Por pbagora.com.br

Dentre as 20 vozes femininas que participam do show Elas Cantam Roberto, hoje no Theatro Municipal, Wanderléa, por motivos óbvios, é a que mais tem fundamento. Isso já foi dito por Martn?ália a ela em projeto semelhante, com o mesmo nome e também dirigido por Monique Gardenberg em 2004 em São Paulo. No grand finale, quando se juntaram todas as cantoras, o solo ficou para Baby do Brasil (ex-Consuelo). “Só que ela errou a letra inteira. Depois na coxia, a Mart’nália comentou: ‘Olha aí, era você que tinha de fazer esse final – fundamento pra quem tem fundamento?'”, lembra Wanderléa, rindo.

Não por coincidência, Léa é destaque desta reportagem. De todas as escolhidas, ela é que tem a trajetória artística mais ligada a Roberto Carlos. Os dois começaram juntos a carreira no final da década de 1950. No álbum mais recente, Nova Estação (2008), Léa registrou o inédito Samba da Preguiça, que Roberto e Erasmo fizeram para Nara Leão, mas ela não gravou. E também retomou Todos Estão Surdos, que Fernanda Abreu vai defender no show de hoje.

Léa escolheu Você Vai Ser o Meu Escândalo (Roberto e Erasmo Carlos), porque é a canção que encerra um ciclo. “Foi uma das últimas coisas que fizemos juntos. Cantei essa música na trilha do filme O Diamante Cor-de-Rosa”, lembra. “No show vai ter um set dedicado ao início da carreira dele, passando pela jovem guarda e chega até essa música.” É dessa fase também um dos dois únicos duetos do show, que Léa faz com Daniela Mercury, que vai cantar com Quando. “Depois ela começa com Esqueça, passa a segunda parte pra mim e eu faço Escândalo. “

Sempre se fala do rápido namoro deles no início da carreira e Léa disse que contaria essa história num livro que estava escrevendo. Ela ainda não o publicou, passou os capítulos todos que tinha escrito para Regina Echeverria editar. “Mas não tem nada demais, não tem nenhuma bomba. No começo éramos muito próximos, éramos da mesma gravadora, a CBS, tínhamos um programa na Rádio Guanabara, Encontro Com os Brotinhos, que fazíamos todas as manhãs.”

Ela mineira, ele capixaba, foram tentar a sorte no Rio de Janeiro. Muito antes disso ela venceu um concurso de “mais bela voz infantil” e, aos 9 anos de idade, assinou contrato com a CBS, mas só foi gravar o primeiro disco anos mais tarde, quando Roberto já tinha lançado o primeiro LP, Louco Por Você (1961), hoje renegado por ele. Naquela época os dois começaram a fazer shows juntos e, como não tinham carro, na volta Roberto a levava de ônibus até a casa da avó em Vila Isabel. “Voltávamos pra casa cansados, batendo cabeça com sono”, recorda.

“Nossos encontros eram assíduos. Saíamos juntos para divulgar nossos discos nas rádios. Existia uma democracia nas rádios, a sua música podia não estar programada, mas se você chegasse lá furava a programação. Era a insistência, era você estar presente pra tocar. Então, rodávamos todas as rádios todos os dias, saíamos às 5 horas da manhã e quando eram 9 horas já estávamos cansados. Parávamos numas leiterias e ficávamos contando quantas vezes tínhamos conseguido fazer tocar nossos discos. Era coisa de adolescentes começando a carreira. Era bacana, mas foi batalhado, nada caiu do céu.”

A amizade cresceu, depois veio a fase em que passaram a comandar o programa Jovem Guarda, na TV Record em São Paulo, em que ficavam juntos o tempo inteiro. Roberto costumava colocar apelido em todos os cantores, mas não foi ele quem inventou Ternurinha. Tudo começou com a canção Ternura, versão de Somehow it Got to Be Tomorrow (Today), que ela incluiu no álbum É Tempo do Amor, de 1965. A coisa pegou e o disco seguinte se chamou A Ternura de Wanderléa (1966). Além disso, a Record a colocou com Erasmo num outro programa, Ternurinha e Tremendão. “Isso foi começando a marcar o apelido. Eu não gostava muito disso, nunca gostei, mas chega uma hora que você não vai contestar tanto. Ternurinha, pero no mucho”, brinca a cantora.

Na época do Jovem Guarda, Wanderléa, Roberto e Erasmo também foram protagonistas das primeiras campanhas humanitárias da televisão paulista, tanto para arrecadar agasalhos no inverno como brinquedos para o Natal. “A gente ficava a noite inteira ali no caminhão recebendo as doações, o público queria entregar mas só se fosse nas nossas mãos.”

O filme O Diamante Cor-de-Rosa foi o último trabalho do trio. Logo depois veio o Festival de San Remo, de 1968, Roberto deixou o programa Jovem Guarda, que não durou muito sem ele. O cantor começou a fazer uma carreira “um pouco mais séria”, por sugestão do empresário Marcos Lázaro, que queria que ele amadurecesse junto com seu público. Você Vai Ser o Meu Escândalo, feita para Léa cantar, marcou o fim dessa fase. “As pessoas dizem que é um hino gay”, brinca Léa, que destaca da letra versos como estes: “Meu amor, não pode ser/ Não podemos mais fingir/ Até quando vamos ter/ Que esconder o nosso amor”.

A partir daí, os caminhos dela e Roberto se distanciaram. “Mas o que encanta nele é que quando a gente se reencontra é igualzinho. A distância geográfica não impede o querer bem.” Nas últimas temporadas, eles não têm tido muito contato. A última vez que cantaram juntos foi num especial de fim de ano do cantor, na TV Globo, em 2006. “É que nem família, que se reúne no Natal, nos aniversários”, compara Léa. Tudo o que ela espera de hoje é que “seja uma festa linda”. “E será, porque é uma coisa inusitada juntar tanta mulherada, 20 súditas homenageando o Rei.”

PORQUE AS DIVAS BAIANAS FICARAM DE FORA

BETHÂNIA, GAL E SIMONE – Desde que se falou pela primeira vez num tributo a Roberto Carlos reunindo as divas brasileiras, os principais nomes cogitados, além de Wanderléa, foram os de Maria Bethânia, Gal Costa e Simone. No entanto, nenhuma vai pisar o palco do Theatro Municipal hoje, mas outras três baianas – Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Cláudia Leitte -, que têm muito menos a ver com ele. Exceto pelo fato de que Roberto é quase uma unanimidade entre gerações de diversos estilos. Depois de Wanderléa, Bethânia é a cantora que tem ligação mais forte com o Rei. É entusiasta dele desde o início e gravou várias canções de seu repertório, seja de composições próprias ou de outros que ele tornou dele com sua interpretação inimitável. O grande marco dessa relação afetiva foi o álbum As Canções Que Você Fez Pra Mim, que ela lançou em 1994 com enorme sucesso. O nome de Bethânia chegou a ser anunciado, mas ela disse que não poderia. “Estou terminando de gravar dois discos e quero lançar outro até o fim do ano”, conta. Gal – que imortalizou Sua Estupidez e para quem Roberto e Erasmo fizeram aquela que se tornou sua assinatura, Meu Nome É Gal – está fora do País em turnê. Em entrevista recente ao Estado, Simone, que igualmente canta o Roberto romântico desde o início da carreira, disse que não tinha sido convidada. Foi depois, mas ela tem compromisso de patrocínio com outro banco e não pode participar deste encontro, que faz parte do projeto Itaú Brasil. Este será o primeiro de cinco eventos para celebrar os 50 anos de música de Roberto.

Estadão

 

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