O mês de setembro está encerrando e com ele, o término da campanha de conscientização sobre a prevenção ao suicídio. O alerta do “Setembro Amarelo”, não deve silenciar quando os ponteiros do relógio atingirem a meia noite do 1º de outubro. A dor e a angustia de quem está passando pelas chamadas doenças psicossomática e corre o risco de cometer, no momento de desespero, o ato extremo, gritam todos os dias. As vezes, o clamor é silencioso, na solidão do castelo de areia que costumeiramente construímos.

Falar de suicídio é um tema complexo, que requer cuidados. Afinal, estamos diante de uma epidemia” que cresce a cada dia. Os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), são alarmantes. Quase 800 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no planeta e no Brasil, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idades entre 15 e 29 anos. Diante de números estarrecedores, não podemos silenciar, mas dá a nossa contribuição para preservar o bem maior: a vida.

Um dos dispositivos que podem apontar para o crescimento das estatísticas, é a depressão. A psicóloga Clínica Candise Lira, especialista em Saúde Mental, chama a depressão de doença do século. Para ela, o mundo vive o século adoecedor e acometido de dor e várias enfermidades. Candise Lira contou que os consultórios psicológicos estão cada vez mais cheios, consequência do crescimento da depressão que associada a ansiedade se tornou o mal do século que tem causado danos irreparáveis a sociedade.
Realmente estamos doente. Doentes do corpo e da alma, o que requer um grande esforço na tentativa de minimizar tanto sofrimento provocado pelos problemas psíquicos.

Embora não seja especialista no tema, acredito que um dos caminhos para mudarmos as estatísticas, está no acolher. E no valorizar a vida com toda a sua complexidade. E no amor. O problema é que quase sempre somos egoístas, e só nos preocupamos em resolver os nossos problemas. Por conta da correria, do estresse e das exigências do mundo moderno, nem sempre temos tempo ou a sensibilidade para perceber a dor do outro. Nos falta tempo, para enxergamos no sorriso ou na lágrima, os sintomas de uma pessoa que está angustiado e aflita, presa em um labirinto que, aparentemente, não tem saída. O escuta vale muito. O ouvir o outro se reveste de muitos significados. As vezes, cinco minutos de escuta, pode salvar uma vida, conforme sublinhou o professor e psicólogo Rangel Junior.

Para ele, “a vida estará sempre em pauta, com seus conflitos e perspectivas de buscas permanentes das pessoas pela felicidade, ou sintonia com o mundo. A vida é tensa, com conflitos em todas as situações e em tudo que se enfrenta desde o nascimento, que é um ato muito traumático mesmo com toda beleza que existe.

“ Nós precisamos aprender bastante sobre a vida e tudo o que envolve esse padrão de conflito cotidiano, buscar compreender as transformações que o mundo vem passando e como essas transformações interferem na vida das pessoas”, observou. Sem dúvida, é preciso ter a capacidade de transformar experiências conflituosas em aprendizado e maturidade.

O psicólogo da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) Edivan Gonçalves alertou para a importância das pessoas estarem sensíveis e perceberem os sinais de sofrimento de quem está prestes a cometer um ato extremo. “Temos que entender que essa dor precisa ser acolhida. Precisamos falar disso para dar o devido suporte. Então, precisamos saber quais são as redes de apoio para trabalhar uma forma de alívio para esse sofrimento”, destacou o professor.

Uma das causas dos problemas psíquicos está relacionada ao vazio existencial e à perda do sentido da vida. A professora e psicóloga Lorena Bandeira, observou como o vazio existencial tem contribuído para aumentar os casos de suicídio, principalmente no contexto do trabalho. Para ela, o esvaziamento interior, em muitos casos, é causado pelas frustrações. “O vazio existencial estaria na falta de uma vida plena de sentido. Quando não acontece isso, a gente entende que existe uma vida vazia existencialmente”, observou.

Mesmo não havendo uma fórmula para a felicidade, a especialista apontou alguns caminhos para encontrar sentido na vida, como a busca por valores, seja na realização no trabalho ou nas relações com a família. A religião, segundo ela, pode ajudar positivamente para a pessoa encontrar o sentido da existência, mas não como algo impositivo.

Se as doenças psíquicas são invisíveis, o mesmo não se pode dizer dos fatores que contribuem para elevar as incidências. O estresse e a correria do mundo moderno, o avanço das tecnologias, são algumas das causas responsáveis pelo surgimento dessas doenças, e levam as pessoas a se encastelarem por trás dos muros da solidão. Ou passar uma imagem que não traduz a realidade como acontece com as redes sociais. Fingimos que estamos bem. Felizes. Por dentro estamos chorando e mergulhados em conflitos e angústias.

Como disse uma psicóloga essa semana, “vivemos una geração que se aproxima de quem está longe e se distancia de quem está perto” .

Severino Lopes

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