Antes do Carnaval, os principais bancos privados do país fizeram uma ação articulada para tentar amenizar as constantes críticas públicas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva às instituições financeiras como um todo. Por emissários, queixaram-se de que Lula estaria demonizando os bancos na atual crise econômica.

Houve, pelo menos, três conversas do presidente sobre o assunto com interlocutores diferentes: o presidente da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), Fábio Barbosa, o presidente do Conselho de Administração do Bradesco, Lázaro Brandão, e o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci Filho, muito querido pelo sistema financeiro.

Com nuances, Lula ouviu basicamente o seguinte. Os bancos brasileiros seriam parte da solução e não do problema. O governo deveria achar bom que os bancos do país não precisam de socorro como os gigantes americanos Citibank e Bank of America.

Se as instituições nacionais precisassem de ajuda, a crise seria mais grave no Brasil. Ou seja, a solidez dos bancos é um dos fatores que fazem o Brasil sofrer menos do que outros países um dos aspectos mais ressaltados pela retórica otimista do governo.

Os bancos estariam constrangidos de divulgar grandes lucros obtidos em 2008, por serem sempre apresentados como indevidos num país com as carências do Brasil. As instituições se queixaram de que Lula estimula uma imagem negativa dos bancos, sobretudo na mídia, justamente na hora em que são retratados os resultados do ano passado.

O presidente ouviu que haveria gordura para uma redução do spread –a diferença entre o custo de captação de recursos e os juros cobrados pelos bancos na ponta em suas diversas operações de empréstimos. No entanto, os bancos argumentaram que essa redução seria lenta e dependeria da continuidade do processo de queda da taxa básica de juros, a Selic– hoje em 12,75% ao ano.

Nos últimos dois meses, Lula aumentou a cobrança pela redução do spread praticado pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal. Esse movimento foi ampliado por uma articulação do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para aliviar as pressões de Lula por uma queda mais célere da taxa básica de juros. Segundo Meirelles, uma referência nominalmente bem inferior às taxas praticadas em geral pelo sistema bancário.

Lula e seus principais encamparam o discurso do presidente do Banco Central. A ministra da Casa Civil e potencial candidata ao Palácio do Planalto em 2010, Dilma Rousseff, tem feito discursos cobrando redução do custo financeiro do dinheiro. Na prática, diminuição do spread.

Os bancos sentiram o golpe e avaliaram que precisavam fazer um lobby diretamente com o presidente da República. Logo após o agravamento da crise, que aconteceu em setembro do ano passado, Lula acusou os bancos de travar a concessão de crédito. As instituições ficaram mais seletivas e fizeram um chamado "colchão de liquidez" para atravessar a crise.

As cobranças por redução do spread foram a segunda grande onda de críticas sobre as instituições. Com a decisão do Banco Central de publicar um ranking dos juros cobrados pelos bancos em suas diversas operações, a Febraban e grandes banqueiros articularam o lobby que chegou aos ouvidos do presidente antes do Carnaval.

Lula teria demonstrado sensibilidade aos argumentos. Mas reiterou a cobrança por spread menor e ameaçou travar outra batalha: criticar as tarifas cobradas por serviços específicos, como transferências, manutenção de conta, talões de cheque.

 

Folha Online

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