A decisão do Banco Central de reduzir a taxa básica de juros da economia (taxa Selic) em 1,5 ponto percentual, anunciada na última quarta-feira, marca uma nova tendência da política monetária, menos ortodoxa e mais preocupada com o crescimento do país. A queda, no entanto, ainda não é suficiente para impedir a desaceleração da atividade econômica.

A avaliação é de deputados ouvidos pela Agência Câmara, que reivindicaram cortes maiores na taxa de juros, que caiu de 12,75% para 11,25% ao ano. A expectativa agora é que a redução de 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre do ano passado, anunciada esta semana pelo IBGE, impulsione o BC a promover novas reduções nos juros.
 

Mais espaço
"Mais uma vez foi uma decisão conservadora. Havia espaço para um corte mais agressivo", lamentou o deputado Armando Monteiro (PTB-PE), que preside a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Para ele, o BC reconheceu que o perigo maior para a economia brasileira, neste momento, é a recessão, e não a inflação.

Monteiro salientou ainda que mesmo com a redução, a taxa real de juros ainda está na casa dos 6% ao ano, número superior ao dos demais países emergentes. No Chile, por exemplo, ela é de 0,5% ao ano, segundo o parlamentar.
 

Para o deputado Pedro Eugênio (PT-PE), a redução da Selic ficou abaixo do esperado, mas mostra uma nova tendência do BC. Agora, segundo Eugênio, a política monetária vai acompanhar a fiscal, que desde o início da crise está em ritmo expansionista. "Ficou claro agora que o BC entendeu que o momento é de baixar os juros", disse o deputado.

Ex-presidente da Comissão de Finanças e Tributação e professor de economia, Eugênio acredita que a autoridade monetária perdeu o "timing econômico". Ou seja, a redução já poderia estar em pleno curso. A última vez que a Selic caiu foi em setembro passado. "Faltou dosar melhor o diferencial entre a nossa taxa de juros e a taxa de outros países", disse o deputado, referindo-se ao forte movimento de queda de juros verificado na maioria dos países industrializados e emergentes desde o início da crise financeira global.

O deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) também comparou a situação brasileira com a de outros países. Ele ressaltou que muitos governos já reduziram a taxa de juros para patamares próximos a zero. Apesar de elogiar a decisão do BC brasileiro, ele mostrou-se preocupado com o momento. "Tomara que não tenha vindo tarde demais", disse.

Prejuízos
O deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP) também se alinha entre os que acham que o BC demorou para reduzir os juros. "A demora causou um enorme prejuízo ao Brasil que será difícil de mensurar e de ter seus efeitos neutralizados. Mas antes tarde do que nunca", disse. Segundo Jardim, o mais preocupante é que as medidas adotadas até agora pelo governo não conseguiram reverter a queda da atividade econômica.

Apesar das críticas dos parlamentares, houve espaço para elogiar a situação da economia brasileira. O deputado Pedro Eugênio disse que o país tem um sistema bancário sólido e o ritmo de empréstimos continua forte no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), principal agência de crédito de longo prazo do país.

Já o deputado Valdir Colatto (PMDB-SC) lembrou que a queda dos juros beneficia diretamente as empresas que têm dívidas atreladas à Selic. "É um ônus a menos para o setor produtivo", disse Colatto, ressaltando porém que os juros precisam cair mais.

Situação inédita
O líder do governo na Câmara, deputado Henrique Fontana (PT-RS), defendeu a decisão do BC. Segundo ele, é a primeira vez que o Brasil enfrenta uma crise reduzindo os juros. "No passado, em crises até menores, o governo sempre era obrigado a subir as taxas. Temos hoje um tipo de reação diferente", disse Fontana.

Isso evidencia, para ele, a solidez da economia brasileira. Além disso, segundo o deputado, a queda dos juros tem um impacto positivo na dívida pública. A redução de 1,5 ponto percentual vai permitir uma economia entre R$ 8 bilhões e R$ 9 bilhões este ano, de acordo com Fontana.

A oposição discorda da tese de Fontana. Na avaliação do vice-líder da minoria, deputado Otávio Leite (PSDB-RJ), a medida continua sendo tímida, abaixo do necessário para reativar a atividade econômica, que segundo sua avaliação está em franco decréscimo. "Infelizmente essa marolinha está virando uma onda robusta, e é preciso agir antes que ela se torne uma tsunami", disse.
 

Assessoria

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