Na quinta-feira, a violinista Irina Kodin, de 30 anos, fez parte de um capítulo importante da história da música paulista ao tocar na Sala São Paulo sob a regência do francês Yan Pascal Tortelier, que estreou substituindo o maestro John Neschling como titular da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Nascida na Bulgária, morando na cidade desde os 20 anos, quando foi contratada para integrar o naipe de primeiro violino da orquestra, Irina foi uma das protagonistas do crescimento e da popularização da Osesp nos últimos anos.

A violoncelista Larissa Mattos, de 20 anos, ainda dá os primeiros passos em um futuro cheio de possibilidades. Estudante de música na Universidade Federal de Minas Gerais, ela se diz “um pouco violoncelista, um pouco poeta, um pouco desenhista, um pouco compositora e um pouco arranjadora”. Atua em uma peça de teatro em Belo Horizonte e tem dois grupos de música popular: o Café Apoena, com influências de Mutantes e Secos e Molhados, e o Girau, com toques de Chico Buarque e Pixinguinha.

Irina, a música consagrada, e Larissa, a artista promissora, são as representantes do Brasil na YouTube Symphony Orchestra e vão se apresentar no Carnegie Hall, em Nova York, no dia 15 de abril. Elas foram escolhidas entre cerca de 3 mil vídeos e irão compor um time de 90 músicos de 30 países que tocarão sob a regência do maestro Michael Tilson Thomas, da San Francisco Symphony.

A grande inovação do projeto da orquestra foi justamente o processo de seleção dos candidatos. Cada concorrente tinha de postar um vídeo no YouTube tocando duas músicas, o que permitiu a participação de competidores de 70 países diferentes, do Azerbaijão à Venezuela. Uma das músicas ficava à escolha do participante. Irina e Larissa foram de Bach. No segundo vídeo, os concorrentes precisavam interpretar uma composição feita especialmente para a ocasião, de autoria do maestro chinês Tan Dun, ganhador do Oscar pela trilha sonora do filme O Tigre e o Dragão.

Nessa segunda performance, além de ler as partituras, os concorrentes deveriam acompanhar um vídeo na internet no qual o próprio maestro regia sua obra. Irina usou um iPod para tocar o violino no ritmo certo, sempre de olho na regência virtual de Tan Dun. Larissa, com um computador antigo e lento, teve dificuldade, compensada pelo carisma e pela técnica na execução da obra.

Dos 3 mil candidatos, 200 foram para a fase final, quando se iniciou uma votação on line para saber os preferidos da audiência na internet. Como era de se esperar, a vontade do povo não deixou de fora as duas belas, competentes e carismáticas representantes do Brasil.

Os 90 integrantes que vão se apresentar em Nova York tocam 26 instrumentos diferentes. A orquestra, de uma maneira geral, como queriam os organizadores, mistura profissionais renomados, como Irina, e promessas amadoras, como Larissa. Do mundo inteiro.

GAIOLA DAS POPOZUDAS

Além do projeto inovador, a iniciativa do YouTube busca popularizar a música erudita para as novas gerações. Mesmo com a ferramenta tecnológica correta para atingir os jovens, certamente a divulgação dos clássicos vai demandar uma trabalho hercúleo. O próprio processo de escolha mostrou o tamanho do desafio. Desde dezembro, 13 milhões de pessoas de mais de 200 países acessaram os vídeos do concurso de música clássica. Os organizadores consideram esses números um estrondo. O sucesso, contudo, é relativo se comparado à quantidade de acessos de um único vídeo do grupo de funk carioca A Gaiola das Popozudas, com 13, 045 milhões de page views.

Despertar a paixão por música de qualidade, contudo, não há quem discorde, demanda novos canais de divulgação dessas obras. No caso de Irina, nascida em Sofia, na Bulgária, quando o país ainda vivia sob comando de governo comunista, a paixão veio da forma como era usual em uma sociedade acostumada a planejar vida de seus habitantes desde criança.

Ela tinha 4 anos quando o pai, médico, e a mãe, dentista, colocaram sobre a mesa estetoscópio, livros, objetos de cozinha e um violino para ver qual deles a criança escolhia. Irina foi intuitivamente abraçar o instrumento musical. Sem saber, ela participava de um teste familiar para definir seu destino: estudaria música antes mesmo de aprender a ler. Aos 20 anos, foi selecionada para integrar Osesp. “Não tenho do que reclamar. Faço o que gosto”, diz.

No caso de Larissa, a paixão apareceu despretensiosamente. Quando era adolescente, começou a frequentar apresentações de orquestras e gostou do violoncelo. Passou a assistir a filmes e vídeos com o instrumento. Aos 15 anos, matriculou-se num curso técnico de música para ter aulas durante quatro anos por sete horas diárias. Atualmente, está no 3º ano da faculdade de Música. “Gostaria de ganhar a vida com música popular. Mas também amo música clássica”, explica.

NA INTERNET

Em Nova York, Larissa diz que pretende aprender com os outros instrumentistas mais experientes.Irina, há dez anos na Osesp, está ansiosa e sente curiosidade em voltar a tocar com instrumentistas de outros lugares. A apresentação da orquestra do YouTube, claro, estará à disposição na internet.

 

estadao.com.br

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