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“Tragédia no RJ foi maior que do Chile”, diz militar

O hospital de campanha montado no pátio do prédio da Prefeitura de Nova Friburgo, no RJ, é idêntico ao que foi erguido pela Marinha brasileira para atender vítimas do terremoto do Chile, no ano passado. As duas tragédias, causadas por fenômenos distintos, também deixam impressões diferentes: “O impacto nas pessoas aqui parece maior”, diz o diretor do hospital, Carlos Mesquita, que atuou nas duas missões.

Para o militar, as vítimas em Friburgo se mostraram mais abatidas e assustadas do que as que atendeu no país vizinho. “No Chile, eu fiquei em Santiago, onde nem todas as regiões foram atingidas pelo terremoto. Aqui 100% das pessoas sofreram. Envolveu toda a cidade”, relata.
 

Mesquita diz que o drama na Região Serrana do RJ “igualou pobres e ricos”. Nos primeiros dias do hospital, aberto na última quinta-feira (13), não havia atendimento médico fora dali. “As pessoas vinham até com carteirinha de convênio, porque as clínicas particulares estavam fechadas”, conta. Até esta segunda-feira (17), o hospital da Marinha atendeu 966 pessoas -apenas neste dia, foram 251. Há ainda um hospital de campanha do Exército na cidade.

Ao mesmo tempo em que Friburgo começa, lentamente, a retomar alguma rotina, a média de atendimentos ainda cresce, relata Mesquita. “Agora não atendemos mais tantos feridos pelos deslizamentos. Quem nos tem procurado mais são os doentes crônicos e aqueles que ainda não conseguem atendimento em outros lugares.”

Um exemplo é Francisco Uback, de 73 anos, que se recupera de uma cirurgia no pé direito realizada ali mesmo, numa das tendas erguidas no pátio. O idoso não foi vítima da chuva, mas sofreu um acidente em casa que levou ao rompimento de um tendão. “Foi a cirurgia mais complexa que fizemos até agora”, conta o comandante, de um total de 20 intervenções, sete realizadas nesta segunda. No fim da tarde, acabou a operação de um jovem que lesionou o joelho num acidente de moto e não conseguia ser atendido em outros hospitais.

Em outras tendas, abastecidas por gerador “que poderia fornecer energia para um prédio”, conta Mesquita, há um laboratório completo, uma farmácia, uma sala para tratamentos de traumas na face e outra para emergências. Outra parte dos atendimentos, que começam com a triagem, é realizada dentro do prédio. “Foi ali que, quando chegamos, na quinta, havia três médicos que há dias estavam ali direto, sem trocar nem de roupa, atendendo pessoas deitadas em plásticos no chão”, descreve o comandante.

O hospital de campanha agora tem 30 oficiais e 37 enfermeiros, além de um civil e “alguns voluntários”. Para Mesquita, outra diferença desta missáo em relação à da tragédia no Chile é o sentimento de proximidade. “Sou do Rio, vários colegas são daqui [do estado] ou moram aqui por causa da Marinha. É outro envolvimento.”

Ao ser perguntado sobre histórias que mais o emocionaram, o militar se lembra da vítima que se tornou voluntária. “Um senhor teve um trauma na face e foi trazido para cá. Ele perdeu tudo, só tinha a roupa do corpo, não tinha nem um RG. E não tinha mais família, não tinha para onde ir”, descreve. “Enquanto esteve aqui, quis ficar ajudando a gente, ficava de lá para cá ajudando os demais. Eu não o ouvi reclamar da vida nenhuma vez.”.
 

G1

 

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