Em meio à turbulência gerada pela crise financeira internacional, com informações sobre demissões em diversas áreas, trabalhadores relatam temer entrar em férias com receio de perder o emprego ao retornar.
 

Sindicalistas e consultores de recursos humanos ouvidos pelo G1, no entanto, avaliam não haver relação entre férias e demissão.

 

"A demissão não vai acontecer em virtude das férias", diz o presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo e Osasco, Luiz Cláudio Marcolino.

 

A bancária Patrícia Ferreira, de São Paulo, que está em férias neste mês, afirmou que teme perder o emprego e conta que já telefonou diversas vezes para as colegas de trabalho no período de descanso para saber "como estão as coisas" na empresa.

 

 

Ela disse que só entrou em férias neste mês porque foi "obrigada", uma vez que iria vencer o segundo período consecutivo de descanso.

 

"Não é o momento de se desligar nas férias. É o tipo de férias que, se pudesse não ter saído, seria melhor", disse. Para ela, é melhor estar presente na empresa durante momentos turbulentos. "Você está lá e vê tudo", diz.

 

O setor bancário sofreu demissões em razão de fusões de grandes bancos e tem a situação agravada com a crise em razão da diminuição da oferta de crédito. Somente o Santander demitiu 400 pessoas em centros administrativos.

 

Marcolino, presidente do sindicato dos bancários, concorda que há um "clima de apreensão" entre os trabalhadores e que alguns têm receio das férias neste momento. Mas, segundo ele, é necessário ter "vida normal".

 

 

"A pessoa tem de ter vida normal, não pode dar ouvidos a boatos. Tem gestores que acabam se aproveitando de uma eventual crise ou turbulência do setor financeiro para cobrar mais produtividade. (…) Mesmo sabendo que há clima de insegurança, tem de tirar as férias, vida normal", diz Marcolino.

 

Para o sindicalista, o trabalhador deve ainda se desligar dos assuntos da empresa para não voltar ao trabalho estressado e correr o risco de se prejudicar.

 

 

O diretor de base do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Robson Dias Bonjardim, avalia que "o pior já passou" e os trabalhadores do setor que vão tirar férias a partir de agora estão mais "tranquilos".

 

"Até dezembro, começo de janeiro, houve situações de pessoas demitidas na volta das férias. Agora, após acordos de estabilidade, o clima está mais tranquilo."

 

O técnico de montagem Anderson Foroni, de 31 anos, que trabalha em uma montadora do ABC paulista, voltou de férias na segunda quinzena de janeiro e diz que temeu cortes.

 

 

"Fiquei preocupado. Tinha esse clima porque no último dia de férias foram cortados estagiários. Agora, fala-se na possibilidade de acabar com um turno. Se fosse para eu entrar de férias agora, eu preferia adiar."

 

 

 

O que diz a lei

De acordo com Ana Palmeira de Arruda Camargo, chefe da Seção de Fiscalização do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego em São Paulo, a legislação não proíbe a demissão após a volta das férias.

 

"A legislação não aborda o tema, o que significa que [o trabalhador] pode ser mandado embora. Porém, o trabalhador precisa ou receber aviso prévio ou ficar um mês de aviso. Se houver um acordo sindical nesse sentido (que dê estabilidade na volta das férias), vale o que diz o acordo", explica.

 

 

Mito

Consultores de recursos humanos dizem que as férias não são motivo para demissão nem mesmo durante períodos de crise econômica. Para eles, o que o empregador leva em conta na hora da dispensa são o histórico e a performance do funcionário.

 

Para Adriano Araújo, vice-presidente do Grupo Foco, empresa de recursos humanos, o funcionário não deve deixar de entrar em férias por medo de ser demitido – somente se ele está desenvolvendo um projeto importante para a empresa e que tem de ser concluído em curto prazo. Nesse caso, interrompê-lo para ficar um mês fora pode gerar problemas, avalia. “Aí, a empresa pode se sentir no direito de procurar outra pessoa”, afirma.

 

Luiz David Carlessi, da Idort, consultoria na área de treinamento e educação corporativa, diz que as férias não representam ameaça no contexto corporativo.

 

“Isso é mito. Todos precisam de férias, de descanso, de recuperar as energias. A questão é que as pessoas ficam assustadas em função dos cortes e ficam em dúvida se tiram férias ou não. Empresas sérias não usam as férias para dispensar o funcionário”.

 

Para Carlessi, empregados que trazem resultados e novas idéias e têm produtividade não devem temer as férias neste momento de demissões. “As empresas estão carentes de talentos”.

 

Em compensação, segundo ele, um funcionário que não agrega valor à empresa deve temer a demissão independentemente de entrar em férias ou não.

 

G1

 

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