por Israel para fechar uma trégua de 18 meses –a libertação do soldado israelense Gilad Shalit, capturado em 2006. "As conversações de reconciliação palestina […] foram adiadas durante um breve período de tempo porque são necessárias mais discussões [prévias]", disse um alto membro do governo, sob condição de anonimato, à agência egípcia.

 

O diálogo entre os dois grupos palestinos faz parte do plano proposto pelo Egito para encerrar a ofensiva de três semanas de Israel contra o Hamas na faixa de Gaza, entre dezembro e janeiro últimos. Segundo fontes palestinas, mais de 1.300 pessoas morreram na faixa de Gaza durante os ataques. No mesmo período, 13 israelenses morreram, sendo que dez eram soldados e os outros três, civis, em ataques de foguetes lançados pelo Hamas e em operações no território palestino.

 

A reconciliação palestina é vista como um importante passo para garantir a estabilidade da região, e daria a Israel um interlocutor palestino que considera legítimo em Gaza, território sob domínio do Hamas desde julho de 2007. Naquele ano, o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas (Fatah), eleito em 2005, destituiu o governo do primeiro-ministro Ismail Haniyeh (Hamas), que foi escolhido depois que o seu grupo venceu as eleições legislativas palestinas de 2006.

 

Após os conflitos, a ANP passou a controlar de fato apenas a Cisjordânia, a leste de Israel, enquanto a faixa de Gaza, sob domínio do Hamas, começou a sofrer um bloqueio do governo israelense, que classifica o grupo de terrorista –mesma posição dos Estados Unidos e da União Europeia.

 

Impasse

O objetivo do governo egípcio, sob comando do ditador Hosni Mubarak, é substituir as duas declarações unilaterais de cessar-fogo que encerraram o conflito por uma trégua de 18 meses. A ofensiva em Gaza começou uma semana após o fim de uma trégua de seis meses entre os dois lados, também mediado pelo Egito.

 

A atual negociação esbarra na condição imposta pelo primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, de atrelar o acordo à libertação de Shalit, capturado em junho de 2006 por grupos armados palestinos, em uma ação na fronteira da faixa de Gaza, o que recebeu críticas do principal negociador israelense para a trégua, o general da reserva Amos Gilad.

 

"Não entendo o que tentam fazer. Insultar os egípcios? Nós já os insultamos? É uma loucura. Simplesmente é uma loucura. O Egito é nosso aliado na região", disse Gilad. Israel e o Egito, que se enfrentaram na Guerra dos Seis Dias, em 1967, assinaram um acordo de paz em 1979, um marco para a atual situação de confiança mútua.

 

O Hamas também interpretou a decisão de Olmert como uma tentativa de barrar a negociação de paz. "O Hamas rejeita estas condições que obstruem deliberadamente os esforços do Egito", afirmou o grupo palestino em um comunicado.

 

O próprio Olmert reconhece que a questão da libertação de Shalit pode durar semanas, talvez mais do que vai durar seu governo. "Mesmo que o caso de Shalit não possa ser resolvido enquanto eu estiver no comando do governo, as bases que construímos irão facilitar sua libertação", afirmou o primeiro-ministro israelense.

 

Pressão

 

A situação de Shalit foi um dos temas da campanha eleitoral para o Knesset (Parlamento de Israel), e o governo sofre pressão da opinião pública para conseguir a libertação do soldado, capturado aos 19 anos. A eleição do último dia 10 terminou com a vitória do centrista Kadima, mas com o predomínio de partidos de direita, o que deixou indefinida a formação do novo governo.

 

O presidente israelense, Shimon Peres, deve decidir até sexta-feira (20), quem terá o direito de tentar formar um novo gabinete, a líder do Kadima, Tzipi Livni –atual chanceler — ou o ex-primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, do Likud.

 

Em um país em que o serviço militar obrigatório é visto como parte fundamental da cidadania, a segurança dos soldados tem importância central no debate público. Em 2006, Israel foi à guerra contra o Líbano após a captura de dois soldados pelo grupo islâmico xiita Hizbollah. A Segunda Guerra do Líbano, como o conflito ficou conhecido em Israel, matou mais de 1.200 libaneses, deslocou cerca de 1 milhão de pessoas no país árabe e destruiu grande parte da infraestrutura do país. Várias cidades israelenses também foram bombardeadas por foguetes lançados pelo Hizbollah.

 

Em 2008, o grupo xiita anunciou que os dois soldados estavam mortos, e seus corpos foram trocados por prisioneiros ligados ao movimento islâmico.

 

Folha Online

 

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