Categorias: Brasil

Discussão entre Peluso e Barbosa enfraquece o Judiciário, diz Marco Aurélio

O ministro Marco Aurélio Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal), afirmou ao Última Instância que preferia não estar presenciando a troca de farpas entre os ministros da Corte Joaquim Barbosa e Cezar Peluso. “É lamentável o que estamos constatando hoje no jornal”.

Para Marco Aurélio a briga pública dos ministros “não contribui para o fortalecimento das instituições, ao contrário”. “Quando integrantes da instituição digladiam, quem perde é a Corte. Nós estamos de passagem por ela e, aos olhos do jurisdicionado, isso não é bom”, afirmou o ministro.

O jornal O Globo publicou nesta sexta-feira (20/4) uma entrevista com o ministro e vice-presidente do Supremo, o ministro Joaquim Barbosa, em que ele rebate as críticas feitas pelo ex-presidente, o ministro Cezar Peluso, em entrevista concedida à revista eletrônica Consultor Jurídico nesta semana.

Ao site, o ministro Peluso disse que seu colega da Corte Suprema tem um temperamento difícil, é uma pessoa insegura e tem receio de ser qualificado como alguém que foi para o STF não pelos méritos que tem, mas pela cor de sua pele. “Ele é uma pessoa insegura, se defende pela insegurança. Dá a impressão que de tudo aquilo que é absolutamente normal em relação a outras pessoas, para ele, parece ser uma tentativa de agressão. E aí ele reage violentamente”, disse Peluso ao site.

Em resposta, Barbosa classificou a gestão de Peluso à frente da Corte como “desastrosa”, além de acusá-lo de desrespeito com seus problemas de saúde – Barbosa sofre de um problema crônico no quadril, que o afastou de muitas sessões nos últimos anos. Para Joaquim Barbosa, Peluso “incendiou o Judiciário inteiro com a sua obsessão corporativista”. Ele disse ainda ao jornal que “Peluso inúmeras vezes manipulou ou tentou manipular resultados de julgamentos, criando falsas questões processuais simplesmente para tumultuar e não proclamar o resultado que era contrário ao seu pensamento. Lembre-se do impasse nos primeiros julgamentos da Ficha Limpa, que levou o tribunal a horas de discussões inúteis; não hesitou em votar duas vezes num mesmo caso, o que é absolutamente inconstitucional, ilegal, inaceitável”.

Sobre a gestão do ministro Peluso a frente do Supremo, Marco Aurélio não quis fazer nenhum comentário e destacou que a administração do ex-presidente está registrada no discurso do decano Celso de Melo, na posse do novo presidente Ayres Britto.

“[Peluso] mostrou-se fiel às suas convicções e à sua visão de um Poder Judiciário independente e responsável pela preservação da superioridade irrecusável da Constituição da República, revelando, no desempenho de seu cargo, a percepção do alto signfiicado de que se revestem as funções jurídicas e político-institucionais deste Tribunal Supremo”, diz um trecho extraído do discurso de Celso de Mello.

Cortes brasileira e norte-americana

De acordo com Frederico de Almeida, advogado e doutor em ciência política que estudou as cortes superiores em sua tese na Universidade de São Paulo e que atualmente coordena a graduação da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, a estrutura do Supremo Tribunal Federal propicia a valorização da figura do ministro em detrimento da instituição.

Almeida explica que a Suprema Corte Americana, por exemplo, minimiza a posição do indíviduo e maximiza a decisão da Corte. Os resultados númericos das votações não são divulgados pelo tribunal, e as divergêrcias de voto só são tornadas públicas eventualmente, por vontade dos juízes. Num modelo em que cada um fala o quer, a posição da Corte acaba ficando escondida. “No modelo norte-americano, existe a discussão, mas não um placar. O que é importa é a decisão do colegiado”.

O professor de Direito Constitucional da Direito GV (Getúlio Vargas) Dimitri Dimoulis avalia que a discussão dos ministros chama atenção da imprensa e da opinião pública, mas funciona como “uma cortina de fumaça”, porque as pessoas se esquecem a verdadeira tarefa do Supremo: o julgamento de processos.

De acordo o constitucionalista Pedro Estevam Serrano e professor da PUC-SP, a discussão em tom elevado entre integrantes da Corte não é uma conduta adequada e prejudica a imagem do Supremo, mas não atrapalha o andamento dos julgamentos. Segundo Serrano, a discussão não pode ser levada “a ferro e fogo”, porque é resultado do caráter pessoal entre os envolvidos. “Está relacionada ao comportamento dos agentes públicos em sua individualidade”, reforça.

No Brasil, a transmissão ao vivo dos debates no Supremo põe em evidência as interpretações diversas e as divergências e conflitos entre os ministros. Serrano defende a transparência dos debates e votos. “Não se pode culpar a transparência da Corte pela conduta inadequada de seus membros. É importante que o público saiba dessas diferenças de pensamentos, qual a lógica das argumentações, para que haja um controle sobre a legitimidade das decisões”, defende Serrano.

*O texto trazia a afirmação de que o ministro Joaquim Barbosa teria acusado Cezar Peluso de ato de racismo na entrevista ao jornal O Globo, o que não ocorreu.

Última Instância

Últimas notícias

Operação Rota do Sertão: Grupo acusado de furtos qualificados é desarticulado no interior da Paraíba

A Polícia Civil da Paraíba, por meio de uma ação integrada entre a 23ª Delegacia…

29 de janeiro de 2026

Pai e filho são presos por importunação sexual em ônibus interestadual, na PB

Nessa quarta-feira (28), a Polícia Rodoviária Federal (PRF) na Paraíba realizou uma intervenção em um…

29 de janeiro de 2026

Acusada de atear fogo no ex-companheiro é presa no Centro de João Pessoa

Foi presa mulher suspeita de tentar matar um homem ateando fogo contra ele, no Centro…

29 de janeiro de 2026

Superintendente do DNIT na Paraíba garante conclusão da primeira fase da triplicação da BR-230 até setembro

O superintendente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) na Paraíba, Arnaldo Monteiro, garantiu…

29 de janeiro de 2026

Alexandre de Moraes autoriza visita de Cabo Gilberto a Bolsonaro

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, autorizou nesta quinta-feira (29), o…

29 de janeiro de 2026

Presidente da Caixa, paraibano Carlos Vieira, participa de evento em NY sobre mercado de capitais

O presidente da Caixa Econômica Federal, Carlos Vieira, representa o banco em uma série de…

29 de janeiro de 2026