Marçal Aquino prefere os de espiral, estilo universitário. Já Joca Reiners Terron é adepto dos moleskines: não sai de casa sem o seu. Sérgio Sant’Anna costuma esquecer os bloquinhos, mas leva sempre consigo uma caneta, com a qual rabisca programas de ópera, mapas, catálogos de exposição. Raimundo Carrero dá às folhas de guarda (as páginas em branco ao final dos livros) as vezes de bloco: rascunha ali seus inícios de romance. Também original é a poeta Marília Garcia, que confecciona, ela própria, as suas cadernetas, munida de papel canson, linha de costura e tintas. Enquanto isso, Angélica Freitas anda apaixonada pelo caderno comprado num supermercado de Portugal, país de onde também vem um dos (atuais) bloquinhos preferidos de Carlito Azevedo.

Fato é que, em tempos de palms e lap tops, os escritores brasileiros, cada um a seu jeito, ainda se atiram à paixão pelo casamento caneta-papel. E o fazem com contornos de ritual: da escolha do bloquinho e da caneta, passando pelo estilo da letra e pelo jeito de organizar as folhas em branco, a escrita à mão habita o cerne do processo criativo – e é, ela própria, matéria literária.

Reza a lenda que Oscar Wilde não viajava sem o seu caderno (“É preciso ter sempre algo sensacional para ler no trem”, teria dito), e que, em suas andanças pelo mundo, o escritor inglês Bruce Chatwin preferia perder o passaporte a ficar sem um de seus estimados moleskines (“Isso sim seria uma catástrofe”).

Já o escritor carioca Sérgio Sant’Anna tem um apreço tão grande por suas anotações que mantém um quarto em seu apartamento dedicado exclusivamente a elas. Numa cama de casal, espalham-se folhas almaço e ofício, pedaços de papel e notas feitas nos tipos mais diversos de impressos: mapas de Praga, reclames, folhetos religiosos e catálogos de exposição.

– Às vezes eu até compro um bloquinho, mas tenho mesmo tendência para a desordem – admite. – Tenho sempre papel e caneta ao lado da cama, porque volta e meia acordo no meio da noite com uma ideia.

Sant’Anna faz questão de enumerar todas as páginas e, quase sempre, acrescenta as datas das anotações – que são margeadas por recados do autor para ele mesmo. Ao lado, pilhas de pastas de plástico, nas quais separa os papéis por temas.

Moleskines e guardanapos

Enquanto criava Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa mantinha um caderno de notas. Sentava-se diante dele todos os dias e escrevia furiosamente, sobre os temas mais diversos: das banalidades do dia a dia a questões transcendentais. Quando sentia que já havia esgotado todas as ideias da cabeça – ou seja, que já havia “limpado o aparelho”, como ele mesmo chamava – trocava de caderno e ia escrever mais um trecho do Grande sertão.

Quem conta a história é o poeta Carlito Azevedo, amante dos bloquinhos e também ele adepto disciplinado do método roseano:

– Caderno para mim é ‘limpeza do aparelho’. Sai cada bobagem… Acho até que eu propositalmente disfarço minha letra, fazendo-a minúscula ou então inclinando-a sobre a linha exageradamente, para impedir que alguém leia aquilo.

De fato, é impossível decifrar a letra miúda que preenche os blocos de Carlito. E não apenas pela caligrafia microscópica, mas também porque o poeta desenvolveu a mania de fugir da retidão, conduzindo as linhas em direções aleatórias: labirintos de letrinhas coloridas.

– Ali não é lugar de escrever, e sim de bagunçar, de criar atrito para ver se sai uma faísca. É uma espécie de aquecimento – justifica. – O mais engraçado é que se alguma coisa desse lixão ameaça ser um pouco melhor, logo é levada para o computador, e dali para um Chamex. Para o lixão da cabeça arrumamos uns cadernos maravilhosos, mas quando alguma coisa fica boa vai para a ‘veste vulgar’ de uma folha de Chamex. Contraditório, não?

Sim, é uma baita contradição. Ainda mais quando somos apresentados aos bloquinhos do autor: pilhas de capas coloridas, entre moleskines, peças da papelaria União e cadernos garimpados em brechós. Alguns deles têm um charme extra: foram feitos em casa por sua namorada, a também poeta – e adoradora dos blocos – Marília Garcia. No miolo, ao lado das anotações labirínticas, preciosidades como um selo com a imagem do poeta americano Walt Whitman, ou uma foto da poeta portuguesa Adília Lopes, aos 4 anos de idade, que ela mesma arrancou de um álbum de família para dar de presente a Carlito.

Cadernos de viagem

Assim como o companheiro, Marília tem pilhas de caderninhos. O objetivo, porém é outro: nada de “limpar o aparelho”, e sim fazer anotações perfeitamente legíveis – que podem ou não virar um poema mais tarde. Muitos deles são os chamados “cadernos de viagem”: bloquinhos que acompanham a poeta nas andanças mundo afora.

– Tem de tudo em meus cadernos: traduções de trechos de livros, anotações de trabalho [Marília também é editora], fragmentos de conversas que ouvi na rua e até uma receita de crepe, que copiei em Paris – conta, acrescentando que, em geral, seus textos nascem de algumas dessas notas: – O poema tem que passar da mão para o papel.

Outra que não vive sem o contato com a folha em branco é Carola Saavedra, que costuma anotar todo o processo de criação de seus romances em cadernos: o desenvolvimento do enredo, as características dos personagens, os problemas que surgem no desenrolar da trama.

– Eu penso através da escrita. Enquanto não rabisco minhas ideias no papel parece que não estão claras – explica a romancista, que costuma ser confundida com uma repórter, sempre que saca seu bloco para anotar alguma coisa na rua: – Muita gente me olha desconfiada.

Jornalista de verdade, o também escritor Marçal Aquino prefere deixar seus cadernos – os de tamanho A4, para estudantes – em casa, onde, garante, tem a maioria das suas melhores ideias. No papel, além das anotações, faz desenhos, cola ingressos, fotos e recortes de jornal.

– Os cadernos são, para mim, um banco de memórias – conta. – Às vezes me vêm frases ou títulos soltos. O nome de um dos meus livros, Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, por exemplo, eu anotei em um dos meus cadernos uns dois anos antes de escrever o romance.

Manias todos as têm. A do pernambucano Raimundo Carrero, por exemplo, é começar a escrever seus romances dentro de outros romances. Ou seja: em vez de bloquinhos, ele usa como rascunho as folhas em branco dos livros que tiver à mão. Assim, alguns de seus personagens nasceram nas folhas de guarda de edições de Julio Cortázar e de Samuel Beckett, apenas para citar alguns exemplos. Tudo começou quando ele vendia livros de porta em porta, antes de virar um autor consagrado. Aproveitava então o espaço vazio entre o fim do texto e a contracapa, e deitava a caneta:

– Página em branco é convite para escritor.

Preferências de tipos de caderno à parte, o papel essencial da escrita à mão é registrar aquilo que parece importante no momento exato de sua aparição, dizem os escritores.

– Fundamental não é o bloco, e sim a caneta. Com ela, você pode escrever em qualquer lugar – define malandramente a escritora Marcia Denser, que não usa bloquinhos por pura superstição: acha que dão azar. – Eu mesma já escrevi um conto inteiro, o “Relatório final”, em um pacote de guardanapos. Depois tive que grampear tudo, mas nunca alterei sequer uma vírgula dessa primeira versão.

Um moleskine mudou a vida do escritor, roteirista e quadrinista Lourenço Mutarelli. Antes de descobrir a legendária marca de cadernos italianos – que, dizem, eram usados por artistas como Ernest Hemingway, Van Gogh e Picasso – Mutarelli manteve por dois anos um palm top. Ao perdê-lo, ganhou de presente seu primeiro moleskine, e adotou um hábito peculiar: todas as manhãs ia até um café próximo de seu apartamento, em São Paulo, anotar em seu novo caderninho as conversas que ouvia nas mesas ao redor.

– Antes disso eu já anotava os diálogos dos garis, quando passavam recolhendo o lixo, frases que deram origem a algumas histórias em quadrinhos – confessa.

As idas ao café acabaram não rendendo tanto quanto o planejado, mas o escritor virou um viciado em moleskines. Hoje, um ano e meio depois da estreia nesta seara, já tem 15 deles. O vício justifica-se por uma mudança em seu processo criativo:

– Antigamente eu já usava blocos, mas, quando escrevia alguma coisa, sabia mais ou menos o que seria. A verdade é que me incomodava a falta de cadernos sem pauta no Brasil. Com a chegada dos moleskines, eu pude desenhar e escrever ao mesmo tempo. Busco jogar ali as ideias sem sentido, sem saber o que vai aparecer. Exercito o nonsense.

Tanto que o autor criou o que ele chama de “a vida com efeito”: o ato de “escrever após ter bebido” para, assim, obter resultados cada vez mais sem sentido. Em breve, diz ele, pretende editar as anotações de seus moleskines em um novo projeto.

Também fã dos caderninhos italianos (em seu blog há imagens escaneadas dos desenhos que faz nas páginas em branco, em posts que ele chama de “moleskinadas”), o poeta, designer e prosador Joca Reiners Terron viveu um episódio que dá arrepios a qualquer escritor: teve seu bloquinho roubado em Buenos Aires. E justamente aquele que continha as anotações de sua viagem ao Cairo, pelo projeto Amores Expressos. Ainda assim, não esmoreceu:

– Em geral ando com um para escrever e outro para desenhar. Hoje eu tenho vários modelos diferentes, mas, até pouco tempo atrás, eles eram inacessíveis. Agora que já são vendidos a preços razoáveis no Brasil, vejo uma certa obsessão por eles.

A poeta Angélica Freitas também comenta o furor em torno da marca de cadernos que, fabricados em pequenas manufaturas francesas, alimentaram a vanguarda intelectual europeia durante os dois últimos séculos e, agora, são feitos por uma editora italiana.

– A primeira vez que eu vi um moleskine foi em 2003, na Alemanha, e o comprei porque tinha lido um livro do Bruce Chatwin [o escritor inglês que comprava seus moleskines na Rue de l’Ancienne Comédie, e que chegou a estocar 100 deles quando foi para a Austrália, número insuficiente para a sua obsessão pelos bloquinhos] – relembra. – Mas eu prefiro os cadernos escolares, tradicionais, como o que estou usando agora, que comprei em um mercado em Portugal. Acho os moleskines charmosos e elegantes, mas fico pensando: o Hemingway usava, o Chatwin usava, o Picasso usava, não posso escrever qualquer porcaria aqui. Preciso aprender a desrespeitar os moleskines.

Angélica, assim como a maioria de seus colegas, não joga fora os seus cadernos. Há poucos dias, recém-chegada de uma temporada na Europa, reencontrou um caderno antigo, na casa de sua família, no Rio Grande do Sul. Eram anotações de uma viagem que fez à Bolívia, há 3 anos:

– Me surpreendi com muita coisa, que devo passar para o computador logo logo.

 

JB Online
 

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