Quando o Olodum foi fundado, no dia 25 de abril de 1979, o Pelourinho era reduto de marginalidade e prostituição, e as únicas metas do bloco eram chamar a atenção para a degradação do centro histórico de Salvador e divulgar a música, a dança e os costumes africanos.

 

Três décadas depois, o Pelourinho e o Olodum passaram por muitas transformações. Com quase 1.000 dos seus 3.000 casarões dos séculos 16, 17 e 18 restaurados e revitalizados, o centro histórico recebeu da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) o título de patrimônio cultural da humanidade e, desde 1990, é a atração mais visitada pelos turistas que chegam à capital baiana. Já o Olodum ganhou o mundo. Da banda tímida que participou pela primeira vez do Carnaval de Salvador em 80, arrastando pouco mais de 500 foliões, nada mais resta. Pelo contrário. A batida inconfundível dos 200 percussionistas do grupo chamou a atenção de dois dos cantores pop mais reverenciados em todos os tempos: Paul Simon e Michael Jackson.

 

A internacionalização do Olodum começou na década de 90, quando o grupo participou da gravação da faixa “The Obvious Child”, do disco “The Rhythm of the Saints”, de Paul Simon. O videoclipe foi gravado no Pelourinho e exibido em mais de cem países. Em 96, outra estrela da música internacional, Michael Jackson, interditou o Pelourinho para gravar com o bloco afro baiano “They Don’t Care About Us”, outro fato decisivo para popularizar o Olodum.

 

“Depois de 30 anos de muita luta, temos orgulho em dizer que o Olodum já se apresentou em 35 países da Ásia, África, Europa e continente americano”, disse Nélson Mendes, diretor de Cultura do bloco. Com 13 discos gravados, o bloco também participou de outro momento histórico ao ser convidado para fazer a abertura de um show de Paul Simon no Central Park, em Nova York, espetáculo que contou com a presença de 500 mil pessoas. “O Olodum é um dos maiores divulgadores da música popular de matriz africana produzida na Bahia”, resume Mendes.

 

De fato, a relação do grupo com a música africana tem como referência o ano de 1987, quando o Olodum gravou o seu primeiro LP, “Egito, Madagascar”, que estourou em todo o país com a música “Faraó”. A partir daí, outros grandes sucessos foram gravados pelo bloco afro. “Protesto Olodum”, “Requebra” e “Rosa” são alguns exemplos.

 

Cores africanas
Ao mesmo tempo em que abriu caminho para o mercado internacional, o Olodum conquistou milhares de fãs em todo o Brasil. Seus ensaios todos os domingos, durante o verão, no coração do centro histórico de Salvador, são muito disputados. No Carnaval, o bloco arrasta 3.000 foliões na orla, no centro e nas ladeiras centenárias do Pelourinho.

 

“Ao contrário da maioria dos blocos de Salvador, que veem apenas o lado comercial em seus desfiles, o Olodum leva para as ruas da cidade uma história de luta contra o preconceito e a injustiça sociais”, disse a médica mineira Cinara Rodrigues, que desde 2001 desfila com o grupo.

 

Este ano, o Olodum fará três apresentações durante a folia: sexta-feira, saindo do Pelourinho até o Campo Grande; no domingo, participando do circuito Barra/Ondina (orla), e na terça-feira, desfilando do Campo Grande até o Pelourinho, onde está instalada a sede do bloco. Durante o Carnaval, o Olodum vai homenagear mais um país africano, Mali.

 

No ano em que comemora três décadas de existência, o Olodum ainda oferece outra atração. Todas as terças-feiras o grupo participa do “The African Bar”, um show que conta com a participação dos 25 integrantes de sua banda. Abreviação de Olodumaré, palavra que significa “Deus dos Deuses”, o Olodum também tem nas suas cores uma homenagem a todos os países da África: o vermelho significa o sangue derramado nas guerras; o amarelo é a riqueza do continente; o verde representa os campos; e o preto, a cor da pele da maioria da população.

 

Escola
O Olodum também se caracteriza pelo trabalho social que desenvolve com a comunidade carente do centro histórico. Mantida pelo grupo, a escola Olodum abriga 300 adolescentes entre 7 e 18 anos, que têm aulas de percussão, iniciação à informática e dança africana.

 

O grupo também dedica uma atenção especial aos novos compositores — todos os anos o bloco promove, antes do Carnaval, o Femadum (Festival de Música e Artes Olodum), evento que reúne, há 29 anos, dezenas de participantes. “Nós escolhemos um tema e, a partir daí, os compositores e intérpretes exercitam as suas criatividades”, disse Nélson Mendes.

 

Porta da frente
Em sua apresentação no Festival de Verão de Salvador, a cantora Daniela Mercury falou da importância do grupo. “O Olodum revolucionou a música baiana e fez os negros entrarem pela porta da frente em qualquer lugar, como deve ser sempre. Todos os grandes artistas brasileiros, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, só para citar alguns, gravaram músicas do Olodum, um bloco que merece o respeito de todos nós pela sua história de dignidade.”

 

Talvez por coincidência, o imóvel que abriga a casa do Olodum, no centro histórico de Salvador, guarda um passado de luta pelas causas dos negros. Segundo historiadores, o imóvel foi construído entre 1790 e 1798, época da “Revolta dos Búzios”, movimento que defendeu o fim da escravidão e a implantação da república como forma de governo.Comprada pelo Olodum em 1985, a casa passou por uma completa reformulação, em projeto assinado pela arquiteta italiana Lina Bo Bardi.

 

O imóvel, que funciona todos os dias das 9h às 18h, conta com uma exposição permanente de mais de 60 quadros sobre a cultura negra. Composta por três pavimentos, a casa possui um auditório com capacidade para 60 pessoas, muito usado para seminários, cursos, palestras e encontros com artistas, produtores intelectuais e militantes da causa negra. O nome do auditório é uma referência a um dos maiores líderes negros da história: Nelson Mandela, presidente da África do Sul entre 94 e 99, o maior representante do continente africano da política contra o apartheid. “Para nós, Nelson Mandela é fonte permanente de inspiração de luta por mais justiça social”, disse Nélson Mendes.

 

Em seu terceiro mandato como presidente do bloco, João Jorge Rodrigues ressalta que as comemorações pelos 30 anos do Olodum contemplam também uma turnê, que tem como nome provisório “Samba-Reggae”. Segundo o presidente, o Olodum vai convidar personalidades negras de todo o mundo para participar de palestras, shows, debates e lançamentos de livros nos dias 25 de cada mês, data de fundação do bloco. O piloto inglês Lewis Hamilton, campeão mundial de Fórmula-1, será um dos convidados, segundo a diretoria do Olodum.

 

Apesar da crise no mercado fonográfico, o Olodum promete lançar três DVDs até o fim do ano. O primeiro em 25 de abril para marcar os 30 anos do bloco será uma compilação de alguns shows realizados no Brasil nos últimos dois anos. Em junho, o bloco coloca no mercado um trabalho gravado em 2006 e 2007, na Europa. Finalmente, no fim do ano, o Olodum vai apresentar outro DVD, gravado durante os ensaios realizados neste verão.
 

 

TERRA

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