Por pbagora.com.br
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O sol a pino insistia em fritar o cérebro daquela moçoila de andar pausado e olhar apontado para um horizonte cinzento. A grande movimentação dos transeuntes numa calçada estreita assentada no Centro da cidade, o barulho dos veículos, e a apresentação de um malabarista de rua não a “tocavam”.

Em meio ao universo caótico recheado de sons, cheiros, cumprimentos rápidos e o gritar de um ambulante idoso que vendia artigos do oriente, a menina moça transpirava apenas amargura. O seu corpo era levado pela “obrigação” do viver, mesmo sendo para ela um profundo e penoso exercício.

Esbaforida pelo ar quente que tocava sem piedade suas bochechas morenas, resolveu sentar-se em um banco de concreto que, gentilmente, era acolhido pela sombra de uma bela e frondosa árvore. A garota se sentia solitária e triste. Pensava não haver mais esperança e entendia que sua rápida caminhada nas alamedas da vida estava por um fio muito fino e frágil, quase débil e desprovido de vigor.

Sua aflição era intensa e, a cada respiração, uma lufada de desânimo soprava sua alma combalida e em franca decomposição. E assim minutos eternos se passaram, estando a jovem prisioneira da sua própria caverna. Estava ela acorrentada pelas sombras do desatino e desamor.

Olhos marejados e fustigados pela solitude e solidão, ergueu lentamente a cabeça e observou anjos e querubins ao seu redor. Sim, estavam eles sorrindo. Aqueles seres celestiais encontravam-se presentes no ambiente em forma de um longo painel. Uma aquarela vívida e exposta por um artista anônimo.

A menina observou atentamente a arte e, mesmo que de forma oblíqua, sorriu. Um sorriso que preencheu, de certa forma, alguns pontos da sua alma confusa com a mais singela felicidade. E assim foi iniciado um diálogo mental travado, serenamente, pela garota e os traços coloridos e sorridentes. Para ela, as pinturas tinham vida naquele momento. Vida, apenas vida. Nada mais que isso.

Querubins e anjos fitavam a jovem, ao ponto de quase descerem do painel. A jovem não associou as figuras a traços religiosos. Neles, identificou algo bem mais forte e belo. Aquilo que a mãe terra chama de amor. Sim, estava ali esse sentimento. Sempre esteve. Sempre no coração da menina, embora ela, por razões desconhecidas, tivesse esquecido no baú dos despercebidos.

E assim a tarde veio. Chegou vagarosamente, acariciando a árvore, o banco de concreto e a menina moça que havia encontrado, naquele espaço, a felicidade. Regozijante, ergueu sua cabeça. O firmamento já não possuía tons de cinza. Ao contrário, um azul anil se apresentou. Cores, sons, cheiros, lágrimas e sorrisos da cidade viva foram despertados.

Ao longe, o malabarista continuava a jogar argolas multicoloridas para o alto, recebendo o aplauso da plateia que o circundava. Repentinamente, como alguém que desperta de um pesadelo e vê que o medo veio de algo imaginário, a moçoila acenou para os anjos de plumas alvas, entrou novamente na alameda do ser vivo, sentiu o tocar dos transeuntes da calçada estreita, ouviu o barulho dos veículos e, em gesto de retribuição, foi até o ambulante idoso e deu um abraço.

Desconcertado com o gesto, o velho senhor não entendeu a gentileza, mas retribuiu o afeto percebendo a alegria no rosto da quase criança, quase mulher. Em seguida, ele perguntou o motivo de tamanha felicidade e, sem pausa para reflexão, apontou a jovem para os anjos e querubins, explicando que aquela imagem havia novamente despertado o amor em seu interior.

Com a sabedoria dos que têm a longevidade no coração, nada disse o ambulante, apenas sorriu para aquela que também sorria. E assim a garota retornou para a vida. E a tarde se foi, desarmando o velho homem sua pequena banca apinhada de bugigangas mil. Em seguida, aquele senhor de pele enrugada cumprimentou a árvore, agradeceu ao banco de concreto a hospitalidade e retocou novamente sua aquarela, na certeza que outros seriam atraídos pela arte chamada amor.

Eliabe Castor
PB Agora

 

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