Por pbagora.com.br

O Citigroup norte-americano voltou a surpreender os acionistas nesta sexta-feira. A diferença, desta vez, é que a surpresa foi boa.

O banco divulgou o primeiro lucro trimestral desde 2007. No primeiro trimestre, o Citi lucrou US$ 1,6 bilhão. No mesmo período do ano passado, o prejuízo do banco havia sido de US$ 5,1 bilhões.

Não foi um resultado para comemorar com champanhe. Ao contrário, boa parte do resultado foi contábil, gerado por benefícios concedidos pela legislação norte-americana a companhias financeiramente problemáticas. Mesmo assim, os investidores conseguiram encontrar motivos para melhorar, pelo menos um pouco, seu humor.

Além do lucro obtido por meio de artifícios contábeis -legais, mas sempre artifícios-, os bancos norte-americanos têm ganho razoáveis somas por meio da gestão de tesouraria, corte de custos e atividades bancárias tradicionais.

O Citi lucrou US$ 4,7 bilhões com transações no mercado de títulos ("bond trading"), devido principalmente à melhora das condições para operar.

O desaparecimento de vários concorrentes, como o Lehman Brothers, por exemplo, permitiu que o Citi cobrasse mais de seus clientes para intermediar negócios.

Além disso, o mercado foi caracterizado por uma razoável volatilidade, mas em menor escala do que a registrada em 2008. Ou seja, um ambiente mais propício às atividade de tesouraria e gestão de recursos próprios.

O resultado dessas operações de mercado mais do que compensou a baixa contábil de US$ 2,5 bilhões em créditos imobiliários de má qualidade no primeiro trimestre realizada pelo Citi.

Outro ponto a comentar dos resultados do Citi foi o aumento do ganho com intermediação financeira, a diferença entre o que o Citi paga para captar recursos e o que cobra ao emprestá-los.

Cabe aqui alertar que os percentuais são bem diferentes dos praticados no mercado brasileiro, mas os analistas comemoraram o aumento de meio ponto percentual, para 3,3%. No primeiro trimestre de 2008, essa margem era de 2,8%.

Como o Federal Reserve reduziu os juros a zero no fim de 2008, o capital ficou muito mais barato para os bancos. Por isso, mesmo com a queda dos juros no crédito e a redução da demanda por empréstimos, foi possível ao Citi ganhar um pouco mais, mesmo com menos demanda por empréstimos.

O Citi não foi um caso isolado. Nos últimos dias, JP Morgan e Goldman Sachs também anunciaram resultados no primeiro trimestre não apenas positivos, mas também acima dos prognósticos dos analistas.

Os bancos fizeram incontáveis barbeiragens tentando aproveitar ao máximo uma expansão descontrolada do crédito provocada por bolhas de liquidez. O melhor exemplo do nível de absurdos foi divulgado no início desta semana pelo banco de investimentos Lehman Brothers, que sofreu intervenção em setembro de 2008.

O banco especulou com diversas commodities minerais, mas foi colhido pela súbita retração da liquidez nos mercados no fim do ano passado e não conseguiu zerar algumas posições.

Como resultado, o que restou do Lehman hoje tem em carteira cerca de 227 toneladas de urânio, o suficiente para alimentar uma usina nuclear durante um ano, ou para construir uma bomba atômica. Felizmente o urânio está acondicionado em depósitos apropriados no Canadá, e não na sede do banco, em Nova York.

Apesar de inúmeras decisões com consequencias potencialmente explosivas, o sistema bancário norte-americano ainda possui elementos para manter seu funcionamento, embora com porte e lucros bastante menores do que os anteriores à crise.

Não será uma recuperação fácil e rápida. O chairman do Fed, Ben Bernanke, advertiu os investidores que os preços dos imóveis deverão permanecer em baixa por um longo período, mas os analistas acreditam que a tendência deverá ser de uma lenta e suave recuperação, com um retorno gradativo das operações de crédito e financiamento, que são o arroz com feijão do sistema bancário.

Ou seja, as notícias da morte dos bancos norte-americanos foram muito exageradas.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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