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O império da arrogância

Há uma sensação crescente de que a civilidade, aquela capacidade básica de conviver com respeito, ouvir o outro e reconhecer limites, vem perdendo espaço na sociedade atual. O que antes era associado à educação, ao diálogo e ao bom senso, muitas vezes parece ter sido substituído pela lógica do poder, da aparência e da imposição.

O desrespeito virou uma espécie de demonstração de força. Pessoas que possuem dinheiro, influência ou posição social passaram a acreditar que esses elementos lhes dão autorização para ultrapassar regras, ignorar limites e impor vontades. Como se o poder econômico fosse capaz de comprar não apenas bens, mas também razão, respeito e até a própria verdade.

Durante muito tempo, conhecimento, boa educação e civilidade eram vistos como valores capazes de abrir caminhos. Hoje, em determinados ambientes, até mesmo o estudo passou a ser tratado com desprezo, como se a formação intelectual fosse motivo de arrogância ou uma característica distante da realidade de quem construiu sua trajetória pelo esforço.

Esse fenômeno lembra uma reflexão do filósofo Zygmunt Bauman, que analisou a chamada “modernidade líquida”, marcada pela fragilidade dos vínculos, pela instabilidade das relações e pela dificuldade de construir referências sólidas em uma sociedade cada vez mais acelerada. Quando tudo se torna descartável, inclusive valores e princípios, o respeito ao outro também passa a ser relativizado.

A psicanálise de Sigmund Freud também ajuda a compreender esse comportamento. Freud destacou que a vida em sociedade exige renúncias e limites aos impulsos individuais. A civilização depende justamente da capacidade humana de controlar desejos imediatos em nome da convivência coletiva. Quando essa barreira enfraquece, abre-se espaço para comportamentos mais agressivos e irracionais.

Talvez seja isso que assusta: a sensação de que a falta de controle, a intolerância e a agressividade estão se tornando comuns. Aquilo que antes causaria espanto hoje muitas vezes é tratado como entretenimento, estratégia ou demonstração de personalidade.

Quando criança, eu ouvia minha avó dizer uma frase que parecia exagerada: “No fim dos tempos vai faltar corda para amarrar tanto doido”. Na época, soava apenas como um ditado popular. Hoje, diante de tantos episódios de intolerância, violência verbal e atitudes sem qualquer senso de limite, a frase parece ganhar outro significado.

O mais preocupante é perceber que o absurdo pode estar vindo de onde menos se espera. Pessoas que deveriam inspirar equilíbrio protagonizam atitudes agressivas; aqueles que deveriam defender regras tentam contorná-las quando elas não atendem aos seus interesses.

A pergunta que fica é: que tipo de sociedade estamos construindo quando respeito virou fraqueza, educação virou motivo de deboche e poder passou a ser confundido com direito de fazer qualquer coisa?

Uma sociedade não se sustenta apenas por leis escritas. Ela depende também de valores invisíveis: ética, empatia, respeito e civilidade. Quando esses pilares começam a desaparecer, nenhuma riqueza ou influência consegue preencher o vazio deixado pela falta de humanidade.

Talvez uma das maiores diferenças entre o passado e o presente esteja justamente no peso da consciência. Em “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski, o maior tormento de Raskólnikov não era apenas a possibilidade da punição externa, mas o conflito interno provocado pela culpa. O verdadeiro castigo começava dentro dele, na própria consciência, que não permitia que ele escapasse de si mesmo.

Hoje, em muitos casos, até esse mecanismo parece enfraquecido. A culpa foi relativizada, o arrependimento virou sinal de fragilidade e a responsabilidade pelos próprios atos muitas vezes é substituída por justificativas, discursos e tentativas de transferir a culpa para terceiros.

O problema de uma sociedade em que a consciência deixa de funcionar como limite é que as regras passam a ser vistas apenas como obstáculos a serem contornados. Se antes o medo da vergonha, da reprovação e da própria consciência ajudava a frear comportamentos, agora muitos parecem não carregar mais esse peso.

Quando a consciência deixa de punir, sobra apenas a lei — e uma sociedade que depende exclusivamente da punição externa para manter algum equilíbrio já revela que perdeu uma parte importante de seus valores internos.

Talvez o maior sinal de crise dos nossos tempos não seja apenas o aumento dos conflitos, mas a dificuldade de algumas pessoas em reconhecer que fizeram algo errado. Afinal, quando até a culpa deixa de existir, qualquer limite passa a parecer uma afronta.


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