Por pbagora.com.br

Se Frost/Nixon faz uma profunda meditação sobre a personalidade de Richard Nixon valendo-se de cenas fictícias, Che, que também entra em cartaz neste mês, realiza o caminho oposto. Poucas reconstituições históricas são tão fiéis — fiéis, no caso, aos diários de Che Guevara, em que o filme se baseia. O personagem que emerge, no entanto, não é entusiasmante, complexo, nem mesmo provocativo. Che, o filme, é antes de tudo a materialização do sonho de um ator, o porto-riquenho Benicio del Toro. Se existem filmes de diretor e filmes de roteirista, como do já citado Frost/Nixon, Che é basicamente um filme de ator. Mas — infelizmente — é só isso.

 

Che Guevara esteve nos cinemas recentemente, quando o brasileiro Walter Salles o retratou em sua lendária viagem pela América Latina, em Diários de Motocicleta. Mas o Che que entrou para a história, com a basta cabeleira, o uniforme de guerrilheiro e a indefectível boina, só agora ganhou as telas. E a reconstituição de Del Toro é realmente impressionante. Em seu trabalho, ele contou com a colaboração do jornalista americano John Lee Anderson, autor de uma das biografias mais respeitadas de Che. Depois das leituras sobre o personagem, o ator visitou Cuba e conversou com companheiros do guerrilheiro, que lhe contaram sobre o jeito de se comportar e falar do “comandante”, incluindo os trejeitos físicos. O ator também foi à Bolívia, onde falou com camponeses nos povoados por onde o guerrilheiro passava. Todo esse trabalho resultou numa atuação antológica. Del Toro se transformou em Che de tal maneira que é difícil até distinguir, nas fotos de divulgação do filme, quem é um e quem é outro (faça um exercício: tape a legenda com a mão e tente reconhecer quem é quem nos retratos acima).

 

Infelizmente, essa é a única virtude do filme. O que se vê na tela é um Che despido de sua complexidade. Isso ocorre, entre outras razões, pela escolha dos períodos retratados. A saga dirigida por Steven Soderbergh — diretor convidado por Del Toro — se divide em duas partes. A primeira, Che, mostra Guevara comandando a guerrilha vitoriosa que derrubou o ditador cubano Fulgencio Batista. É um épico — em que Che emerge como o líder de um dos grandes momentos da história do século 20. Na segunda parte, Che — A Guerrilha, que estreia daqui a dois meses, o argentino aparece como mártir de uma experiência fracassada — a tentativa quixotesca de criar um movimento guerrilheiro na Bolívia.

 

Soderbergh e Del Toro omitiram, no entanto, o período do meio, em que Che participa do governo cubano que se estabeleceu sob Fidel Castro, como presidente do Banco Nacional de Cuba e ministro da Indústria. Nessa época, Che assumiu a coordenação dos fuzilamentos dos inimigos do regime. Teve também atuação polêmica no caso da instalação de mísseis nucleares soviéticos em Cuba, apontados para o território americano. A ameaça de uma guerra nuclear nunca ficou tão próxima do mundo. Fidel e os russos concordaram em retirar os mísseis, mas Che os queria lá, mesmo que a guerra estourasse.

 

Fascinado por seu personagem, Del Toro assumidamente quis fazer de Che uma espécie de super-herói. Em entrevistas, ele comparou o guerrilheiro ao Super-Homem e ao Batman, um homem fora do comum que lutava contra a injustiça. Coincidência ou não, nos créditos finais do filme aparecem como apoiadores da produção o ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficas — órgão oficial do governo castrista) e o governo boliviano do bolivariano Evo Morales. Se tivesse se aprofundado na complexidade de Guevara, com seus erros e contradições, Che e Che — A Guerrilha poderiam ser um triunfo cinematográfico. Tal como foi feita, a saga fica na superfície e parece uma peça de propaganda.

 


O Filme

Che, de Steven Soderbergh. Com Benicio del Toro. Estreia prevista para este mês.

 

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