Após oito meses no poder e muitas frases do tipo “recebemos uma herança maldita” e “é tudo culpa da antiga administração”, membros da atual diretoria, que preferiram não ser identificados, e ex-cartolas do Vasco decidiram mostrar a caixa-preta que os aguardava quando o então presidente Eurico Miranda deixou o poder em junho do ano passado. Com a chegada de Roberto Dinamite e a promessa de uma auditoria, as contas e parte do rombo alegado pela atual cúpula cruzmaltina foram divulgadas.

 

Coube ao ex-vice de marketing José Henrique Coelho dar a cara a tapa e divulgar várias denúncias contra o ex-mandatário vascaíno, entre elas o pagamento de contas pessoais com verba do clube de São Januário e até mesmo o consórcio de um Audi A3.

 

As acusações do ex-vice de marketing foram motivadas pela convocação de uma reunião extraordinária por parte de membros da oposição, nesta quinta-feira, em São Januário. Em pauta, os dirigentes querem explicações sobre a execução de duas ações na Justiça de José Henrique Coelho contra o Vasco e do pagamento de honorários advocatícios ao ex-vice jurídico Luiz Américo de Paula Chaves, atual assessor jurídico do clube.

 

– Eles querem usar da própria torpeza para usar em próprio benefício. O caso que é sinônimo da hipocrisia é que o ex-presidente utilizou as contas do clube para pagar contas pessoais. Todas as despesas da chapa azul (que tinha Eurico Miranda como candidato à presidência), em 2006 (clique aqui e veja a nota fiscal), foram pagas pelo Club de Regatas Vasco da Gama. Firmas de pesquisa foram pagas com o dinheiro do clube. O ex-presidente usou dinheiro do clube para escrever um livro se promovendo. O livro sequer foi lançado e o dinheiro foi mal empregado duas vezes. É um livro que não fala de ninguém e que ninguém vai ler. E essa pessoa ousa cobrar alguma situação – acusou Coelho.

Em entrevista em seu escritório, no Centro do Rio, José Henrique Coelho divulgou várias notas fiscais que teriam sido pagas pela tesouraria do Vasco. O dirigente citou o advogado Nélio Braga Chambarelli, o ex-assessor da presidência Ricardo Vasconcellos e o ex-presidente do conselho deliberativo João Carlos Gomes Ferreira, afirmando que todos faziam parte dos conselhos do clube e eram remunerados. Tal situação é proibida de acordo com o artigo 136 do estatuto cruzmaltino (não pode integrar nenhum dos poderes do clube o sócio que este preste, sob qualquer forma, serviço remunerado). O ex-dirigente também se mostrou indignado com o pagamento de honorários advocatícios em uma ação contra Eurico Miranda ao ex-conselheiro Marlan Marinho Júnior.

 

CONTAS PESSOAIS DA ANTIGA DIRETORIA

 

A primeira denúncia feita por Coelho é referente à utilização de receitas do Vasco para o pagamento de contas pessoais. O ex-dirigente cruzmaltino mostrou notas emitidas pela empresa “Janine Produções Artísticas” referentes à elaboração do livro sobre a vida do ex-presidente Eurico Miranda, intitulado “A Lenda e a Fúria”. Em três documentos divulgados pelo ex-vice de marketing, o clube desembolsou R$ 35 mil na obra que ainda não foi publicada.

Coelho acusou o então presidente de pagar contas de uma empresa de rádio e telefonia para membros de sua família. O ex-vice de marketing acusa toda a família do dirigente de ter os seus gastos pagos pela tesouraria cruzmaltina.

Para finalizar as denúncias, Coelho divulgou uma nota em nome do Vasco referente à parcela número 27 do consórcio de um Audi A3. O carro, cuja mensalidade custava R$ 1.797,16 aos cofres do clube, tem o seu paradeiro indeterminado de acordo com o ex-vice de marketing cruzmaltino.

– Ninguém sabe onde esse carro foi parar. No Vasco, eu garanto que ele não está – afirmou Coelho.

 

PROCESSOS PAGOS PELO VASCO

 

Coelho questionou ainda os valores pagos pela antiga diretoria ao advogado Marlan Marinho Júnior, no valor de R$ 100 mil. O profissional foi contatado pelo GLOBOESPORTE.COM e afirmou ter trabalhado em ações para o Vasco e para o então presidente Eurico Miranda. O profissional revelou ainda que desconhece a origem da verba utilizada pelo clube para pagar os honorários advocatícios.

 

– Recebi do Vasco porque fui advogado do Vasco. Os processos do Vasco foram pagos pelo Vasco. Os outros eu não sei. Não sou eu quem fiscaliza isso. Existiam processos contra o Vasco, contra o Eurico e contra os dois. Recebi tudo de forma integral, e o Vasco não me deve nada – afirmou o advogado.

 

PASSAGENS AÉREAS PAGAS PELO VASCO

Além disso, o ex-vice de marketing denunciou a compra de passagens aéreas para o ex-conselheiro Nélio Chambarelli e para a sua esposa com destino a Las Vegas e Nova York, no valor de R$ 6.131,34. Chambarelli, por telefone, confirmou a viagem e deu a sua versão dos fatos.

– O Vasco até hoje me deve dinheiro. O Vasco me deve quase R$ 500 mil. Se não tem dinheiro, pedi para pagarem as passagens que eu abateria depois. Fizemos um acordo e até hoje só me pagaram 37 prestações de um total de 90, se não me engano – revelou o ex-conselheiro.

 

HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS

 

O ex-presidente do Conselho Deliberativo João Carlos Gomes Ferreira também conversou com o GLOBOESPORTE.COM para explicar as denúncias de Coelho, que acusou o advogado de prestar serviços ao clube, o que é proibido pelo estatuto. Segundo o ex-dirigente, as denúncias foram feitas por conta da reunião da próxima quinta-feira, em São Januário.

 

– Eu não recebia por serviços prestados ao clube. Recebia pelo departamento jurídico para fazer pagamentos do departamento jurídico. Ele me detesta, ele tem raiva de mim e eu ganhei um ação contra ele na Justiça por calúnia e difamação – explicou o advogado e ex-dirigente João Carlos Gomes Ferreira.

 

AJUDA DE CUSTO

Em outra nota divulgada, Coelho acusa a antiga diretoria de pagar uma ajuda de custo mensal ao ex-assessor da presidência Ricardo Vasconcellos, que variava entre R$ 2 mil e R$ 4,5 mil. O braço-direito do ex-presidente Eurico Miranda conversou com o GLOBOESPORTE.COM e deu a sua versão dos fatos. Ele lembrou que está processando Coelho por causa de tais acusações.

– Eu colocava dinheiro do meu bolso em alguns deslocamentos que fazia para o clube e eu era ressarcido por isso. A ajuda de custo que eu recebia era para pagar o combustível que eu colocava no meu carro e outros gastos. Eu costumava fazer o borderô dos jogos do Vasco fora do Rio de Janeiro e ia para Cabo Frio, Volta Redonda, com o meu carro. Tudo passava pelo presidente e pelos conselhos do clube. Eu me coloquei à disposição da atual diretoria para qualquer explicação, mas não me chamaram até o momento – explicou o ex-dirigente, que é empresário.

Os documentos divulgados por Coelho foram obtidos pelo Movimento Unido Vascaíno (MUV), em 2008. Na época, o grupo era oposição ao então presidente Eurico Miranda. As caixas com os recibos foram entregues após uma decisão da juíza Márcia Capanema, da 7ª Vara Cível do Rio de Janeiro.

EURICO MIRANDA RESPONDE ACUSAÇÕES

 Procurado pelo GLOBOESPORTE.COM, o ex-presidente Eurico Miranda não quis responder a nenhuma questão de forma direta.

 

– Pode publicar o que você quiser. Estou mandando publicar. Todo e qualquer documento passa pelo conselho fiscal, ele aprova e ponto final. Não tem que dar satisfação para ninguém. O conselho fiscal funciona como um tribunal de contas. Você está se metendo em uma área que você não conhece e só pode se dar mal. Estou te explicando, mas não estou te respondendo – afirmou Eurico Miranda, em contato telefônico.

Eurico Miranda afirmou em sua entrevista que as contas aprovadas no passado não podem ser discutidas posteriormente. Porém, o atual presidente do conselho fiscal do Vasco, Hércules Figueiredo, explicou a postura que é adotada pelo colegiado na atual administração do clube.

– O conselho fiscal é um órgão fiscalizador da vida administrativa e fiscal do clube. No fim do ano, ele recomenda a aprovação ou não das contas do clube naquele ano. No meu entendimento, tudo aquilo que estiver em desacordo com o estatuto e com a lei deve ser revisto – afirmou o dirigente, que assumiu o cargo em julho de 2008.

 

COELHO SUGERE PUNIÇÃO À ANTIGA DIRETORIA

Fora do Vasco desde fevereiro, José Henrique Coelho afirmou que o clube pode tomar providências em relação às acusações que revelou ao GLOBOESPORTE.COM.

– Esse tipo de situação, não como perseguição política, mas como exemplo, tudo isso deve ser cobrado desses dirigentes. As pessoas usurparam dos seus cargos em benefício próprio. E o clube, na situação de penúria em que se encontra, não deveria abrir mão desse tipo de iniciativa jurídica e legal – explicou Coelho.

globoesporte.com

 

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