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O pai do Chico e o filho da dona Julia

 Na manhã de  18 de dezembro de 1930, um jovem brasileiro sobe ao quarto 395 do Adlon, tradicional hotel de Berlim. A sua espera está Thomas Mann, Nobel de Literatura no ano anterior  e, àquela altura, uma das maiores celebridades do país. “Confesso que não era muito animadora a perspectiva de encontrar-me frente a frente com aquela fisionomia que parece apenas o pretexto para um nariz excessivo e que deve se conformar melhor à ironia do que à afabilidade”,  confessa o repórter de O jornal e do Diário de São Paulo.

Aos 28 anos, Sérgio Buarque de Holanda consegue um furo de reportagem: a confirmação, de viva voz, das origens brasileiras do autor de “Morte em Veneza”. Mann conta que Julia Bruhn da Silva, sua mãe, costumava contar histórias sobre o Brasil,  descrevia a beleza da Baía de Guanabara e, de forma mais surpreendente, atribui a esta origem sua singularidade:

“Creio que a essa origem latina e brasileira devo certa clareza de estilo e, para dizer como os críticos, um ‘temperamento pouco germânico’. (…)Estou certo de que a influência mais decisiva sobre minha obra resulta do sangue brasileiro que herdei de minha mãe. Penso que nunca será demais acentuar essa influência quando se critique a minha obra ou a de meu irmão Heinrich”.

A deliciosa reportagem faz parte do volume da série Encontros (Azougue Editorial) dedicada a Sérgio Buarque de Holanda. Na maioria dos 16 textos, Sérgio é, evidentemente, o entrevistado. De 1925 a 1982,  período documentado nas entrevistas, é a mesma pessoa: irreverente, pouco afeito às liturgias da vida acadêmica, nada afetado. Desde sempre, vacinou-se com humor e ironia da seriedade bocó dos grandes intelectuais brasileiros. Está à vontade, pimpão, na Novos Estudos, revista do CEBRAP, e na “Pais e Filhos”, onde, em 1968,  publica um depoimento impagável sobre o filho recém-famoso:

“Recebi a notícia de que Chico tinha ganhado o Festival de Musica Popular Brasileira com A banda, quando estava em Nova York. Um jornal norte-americano publicou a notícia. Claro que me senti muito orgulhoso. Cheguei à conclusão – o que uma revista publicou na época – que, antes, ele era meu filho. E depois do festival eu passei a ser o pai dele. Não há posição melhor. Têm surgido boatos por aí de que eu componho as músicas para ele. Mas, meu deus, quem sou eu para ter tanto talento? Se eu soubesse escrever músicas como ele, há muito tempo eu não seria eu mesmo, mas Chico Buarque de Holanda”.

Assim como o documentário de Nelson Pereira dos Santos, este livrinho dá uma vontade danada de ter conhecido este homem. O mesmo que, em 1954,  num cruzeiro pela Europa, fantasia-se de Netuno numa festa a bordo, de barbas brancas e tridente. A foto existe, está na edição comemorativa dos 50 anos de “Raízes do Brasil” (Companhia das Letras) e diz mais do que eu conseguiria sobre este tipo inesquecível.

 

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