Por um fio: Arte medieval se torna produto artesanal para quem deseja exclusividade e qualidade milenar
A faca é o instrumento de corte mais antigo do que possamos imaginar, antes feitas de forma rudimentar com pedras e ferro, o aço e outros materiais são os mais comuns atualmente.
A utilização destas facas vai desde uso para alimentação, decoração, ferramenta, arma, e cada utilização requer uma lâmina, modelo e método de fabricação. O diferencial de uma faca forjada artesanalmente para uma que foi feita de forma industrial é a capacidade de personalizá-la, porque nenhuma será igual a outra e pode ser feita de formar encomendada com algumas especificações pessoais do comprador.
Algumas partes de uma faca artesanal não existem em uma tradicional como o botão – é uma parte essencial nas facas forjadas integrais, e geralmente um indicador da qualidade técnica do artesão que a construiu; ricasso-parte cuja denominação vem do inglês, também é conhecido como “bigotera”, é uma herança das espadas, servindo como reforço ao conjunto da lâmina; as linhas em bisel (onde se unem dois os dois planos da lâmina) recebem o nome de “cordões”. Sua existência em uma faca, assim como o ricasso, está mais ligada ao estilo de desbaste do que ao tipo de lâmina. Em alguns tipos de faca há outra parte componente, os chamados “bolsters” que não fazem parte da lâmina como o botão, mas são fixos à estrutura da faca por pinos ou solda.
A única mulher na Paraíba que desenvolve este tipo produto no Estado é a artesã Rosicler Maria Fontana que aprendeu o ofício de cutelaria medieval com o ex-marido que faleceu este ano, Paulo Ramalho que começou na arte medieval em 1995, após trabalhar a vida toda como jornalista.
“No princípio, a faca era uma lasca de pedra com um pedaço de couro para o cabo, muita coisa mudou até os dias de hoje, mas ainda é uma lâmina com um cabo que precisa da mão do homem para o seu manuseio . Minha inspiração para começar na cutelaria foi o meu marido Paulo Ramalho que entrou no ofício em 1995. Eu comecei na cutelaria em fevereiro de 2011, depois de conhecê-lo e participar do Salão do Artesanato Paraibano. O amor que ele tinha por esse tipo de artesanato me encantou e me inspirou a querer aprender cutelaria que tem uma magia especial e é belo”, explicou.
Segundo Rosicler, o processo de fabricação de uma faca atualmente consiste em modelar a lâmina, seja através do processo de forja ou de desbaste e aplicar um tratamento térmico conhecido como têmpera, que confere dureza ao fio da lâmina. A lâmina então é afiada e cabeada.
Hoje em dia, com o falecimento da sua inspiração em 21 de julho, Rosicler tem dado continuidade nos ensinamentos do amado e junto com alguns ex-alunos dele estão seguindo o legado da arte milenar de cutelaria medieval.
Indagada sobre perfil dos clientes e finalidade das facas, a artesã informou que quem compra seus produtos são os amantes de facas exclusivas, seja para cozinhar, decorar ambientes e presentear amigos com algo diferenciado e útil para diversas ocasiões.
O processo de fabricação segue etapas quase que idênticas as originais, uma tradição milenar passada através de culturas muito antigas até os dias de hoje, o que diferencia são algumas ferramentas e materiais. É quase mágico ver um pedaço de aço se transformar numa bela faca para decoração feita em tamanho aumentado para melhor exposição, por exemplo.
Rosicler explicou como é o seu trabalho e da magia que desperta a arte medieval da cutelaria.
“Começamos com o forjamento do aço inox, onde pegamos um pedaço de aço e transformamos numa lâmina, depois vamos para a usinagem, fazemos a têmpera e o revenimento, para depois fazer o cabo, bainha, e por último a afiação. Para a lâmina usamos aço inox e aço 420. Para o bolster ou guarda, usamos latão. Para o cabo usamos madeira reciclada, osso de boi ou de bode e para a bainha usamos couro de bode”.
Como única mulher que produz este tipo de produto no Estado, Rosicler disse que não sente preconceito e sim orgulho do que faz e de ser respeitada por isso.
“Tenho orgulho do meu ofício e por ser mulher , algo que não é comum, muito menos aqui na Paraíba, onde sou a única que vive da cutelaria. Sou reconhecida pela Curadoria do Artesanato como cuteleira, onde sou registrada. Em relação ao preconceito, não sinto isso para comigo, sinto que sou respeitada, principalmente pelos amigos cuteleiros. Tenho o sentimento de que eles falam com orgulho que sou a única representante do sexo feminino na cutelaria no Estado e talvez no Nordeste. Como Ramalho sempre dizia: “a faca é feminina, tem suas curvas harmônicas e é letal”, destacou.
Em relação as vendas, Rosicler destacou a internet como uma forma eficiente de comercializar seus produtos, a maioria feitos por encomenda, mas citou também as feiras de artesanato e indicação de amigos como importantes para o escoamento das mercadorias. E citou como modelos mais procurados as facas Kukri, a Bowie e a faca para churrasco.
A única mulher que desenvolve este tipo de trabalho na Paraíba faz um convite para quem deseja conhecer o trabalho desenvolvido há tantos milênios por nossos ancestrais e que atualmente não se limita mais ao uso na caça e lutas armadas, pode ser artigo de luxo e exclusividade para utilizar na cozinha e decorar um espaço com muita magia e história.
“Vou estar participando do Salão do Artesanato Paraibano que começa no próximo dia 20 e tem duração de 30 dias, no Jangada Clube em Cabo Branco, onde a Cutelaria Casa Ramalho estará expondo facas deixadas pelo meu Mestre Cuteleiro Paulo Ramalho, e facas produzidas por mim. Lá estarei fazendo uma homenagem a Ramalho, um homem especial que tanto amou este ofício de Cuteleiro Medieval e que me ensinou essa arte, pois era o desejo dele que essa tradição não morresse”, finalizou.
Fotos: Cutelaria Medieval Ramalho
Vanessa de Melo
PB Agora
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