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Moradores se unem para reconstruir Itaóca

 A cidade de Itaóca, no interior de São Paulo, ainda contabiliza os prejuízos da tragédia que deixou pelo menos 23 pessoas mortas. Uma semana após as chuvas que devastaram todo o município, o cenário é devastador. Além de terem que dormir e acordar em um cenário que nada lembra a antiga Itaóca, com pilhas gigantescas de destroços espalhados por todos os lados, os moradores acreditam que o número de mortos pode crescer ainda mais. No bairro Guarda Mão, o mais afetado pela tempestade, um terço da população morreu.

Os cerca de 3 mil habitantes de Itaóca ainda procuram entender o que realmente ocorreu. Na rua, nos bares, em meio aos destroços. Todos tentam explicar o que aconteceu na noite do dia 12 de janeiro. De oficial, segundo a Prefeitura, uma gigantesca onda, formada por água, barro e troncos, surgiu após a enxurrada ter ficado represada sucessivas vezes em barreiras da cidade. À medida que as barreiras eram destruídas, a onda ganhava mais força. Três rios, que se encontram, foram afetados: Guarda Mão, Martins e Palmital.

Passaram-se sete dias e, mesmo com a ajuda da Defesa Civil, dos Bombeiros e de centenas de voluntários, o bairro Guarda Mão permanece isolado. Chegar ao local só é possível andando vários quilômetros a pé, escalando pedras e caminhando por dentro do rio. A paisagem e a geografia do local foram completamente alteradas. Na área que ficava a estrada passa agora o rio. Onde havia milhares de árvores há incontáveis pedras que desmoronaram durante a tempestade.
“O bairro inteiro foi desmatado. Apareceram pedras enormes que nunca foram vistas. Nunca vi nada parecido. Essas pedras simplesmente não existiam. A gente tinha uma estradinha para passar de carro e ela desapareceu”, lembra o ajudante de pedreiro Nelson de Pontes, morador do Guarda Mão que perdeu a única filha durante a enxurrada. “Ela estava em uma casa que foi completamente destruída, morreu junto com a minha ex-mulher e outras três pessoas que estavam no local. As pessoas encontraram o corpo e me chamaram para reconhecer. Foi um momento de muita tristeza. Não sei explicar o que estou sentindo. Não sei se vou conseguir voltar a morar no local”, completa.

Durante a chuva, que começou por volta das 21h, a prefeitura estima que 60 pessoas estavam no bairro Guarda Mão. Dessas, 21 morreram, o que representa 35% da população do bairro. A área fica na parte rural da cidade e é ocupada há mais de 100 anos pelas mesmas famílias. Segundo os sobreviventes, todos os que moram no local são parentes, mesmo que de um grau distante.

“Quando veio a avalanche de pedras eu não olhei para trás. Simplesmente me protegi. Depois de uns 40 minutos observei que a onda que veio em seguida havia levado parte da minha casa e o meu carro. Assim que vi que não havia mais risco comecei a procurar os sobreviventes. Ouvimos um amigo gritar e conseguimos tirar ele dos destroços com vida”, conta o morador Dráusio Ribas da Rosa. Dráusio, que trabalha como leitorista, encontrou o carro totalmente destruído a vários quilômetros de distância. “Eu não tenho como explicar como ele foi parar tão longe. Mas isso é o de menos. Perdemos muita gente. Todas as pessoas que moravam no bairro são da mesma família. É uma tragédia. Todos tinham um pouco do sangue do outro. É muito triste chegar no bairro e ver que nada era como antes. Mudou toda a paisagem. Milhares de pedras deslizaram. Por causa disso tudo não tem como termos esperanças de encontrar alguém vivo”, lamenta.

Na semana seguinte à tragédia, cada corpo encontrado gerava uma expectativa na população, que se reunia para acompanhar o resgate. Por ser uma cidade pequena, praticamente todas as pessoas conheciam ou já tinham ouvido falar das vítimas, o que gerava uma grande comoção. O filme se repetiu todos os dias, até a Defesa Civil contabilizar 23 corpos encontrados. Para aumentar o drama, muitos corpos foram encontrados pelos próprios moradores. Enquanto alguns foram achados dentro de Itaóca, outros foram levados para outras cidades da região pela correnteza.

“Estava em casa e comecei a sentir um cheiro horrível. Eu e meu tio saímos para ver o que havia acontecido e encontramos o corpo. Foi terrível porque grande parte da minha família morreu no bairro Guarda Mão. Perdi seis pessoas lá. Essa tragédia foi uma coisa inesperada e ninguém poderia imaginar que ela ia ocorrer. Foi tudo muito rápido”, lembra o estudante Iran de Oliveira Godoy e Silva. O jovem é um dos que acredita que o número de vítimas ainda pode aumentar.

“Tenho certeza que existem muitas outras vítimas. A cidade estava recebendo visitantes no dia da chuva e alguns podem ter sido levados pela correnteza. Agora precisamos contabilizar tudo direito e nos reerguer para a cidade voltar a ser como era antes”, acrescenta.

Reflexos da tragédia se espalham pela vizinhança
Até mesmo os moradores de Apiaí, cidade mais próxima de Itaóca, encontram dificuldades para compreender o tamanho da devastação. No fim da estrada que liga as duas cidades, quem chega a Itaóca encontra outro bairro, o Lageado, completamente devastado. Mesmo com o trabalho intenso para desobstruir as vias, ainda é possível observar o estrago ocasionado pela cheia do Rio Palmital, que margeia o local. Além das dezenas de máquinas trabalhando para remover a lama, os visitantes que chegam à cidade encontram montanhas de madeira arrastadas pela correnteza do rio, que normalmente pode ser atravessado a pé mas, no dia da enchente, subiu cinco metros.

Com a cidade vivendo momentos caóticos, quem não foi afetado pela enchente também precisa encontrar uma forma de sobreviver. Apesar da recomendação da Prefeitura e da Sabesp para que a população evite entrar em contato com a água dos rios, muita gente não tem opção e arrisca a própria saúde. A dona de casa Leila Gonçalves dos Santos, por exemplo, foi flagrada pelo G1 consumindo água barrenta para matar a sede.

A falta de água é apenas um dos problemas de Itaóca, que continua sem fornecimento de energia elétrica em alguns bairros. Além disso, a infraestrutura da cidade está bastante comprometida. Muitas pontes caíram e deixaram várias áreas inacessíveis. Em Gurutuba dos Martins, por exemplo, a população improvisou e colocou um tronco de uma ponta a outra do rio para evitar que alguns moradores ficassem isolados. O problema é que a precária estrutura corre o risco de cair a qualquer momento. Um idoso de muletas foi flagrado pelo G1 se desequilibrando ao tentar atravessar a estrutura para chegar em casa.
“A coisa foi muito feia em Gurutuba. O bairro simplesmente acabou. Os deslizamentos nos morros contribuíram para a formação da onda que devastou tudo.

Mesmo nós, que moramos há décadas no local, não reconhecemos o nosso bairro. Mudou tudo. Tenho medo de continuar aqui. Se aconteceu agora, claro que pode acontecer mais uma vez”, afirma o agricultor João Pereira de Paulo.
Perdas e histórias de solidariedade que comovem

Foi no bairro do Gurutuba que ocorreu uma das histórias mais marcantes da tragédia. Uma família tentou guardar o carro e foi surpreendida pela onda. Um casal de São José dos Pinhais, no Paraná, estava na casa no momento da enchente. Enquanto todos se seguraram no teto do que restou da casa, que também foi arrastada, uma mulher acabou se soltando e foi levada pela enxurrada. Antes de sumir, ela teve forças para mandar um recado para o marido: “Se cuida, meu amor”. O corpo de Ziza Maria Dantas Martins, de 44 anos, foi encontrado apenas no fim da tarde de sábado (18).

Mesmo após uma semana, as marcas da tragédia permanecem visíveis também na cor das casas. Praticamente todos os imóveis do município estão marcados pela linha marrom que define a altura que a água atingiu no local. Em alguns bairros é possível encontrar casas que, apesar de não terem sido totalmente destruídas, ficaram praticamente submersas.

G1

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