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Os Hippies

A noite está escura, fechada pelo tempo encoberto. A lua cheia não consegue transpor a barreira de nuvens grossas como um teto. Lá fora, passa o caminhão de lixo com seus homens pobres apanhando o lixo de seus pares ricos, fechados, isolados em seus muros de concreto. Tudo me parece tenebroso e estreito, e os latidos dos cães só alimentam o peso das sombras que me apertam o peito.
 

Quisera um mundo diferente desse em que vivemos apartados uns dos outros, acuados pelas diferenças que nos impuseram. Os hippies sonharam esse mundo e por certo tempo, o viveram. Mas o tempo passou e “o sonho acabou”, como disse John Lennon, quando os Beatles se separaram. A frase era premonitória e tempos depois o integrante mais ilustre da banda inglesa, ícone de toda uma geração, foi calado por um tiro.
 

Muitos se mataram ou enlouqueceram naqueles tempos; outros se acomodaram, envelheceram. Ainda hoje se vê nas ruas caricaturas do que foram os hippies nas vestes, nos modos, nos cabelos de alguns remanescentes, filhos e netos das comunidades livres do passado. Mas lhes falta a essência do movimento: o sonho pactuado de liberdade, paz e amor. Paz e amor, duas palavras e um gesto que calaram fundo na alma da juventude dos anos 60 e dividiram o mundo em antes e depois do movimento.
 

Os hippies são filhos diletos de Gandhi e Jesus Cristo; seu gesto de amor reacendeu em nós o sonho de um mundo fraterno e igualitário. Eu quase pude alcançá-los, na década de 80, quando ainda era possível rever seus passos, ouvi seus hinos de protesto, ler seus livros libertários, fonte de inspiração de várias gerações que vieram depois. Eros e Civilização, de Herbert Marcuse, era uma espécie de bíblia do movimento hippie. Um livro inesquecível e incrivelmente atual, que derrubava um a um os mitos do capitalismo e da felicidade através do trabalho, e escancarava a repressão ao desejo. Marcuse, discípulo de Freud, era uma espécie de guru daquela juventude e já em 1955, preconizava o colapso do capitalismo e o fim da sociedade do trabalho. Não será o que estamos vivenciando hoje, pergunto-me.
 

O que Marcuse não previu, no entanto, é que o status quo – que sustenta esse sistema – é tão poderoso e sinistro que a tudo pode absorver e digerir. O seu poder de adaptação é praticamente absoluto e ninguém conseguiu, desde então, abalar suas estruturas a ponto de ameaçar seu reinado. Até os processos revolucionários vitoriosos, passado um certo tempo, recriam castas de poder que se distanciam do povo, mais uma vez relegado à antiga condição de pobre e explorado.
 

Hoje, existe terapia para tudo, até para curar os inadaptados. Como se fosse possível adaptar-se ao mundo inóspito, desigual e violento em que vivemos, escrevo. Os números da pobreza no mundo atingem dois terços da humanidade. Quatro bilhões de seres humanos vivem, atualmente, com menos de dois dólares por dia, e destes mais de um bilhão vivem em pobreza extrema, com menos de um dólar por dia. Será que voltamos ao obscurantismo, à idade das trevas, ou de fato nunca saímos dela? É o que te pergunto, hoje, com o peito apertado pela dor, incógnito e fraterno leitor.

* Índices de pobreza no mundo, segundo o Banco Mundial:

• Todos os anos cerca de 18 milhões de pessoas (50 mil por dia) morrem por razões relacionadas com a pobreza, sendo a maioria mulheres e crianças.
• Todos os anos cerca de 11 milhões de crianças morrem antes de completarem 5 anos.
• 1 bilhão e 100 milhões de pessoas, um sexto da humanidade, vive com menos de 1 dólar por dia.
• 2 bilhões e 700 milhões de pessoas vivem com menos de 2 dólares por dia.
• Mais de 800 milhões de pessoas estão subnutridas.

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