Em 1994, no momento em que foi anestesiado para uma cirurgia nos olhos, Valdemir Pereira Corrêa enxergou pela última vez. Nasceu com glaucoma, mas “uma sucessão de erros médicos” em clínicas de Campinas (SP) e São Paulo lhe tirou definitivamente a visão, aos 24 anos.
Corrêa sempre viveu em Santos (72 km de São Paulo). Mesmo morando na zona noroeste da cidade, longe da praia, o surfe era sua distração na juventude. E soube da existência de uma escola do gênero, mantida pela prefeitura e que aceitava pessoas com deficiências –mas nunca havia atendido um cego.
Ainda assim, em março de 1997, matriculou-se na Escola Radical de Surf. Recebeu orientações de Cisco Araña, surfista desde 1968 e coordenador dos cursos, mantidos na praia da Pompeia –conheça a escola.
“Ele [Araña] não ficou teorizando. Só me perguntou: ‘Tá preparado [para entrar na água com a prancha]?’. ‘Sim’, eu disse. Aquele ‘sim’ me abriu inúmeras portas”, contou Corrêa, que se tornaria o primeiro surfista cego do país.
O surfe seria o primeiro empurrão para outras conquistas. Pouco antes de entrar na escola de surfe, Corrêa tinha voltado a estudar, para concluir o ensino médio na escola estadual Archimedes José Bava, no bairro Castelo. Professores liam as matérias. Ele memorizava o conteúdo e fazia as provas oralmente.
Ao entrar em contato com atletas de diversas modalidades, Corrêa decidiu que faria faculdade de educação física.
Primeiros passos no mar
Por causa dele, Cisco Araña desenvolveu uma prancha adaptada: indicação central para posicionar os pés, marcação próxima ao bico (para surfar deitado corretamente) e quilha (peça na parte inferior que ajuda nas manobras) não cortante, para não ferir o surfista em caso de queda na água.
Com a prancha, Corrêa teve de aprender uma nova forma de praticar o esporte. Ao se apoiar na prancha adaptada (que contém marcações e lhe permitem saber onde está), ele escuta a aproximação das ondas, calcula a que distância estão (com base no ruído), equilibra-se e surfa. Caso caia, a prancha está amarrada à perna
Vida acadêmica
Já aluno da Escola Radical, Corrêa conheceu praticantes de outras modalidades, como capoeira, caratê, tai chi chuan e judô. Assim, decidiu prestar vestibular para educação física e, ano passado, aos 43 anos, formou-se pela Unisanta (Universidade Santa Cecília), em Santos.
Apesar de ter aprendido a ler em braile, não havia material específico para o curso de educação física. Assim, como no ensino médio, contou com a ajuda de professores e colegas, que liam a matéria para que ele memorizasse. Nos dias de prova, ele esperava que todos os colegas terminassem o exame e saíssem da sala; depois disso, os professores aplicavam o teste oralmente para ele.
Novos caminhos
Formado, Corrêa pretende trabalhar com pesquisas relativas à prática esportiva e às potencialidades dos deficientes visuais.
E seus planos não param por aí. “Quero atuar como juiz”, contou Corrêa, que este mês começou dois novos cursos na mesma universidade: graduação em direito (com bolsa integral) e pós-graduação em treinamento personalizado de força.
“Tudo isso porque, lá atrás, ganhei uma oportunidade numa escola de surfe, e minha vida foi tendo destinos bem diferentes”. No mês que vem, Valdemir Corrêa completará 16 anos como frequentador da Escola Radical.
UOL
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