O ex-deputado Sérgio Naya, de 66 anos, foi encontrado morto, por volta das 16h da tarde desta sexta-feira, 20 – dois dias antes de completar 11 anos da queda do edifício Palace 2, que deixou oito mortos e mais de 2 mil desabrigados – num quarto do hotel Jardim Atlântico, em Ilhéus, na Bahia, onde pretendia passar o feriado de carnaval. Segundo o médico chamado para o atender, a provável causa da morte foi um enfarte. As informações foram divulgadas pelo serviço de comunicação do hotel baiano.
 

De acordo com o hotel, o motorista de Naya solicitou que o ex-deputado fosse chamado, pois não estava no lugar marcado para encontrá-lo. Os funcionários do Jardim Atlântico chegaram a procurá-lo em outras dependências do prédio, antes de entrar no quarto.

 O corpo de Naya foi encaminhado ao IML da cidade, onde aguarda a chegada dos familiares, que já foram avisados. Ele era proprietário da construtora Sersan, que ergueu o prédio Palace II, na Barra da Tijuca, na zona oeste da capital fluminense. O imóvel desabou em 22 de fevereiro de 1998, provocando a morte de oito pessoas.

 Histórico

 

O ex-deputado foi denunciado pelo Mistério Público Estadual por desabamento doloso (com intenção), mas não foi condenado. Naya era dono da construtora Sersan (Sociedade de Terraplenagem Construção Civil e Agropecuária Ltda ), responsável por erguer o Palace 2. Um laudo pericial mostrou que houve um erro de cálculo no projeto do prédio, portanto não poderia haver dolo. Naya, no entanto, foi condenado na esfera civil a pagar indenização a todas as famílias. Durante o processo, ele chegou a passar 137 dias na prisão em duas ocasiões diferentes (28 dias pelo desabamento e 109 por falsificação de documento público).

 

Era domingo de carnaval quando os moradores que estavam em casa ouviram um estrondo. Constataram que havia rachaduras em um dos pilares do prédio, chamaram a Defesa Civil e o Palace 2 foi interditado. Pouco depois, parte do prédio que ainda estava sendo evacuado ruiu matando oito pessoas. Quatro dias depois, outra coluna também desabou. No dia 28 de fevereiro a prefeitura implodiu o edifício.

 

O prédio, que ficou pronto em 1996, nunca recebeu o habite-se da prefeitura por causa das diversas irregularidades na conclusão da obra.

 

Vítimas

 

Com a implosão do Palace II, 52 famílias que não tinham para onde ir foram instaladas no Hotel Atlântico Sul, no Recreio (zona oeste). Hoje, pelo menos seis famílias continuam lá. Entre elas, o casal de argentinos Osvaldo e Cecília Benevides, que perderam o filho Leonel, de 18 anos. Eles ainda não receberam nenhum centavo de indenização. “Não sei o que dizer sobre a morte dele, não muda em nada, porque meu filho não volta. Não sinto alívio”, disse Cecília.

 

O casal não faz parte da Associação de Vítimas do Palace 2, que reúne 120 famílias de vítimas que já receberam cerca de 40 % do que foi determinado pela Justiça – as indenizações variam de R$ 300 mil a R$ 1 milhão, dependendo de cada família.

 

Sobre os valores ainda são contabilizadas multas e juros ao longo de todos os anos. “Que coincidência, ele morrer tão perto do desabamento do Palace. Pelo menos temos a Justiça divina”, disse a advogada Rauliete Barbosa, presidente da Associação das Vítimas do Palace II, poucas horas depois de saber da morte de Naya.

 

Segundo Rauliete, anteontem a associação fechou uma escritura de um terreno de Naya leiloado em São Paulo, que foi vendido por R$ 8 milhões. ” A gente vai assim, aos poucos, leiloando e depositando o dinheiro em juízo para dividir entre as vítimas. Pelas nossas contas, ainda faltam R$ 60 milhões”. A morte do ex-deputado, segundo ela, não preocupa os ex-moradores. “Somos credores dele e vamos receber o que temos direito.”

Estadão

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