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Felipão diz que chorou por dias na Copa de 2014 e que não volta ao Brasil

 Tranquilidade. Esse é o mantra do técnico Felipão, 68, desde junho de 2015, quando deixou o Brasil rumo à China para treinar o Guangzhou Evergrande um ano após o ocaso da Copa de 2014. Ele é capaz de repetir o termo diversas vezes ao longo de uma conversa de uma hora.

Em breve visita ao seu país natal, o treinador, retraído desde o Mundial, aceitou ser entrevistado pela Folha. Com ar sereno, o sotaque gaúcho afiado e as caretas arquiconhecidas, ele falou de passado, presente e futuro.

Não se furtou de admitir que chorou por dias a trágica derrota por 7 a 1 para a Alemanha na Copa de 2014, mas diz que não mudaria nada do que fez naquele dia.

Dono de seis títulos na China, analisou com realismo o futebol local, ainda distante dos polos mais desenvolvidos, mas em trilha veloz de desenvolvimento; e projetou seu futuro longe do Brasil, tanto da seleção como dos clubes, adiantando que deve marcar presença em uma das duas próximas Copas do Mundo, 2018 ou 2022, comandando uma seleção da Ásia.

Folha – Você está há dois anos trabalhando no Guangzhou Evergrande. Como avalia esse período?
Scolari – A qualidade de vida é excelente. Posso elogiar todos os sete países em que trabalhei. China tem tranquilidade, segurança. As pessoas são muito corteses. É tranquilo para trabalhar. Temos um esquema de trabalho muito tranquilo: o CT é fechado, tem entrada de torcedores uma vez ao mês, é permitida a entrada da imprensa uma vez na semana, nos treinos que antecedem os jogos. É uma situação tranquila para o técnico e para viver. Estou feliz, tenho contrato com eles até o final do ano e tenho opção de renovar por mais um ano. Quero continuar no Guangzhou, mas dependo de resultados, já que o time é campeão chinês dos últimos seis anos.

Você foi recebido com uma faixa de "bem vindo, general". Qual é a imagem que os chineses têm de você?
Eles tem a minha imagem como a de um lutador pela equipe. Eles ficam boquiabertos porque o time está ganhando de 3 a 0 e estou na beira do campo brigando, pedindo falta. Eles não acham que isso é o procedimento de alguém que poderia estar tranquilamente no banco. Os próprios jogadores me receberam com um pouco de receio, mas depois do primeiro mês eles falam a todos que sou um dos técnicos mais compreensivos. É só uma questão de imagem.

Como é viver na China?
Muita segurança. Moro em um condomínio fechado em Guangzhou e saio 8 horas da noite para caminhar por quilômetros sem problema algum. Não existe nenhum problema. Vivemos bem. Tudo que imaginares de alimentação, tecnologia, etc., é tranquilo. O clube paga tudo no dia certo, corretíssimo. Não existe interferência alguma do dono do clube.

Você tem repetido a palavra "tranquilidade". É um refresco trabalhar na China para quem passou quase toda a carreira no Brasil?
Mas isso é uma coisa errada que dizem. Metade da minha carreira foi fora do Brasil. Tenho 34 anos de técnico e passei 17 deles fora do Brasil. A China é mais tranquila porque a forma de pressão é diferente, embora este ano vá ser bastante competitivo, mais do que outros anos. Tivemos mais investimento de outros clubes, e como somos campeões há seis anos começou a ficar mais difícil.

Temos a impressão de que os jogadores da China são ruins. O Corinthians trouxe o Zhizhao, que não deu certo. Qual é o nível técnico dos atletas?
Mas o Corinthians não trouxe jogador de seleção, eles tinham interesse em intercâmbio. O capitão da minha equipe jogou na Inglaterra e na Escócia. Tenho jogadores que estariam em qualquer equipe da Europa. Depende do que você imagina de um jogador chinês. Se jogássemos a Série A do Brasileiro, brigaríamos por uma posição entre 6º e 12º. Os jogadores chineses são bons. E no futebol chinês tem brasileiros muitos bons. No meu time, estão Ricardo Goulart, Paulinho e Alan, que estão fazendo coisinhas, viu? Renato Augusto está jogando muito. Ramires, Alex Teixeira, Gil, Tardelli…

Já é possível comparar o Campeonato Chinês com o Brasileiro?
Não. Ainda faltam passos a serem dados, que não sei se serão dados pela Federação, porque precisa de muita organização e tempo. Precisa de campeonatos sub-17, sub-19, sub-20, que não existem lá. Como vão revelar jogadores? Eu comento, mas não entro no mérito da questão. Lá na China eu quase não indico jogadores para contratar. Quem faz isso é o clube, que me consulta, claro. E a minha função é treinar a equipe, sem discutir valores, nomes…

O presidente Xi Jinping adora futebol e tem o projeto de transformar a China em uma potência no esporte. Como você vê isso?
Ele está dando bons passos para isso. Ele colocou o futebol como currículo escolar. Os colégios estão criando mais campos de futebol com auxílio do governo. Futuramente, com mais de 1 bilhão de habitantes, teremos bons meninos encaminhados no futebol.

Como o Estado influencia na rotina do futebol?
O Estado participa com a organização do clube, trata com a direção, presidência, e têm as suas definições. Mas o Estado não influencia nas situações [do dia a dia]. Os clubes têm, penso eu, liberdade para tomar as decisões. Os investimentos são feitos pelo Estado de maneira mas volumosa do que imaginamos, mas não sabemos exatamente.

Como você vê as limitações do futebol chinês, como redução do número de estrangeiros e obrigação de escalação de um jogador com menos de 23 anos como titular?
Atrapalha, claro. Se eu quisesse, ou qualquer outro treinador quisesse, eu escalaria um sub-23. A gente compreendeu a ideia, e eu já vinha fazendo isso [promovendo renovação] desde que cheguei no Guangzhou. Na atual situação, alguns técnicos escalam esses jogadores por obrigação e os tiram depois de 15 minutos. Isso não é desenvolver jogadores sub-23. Tudo isso tinha que ser estudado com antecedência, com pelo menos um ano e meio para os clubes se prepararem. Mas foi feito uma semana antes do início do campeonato.

Após a venda do Oscar para o Shanghai SIPG, o técnico do Chelsea, Antonio Conte, disse que a China é um perigo para o futebol mundial…
Eles que não vendessem. Muito bonito: entrou um monte de dinheiro, venderam bem, e aí é um perigo? Não venda. É fácil falar assim. O que aconteceu quando o Telê Santana foi para a Arábia Saudita? Começaram a ir para lá vários jogadores. Depois foi a vez do Japão, com Zico. Provavelmente, daqui a um ou dois anos a China vai parar. E então o que vamos fazer? Cada time tem cinco ou seis estrangeiros. Agora coreanos, australianos e japoneses também contam como estrangeiros. O que os times vão fazer no meio do ano? Vão vender, emprestar… Daí o europeu vendeu bastante e agora vai receber de volta alguns jogadores. A China é perigosa, mas recebem o dinheiro.

Redação com Folha de SP

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