Por pbagora.com.br

“O dia em que São Paulo parou”. A inscrição no cartaz do filme “Salve geral” associada à imagem de presos rebelados que seguram uma imensa faixa improvisada com os dizeres “Paz, justiça, liberdade” pode confundir o espectador que for ao cinema esperando assistir a um longa-metragem sobre os atentados de maio de 2006. De acordo com o cineasta Sergio Rezende, “Salve geral” é um filme de ficção, apenas inspirado em fatos reais.

“É um filme de ficção, e há um outro viés que é uma história de amor. Não sou jornalista. Meu objetivo não é mostrar a realidade, mas revelá-la”, afirma. A história de amor a que ele se refere acontece entre mãe e filho. Lucia (Andréa Beltrão) enfrenta dificuldades financeiras após a morte do marido, e é obrigada a mudar de vida. As aulas de piano já não são suficientes para manter a vida que costumava levar.

 

No Dia das Mães, seu filho, Rafa (Lee Thalor), diz que vai ao cinema com um colega. Ao tentar impressionar uma menina, bate o carro. Confusão, tiros. O amigo é alvejado, ele atira e é preso em flagrante. A vida de Lucia imediatamente muda de rumo. Ela fará de tudo para tirar o filho da cadeia –inclusive se envolver com a facção que acabará, um ano depois, comandando os ataques à cidade de São Paulo.

 

“Estamos no fio da navalha, há uma linha muito tênue entre o bem e o mal. Em uma cena emblemática do filme, Lucia discute com a irmã e diz: ‘não sou juiz de ninguém’. Até porque, num dia ela está dedilhando um piano e, no outro, dando um tiro de 38”, diz Rezende.

 

Em sua tentativa de “revelar a realidade”, o cineasta, no entanto, se aproveita de um aglomerado de acontecimentos que dão muito mais dramaticidade ao longa do que propriamente a tal história de amor. Apesar de desconstruir personagens conhecidos do grande público, como o bandido Marcola (Marco Willians Herbas Camacho, acusado de liderar a facção que age nas cadeias) e as autoridades que estavam no governo naquela época, “Salve geral” consegue montar um retrato bem estruturado do que levou aos ataques de 2006, embora se mantenha superficial por sua falta de comprometimento com a realidade e pela síntese de eventos que, na história, acabam perdendo a força.

 

Polêmica

Decidido a fazer um trabalho que não fosse puramente real, Rezende, em suas pesquisas, conversou com jornalistas e promotores, além de ter lido livros e entrevistas a respeito do assunto. Mas não entrevistou detentos.

 

Mesmo assim, desde antes da estreia de “Salve geral’ o cineasta vem escutando acusações de que estaria se posicionando a favor dos bandidos ou fazendo apologia ao crime –especialmente por reproduzir no longa a versão dos presos de que a facção criminosa teria sido criada para combater o desrespeito do governo com relação às leis e no tratamento dos detidos.

 

“Tenho claro para mim que o filme não toma partido de ninguém. Não acho que bandido bom é bandido morto. É bandido, sim, mas é ser humano. As condições do sistema prisional são lamentáveis. Os direitos dos presos são desrespeitados, as pessoas estão lá, enfurnadas. Preciso olhar para elas com compaixão. São pessoas maravilhosas? Não. Como nós também não somos. O ser humano é falível, fraco. E foi por isso que se organizou o Estado, que não pode desrespeitar as leis que ele mesmo criou. Por que eu haveria de defender o crime? Em nome de um ataque pueril ao Estado?”, questiona o cineasta.

 

Outros dois trechos do longa vêm criando debate. O primeiro deles em que o diretor mostra representantes do governo negociando com a facção para que os ataques cessassem –manobra veementemente negada por Cláudio Lembo, então governador. Em entrevista ao G1, ele criticou o filme e voltou a afirmar: “Eu nego que esse acordo tenha acontecido. Ao menos, nunca o conheci na posição de governador. Dei autorização para a advogada [de Marcola] ir até [a penitenciária de Presidente] Venceslau”, disse Lembo, atualmente secretário de Negócios Jurídicos.

 

Rezende rebate: “Isso [a negociação] para mim é elogio. Foi um ato de bom senso do governo. Negociar é razoável, é correto. Não havia outra coisa a fazer. Isso não inventei, foi amplamente divulgado pela imprensa”.

 

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