Merece destaque a presença de quatro rainhas interpretadas por atrizes de grande talento na mostra de artes cênicas de maior repercussão no País, o Festival de Teatro de Curitiba, cuja 18ª edição terá início na quarta-feira. Num evento que exibe números vistosos e tem como proposta ser a vitrine da cena contemporânea nacional, a possibilidade de ter na programação duas diferentes leituras de um grande clássico da literatura dramática – Mary Stuart, do alemão Schiller – por si só seria sinal de potência do panorama teatral brasileiro.

Porém, melhor ainda, o espectador terá a oportunidade de conferir a saga das soberanas Elizabeth I e Mary Stuart – personagens históricas cujo entrelaçamento trágico de trajetórias inspirou Schiller nessa peça sobre poder e liberdade – em recriações de linhas estéticas bem diferentes. Em cartaz no Rio, Maria Stuart tem 15 atores, traz Julia Lemmertz e Clarice Niskier nos papéis de Mary e Elizabeth, sob direção de Antonio Gilberto, e o texto de Schiller quase na íntegra. Já o elenco de Rainha(s) se restringe a Isabel Teixeira e Georgette Fadel, como Mary e Elizabeth, e a montagem dirigida por Cibele Forjaz é recriação radicalmente autoral da mesma peça e chega ao festival depois de cumprir temporada de êxito em São Paulo.

Ainda que sempre ocorram cancelamentos de última hora, estão previstos 315 espetáculos (programação completa: www.festivaldecuritiba.com.br), cada um com pelo menos duas sessões, nos 11 dias de programação. Num evento de tal amplitude numérica há a tentação de buscar rumos ou tendências, o que é sempre temeridade numa cena diversa como a brasileira. Mas se algo pode ser detectado é a potência dos textos como fator de atração. Evidentemente não se trata de uma regressão à ultrapassada disputa corpo versus palavra ou encenador versus autor ou um possível retorno à submissão dos demais elementos teatrais à palavra. Mas, sem dúvida, a possibilidade de ouvir um belo texto, devidamente potencializado pela escrita cênica, mesmo que pela desconstrução, amplia a expectativa positiva em torno de muitas montagens.

Por exemplo, o texto de Camus propicia prazer extra ao espectador de Calígula, dirigido por Gabriel Villela e protagonizado por Thiago Lacerda. Salta aos olhos a forte presença de autores de clássicos como Schiller (Mary Stuart), Shakespeare (Medida por Medida e Muito Barulho por Nada), Camus (ainda O Estrangeiro) e Tennessee Williams (O Zoológico de Vidro, com Cássia Kiss em elogiada atuação). E há grandes textos de dramaturgos contemporâneos como Edward Albee (A Cabra) e Tom Stoppard (Rock? N? Roll). Esta última montagem tem Otávio Augusto e Gisele Fróes integrando um elenco de dez atores, faz sua estreia na mostra, e tem tudo para fazer jus à boa expectativa que a cerca.

Tal potência pode ser estendida às produções brasileiras. A dramaturgia de A Inveja dos Anjos, do grupo Armazém, acaba de ser premiada com o Shell no Rio, além de ter valido um prêmio de atriz a Patricia Selonk. Igualmente positiva é a expectativa em torno de Por Um Fio, que tem como matéria-prima contos de Drauzio Varella, trabalhados com delicadeza pela direção de Moacir Chaves e pela interpretação de Regina Braga e Rodolfo Vaz. Moacyr Scliar é outro autor cuja obra ganha forte teatralidade na interpretação de Inez Viana em A Mulher Que Escreveu a Bíblia. Ainda em cartaz em São Paulo, A Mulher Que Ri, confirma o talento do jovem dramaturgo Paulo Santoro, cujo texto recebeu concepção cênica de Yara de Novaes sofisticada na construção, mas fluente e simples no resultado, e muito bem executada pelo trio de atores.

Ainda que tenha qualidade, impossível não detectar certa previsibilidade na mostra principal desta 18ª edição. Quanto ao Fringe, com suas 290 peças, não selecionadas por uma curadoria, mas aceitas por ordem de inscrição, oferecerá surpresas? É conferir. A falta de políticas culturais voltadas para a circulação se faz notar na redução, a cada ano mais evidente, da amplitude geográfica do festival. Segundo dados da organização do evento, há apenas 16 peças da região Nordeste, 6 da Centro-Oeste e nenhuma da Norte. “O festival, vitrine que é, reflete o problema brasileiro de falta de apoio local às produções”, argumenta Leandro Knopfholz, diretor do evento.

 

NÚMEROS

180 mil pessoas
é o público estimado desta 18.ª edição do festival que conta com

25 espetáculos
convidados na mostra principal e outros

290 no Fringe,
vindos de 17 Estados brasileiros, de 4 regiões do País,
que serão apresentados em 56 espaços fechados e 7 a céu aberto,
entre praças e ruas, num total de 230 mil ingressos à venda

Peças da mostra principal

A CABRA OU QUEM É SYLVIA?São Paulo – SP
Com José Wilker e Denise Del Vecchio. Direção de Jô Soares

A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA – RJ. Com Inez Viana. Direção de Guilherme Piva

A MULHER QUE RI – SP
Direção de Yara de Novaes

AQUELA MULHER – SP
Com Marília Gabriela. Direção de Antonio Fagundes

AUTOPEÇAS – RJ
Companhia dos Atores

BORBULHO – Curitiba – New York. Direção de Rosane Chamecki e Andrea Lerner

CALÍGULA – SP
Com Thiago Lacerda. Direção de Gabriel Villela

DOIDO – SP. Dramaturgia, direção e atuação de Elias Andreato

HISTÓRIAS DE CHOCAR (Ensaios de Amor) Belo Horizonte – MG
Rita Clemente e Paulo Azevedo

INVEJA DOS ANJOS – RJ
Armazém Cia. de Teatro

LESADOS – Fortaleza – CE
Grupo Bagaceira

MARIA STUART – RJ
Julia Lemmertz e Clarice Niskier. Direção de Antonio Gilberto

MEDIDA POR MEDIDA
Rio de Janeiro – RJ
Direção de Gilberto Gawronski

MEMÓRIA AFETIVA DE UM AMOR ESQUECIDO – RJ
Direção de Ivan Sugahara

MÉNAGE – SP
Direção de Marina Person. Com Domingas Person e Ivo Müller

MUITO BARULHO POR QUASE NADA – Natal – RN
Grupo Clowns de Shakespeare

O AMANTE DE LADY CHATTERLEY -SP. Direção: Rubens Ewald Filho

O ESTRANGEIRO – RJ
Com Guilherme Leme. Direção de Vera Holtz e Guilherme Leme

O ZOOLÓGICO DE VIDRO – RJ
Com Cássia Kiss. Direção de Ulisses Cruz.

OCEANO – SP
Circo Roda Brasil ,com os grupos Parlapatões e Pia Fraus

POR UM FIO – SP
Com Regina Braga e Rodofo Vaz. Direção de Moacir Chaves

RAINHAS – SP
Georgette Fadel e Isabel Teixeira. Direção de Cibele Forjaz

ROCK”N”ROLL – RJ
Com Otávio Augusto. Direção: Felipe Vidal e Tato Consorti

SIN SANGRE – Chile
Compañía Teatro Cinema

TÁ NAMORANDO! TÁ NAMORANDO! – Fortaleza – CE
Infantil – Grupo Bagaceira

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