Há muito se fala do distanciamento cultural do Brasil em relação aos seus vizinhos que falam espanhol. Esse isolamento ocorre com maior visibilidade na música porque, supõe-se, o montante produzido aqui gera um senso de autossuficiência, que se impõe sobre os demais países. Só que, em iniciativas isoladas, músicos e produtores brasileiros persistem na tentativa de fazer a boa música da América Latina atravessar as fronteiras e interagir com a de cá, como ocorre em sentido inverso. Um deles é o pianista Benjamin Taubkin, que dirige o Mercado Cultural em Salvador; outro é o guitarrista João Erbetta, curador da série Sons & Sonidos Eldorado – Interseções Latinas, que começa hoje no Bourbon Street Music Club, promovida pela Rádio Eldorado.

“A ideia do projeto surgiu há um certo tempo. A gente deu sorte porque a maioria dos caras em quem eu pensei a princípio pode participar agora, só troquei alguns nomes por uma questão de agenda”, diz Erbetta. “Já estou falando com outros para a versão do ano que vem. A ideia veio da minha vontade de unir essa duas vertentes, porque acho que nós brasileiros estamos sempre por fora. A gente peca um pouco em não se importar muito com o que acontece com os vizinhos. Seja pela língua, seja por preconceito besta. Eles sabem muito mais sobre nós, culturalmente falando, do que o contrário.”

O bandolinista carioca Hamilton de Holanda e o duo argentino Tango Crash, de tango eletrônico, abrem a programação, que não necessariamente privilegia a afinidade entre os músicos. “A intenção era fazer esse contraponto mesmo”, diz Erbetta, guitarrista e compositor paulistano radicado nos Estados Unidos desde 2006. “O som do Hamilton é mais acústico, a meu ver ele é um cara mais melódico, que tem uma exuberância de solista. E o Tango Crash tem mais essa coisa de clima, eles têm uma formação mais itinerante.”

Dos convidados internacionais, o único não-argentino é o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba, que divide o palco com Paulo Moura no dia 23. Erbetta diz que ter uma maioria de argentinos no elenco é uma coincidência – até porque havia músicos de outros países que não entraram no projeto -, mas pode ser também um pouco para compensar o preconceito. “Musicalmente essa discriminação é menor, mas acho um absurdo o tanto que brasileiro fala mal de argentino. Acho que é o povo que mais me trata bem no mundo”, diz Erbetta, que mantém em São Paulo sua banda Los Pirata.

Então vamos a eles. O duo do pianista Daniel Almada e do baixista Martin Iannacone começou em 1987, mas acabou em 89, quando Almada foi morar na Suíça. Em 2001 eles se reencontraram e no ano seguinte formaram o Tango Crash, lançando três álbuns entre 2003 e 2008. Os integrantes do Tanghetto também fazem esse intercâmbio entre Argentina e Europa. Com dois álbuns “oficiais” e outros projetos paralelos, eles tentaram uma aproximação nada convencional com a bossa nova no bom El Miedo a la Libertad (2008). Aqui vão tocar na mesma noite da Banda Mantiqueira.

O tango também é ingrediente da música de Adrián Iaies, pianista e compositor que transita pelo jazz e é bem conceituado nesse métier. Ele divide a noite com o virtuoso violonista gaúcho Yamandu Costa. Santiago Vazquez – baterista e percussionista que toca no mesmo dia em que Heraldo do Monte vai dedilhar sua fantástica guitarra – já esteve tocando em terras brasileiras com seu excelente grupo Puente Celeste. Foi trazido por Benjamin Taubkin, para um desses Mercados Culturais.

Dois pesos pesados da programação do evento, Paulo Moura e Gonzalo Rubalcaba têm em comum uma aproximação da música tradicional de seus países com o jazz e também com o choro, gênero brasileiro que o cubano aprecia. “Se é que existe Deus, ele é o Gonzalo Rubalcaba”, brinca Erbetta. Alguns encontros da programação foram planejados, outros foram “meio chutes, pra ver se ia vingar”. Mesmo à distância, Erbetta vem se comunicando com os artistas e sugerindo alguns temas musicais em comum, para prováveis encontros ao final das apresentações.
 

estadao.com.br

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