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Caso Vaqueirinho pode virar livro de autor que fez sucesso mundial na Netflix

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Autor do livro que inspirou o fenômeno “Inexplicável”, um dos filmes mais assistidos do mundo na Netflix, o escritor e professor paraibano Phelipe Caldas agora mergulha em uma investigação profunda sobre a morte de Gerson de Melo Machado, 19 anos, conhecido como “Vaqueirinho de Mangabeira”, atacado por uma leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em João Pessoa.

Aos 43 anos, Phelipe vive um contraste incomum no cenário cultural brasileiro. Enquanto o filme Inexplicável figurava entre os três mais assistidos globalmente na Netflix, ele mantinha a rotina como professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em Campina Grande, conciliando aulas, orientação de estudantes de jornalismo e a apuração de um novo livro ainda sem editora definida.

“Inexplicável”, estrelado por Letícia Spiller e Eriberto Leão, é inspirado na obra-reportagem “O menino que queria jogar futebol”. Publicado de forma independente em 2018, o livro foi adaptado para o cinema após contato do diretor Fabrício Bittar pelas redes sociais. Sem agente ou estrutura editorial robusta, o autor negociou diretamente os direitos. Apesar do êxito internacional, ele afirma que o retorno financeiro ficou longe da imagem de fortuna associada a produções de sucesso no streaming.

O novo projeto: além do fato policial

O novo livro parte do incômodo com a cobertura jornalística sobre a morte de Gerson, ocorrida após ele invadir a jaula de uma leoa no zoológico da capital paraibana. Para Phelipe, a abordagem predominante na imprensa foi marcada por rapidez excessiva, exploração emocional e pouca contextualização da trajetória do jovem.

Mesmo diante de hipóteses levantadas publicamente, como a de possível suicídio, o autor avalia que faltaram cuidados éticos e aprofundamento na análise das circunstâncias. Ele destaca como exceção uma reportagem exibida pelo Fantástico, que dedicou cerca de nove minutos ao caso — ainda assim, tempo considerado insuficiente para abarcar a complexidade da história.

Outro ponto central da investigação é o próprio apelido “Vaqueirinho”, que, segundo o autor, não era apreciado por Gerson. No livro, ele busca reconstruir a origem do rótulo e discutir como a repetição acrítica do termo contribuiu para reduzir a identidade do jovem a uma caricatura.

Apuração extensa e olhar antropológico

O projeto ganhou dimensão de grande reportagem. Até agora, o escritor já entrevistou mais de 30 pessoas que conviveram com Gerson e analisou quase dez mil páginas de documentos, incluindo registros da Vara da Infância e Juventude, relatórios de casas de acolhimento e documentos da rede municipal de assistência social de João Pessoa. Parte do material exigiu autorização judicial para acesso.

Com formação em antropologia — área em que possui mestrado e doutorado —, Phelipe combina técnicas de jornalismo investigativo com análise social, cruzando depoimentos, confrontando versões e identificando contradições entre relatos e registros oficiais. Segundo ele, é nesses desencontros que emergem possíveis falhas institucionais.

Para além da tragédia

O livro propõe uma leitura mais ampla da trajetória de Gerson, marcada por passagens por instituições de acolhimento e sucessivos rompimentos de vínculos afetivos. Embora tenha recebido diagnósticos formais de transtornos mentais ao longo da vida, o autor questiona o que considera uma patologização precoce, que pode ter reforçado estigmas e contribuído para sua exclusão social.

Ainda sem título definitivo — a ideia inicial, “Abandonado”, foi descartada — e sem contrato com editora, o projeto segue em fase de produção. Para Phelipe Caldas, a intenção é construir uma narrativa que vá além do episódio que chocou o país, refletindo sobre abandono, sofrimento psíquico, pobreza e os limites do jornalismo diante de histórias complexas.

Entre o reconhecimento internacional inesperado e a decisão de investigar uma tragédia marcada por silenciamentos, o escritor reafirma uma escolha pouco comercial, mas coerente com sua trajetória: contar histórias que exigem tempo, profundidade e responsabilidade.

As informações são do Jornal de BrasíliaAQUI

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