Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, o Brasil assiste a mais um espetáculo constrangedor. Não, não é exatamente sobre a parte financeira do escândalo que envolve o banqueiro Daniel Vorcaro e o rombo bilionário investigado no Banco Master.
O que domina sobretudo as redes sociais, são mensagens íntimas, apelidos carinhosos, confissões de casal, pequenos fragmentos de intimidade que deveriam interessar apenas às pessoas que os escreveram e ainda assim, tornaram-se combustível para um verdadeiro linchamento público de mulheres que, até onde se sabe, não teriam qualquer ligação com os crimes.
As investigações apontam suspeitas graves de fraudes bilionárias, corrupção e lavagem de dinheiro ligadas ao banco, mas curiosamente, uma parte do debate público parece muito mais interessada em descobrir quem era a namorada, quem era amante, quem trocou mensagens picantes ou quem ganhou apelido carinhoso.
De repente, a vida privada de mulheres virou pauta nacional.
Nomes são expostos e fotos são vasculhadas em tom de julgamento moral. Surgem rótulos, ataques, chacotas. Tudo embalado como curiosidade ou entretenimento digital.
E aí surge a pergunta inevitável: o que exatamente essas mulheres fizeram para merecer esse tribunal público? Ser namorada, ex, trocar mensagens amorosas, sexuais e íntimas com alguém?
Entre as conversas divulgadas estão diálogos trocados com uma influenciadora ex-namorada de Vorcaro, que viralizaram justamente por seu teor privado, com declarações de amor e conversas de relacionamento.
O problema não é a investigação, pois ela é necessária. Se há fraude bilionária, corrupção ou organização criminosa, que se investigue tudo e todos e que os culpados paguem. O problema é a exposição da intimidade feminina como se fosse parte da notícia.
Transformar conversas íntimas em espetáculo público não ajuda a esclarecer crimes financeiros, não revela esquemas bancários, não explica relações políticas e não recupera dinheiro desviado.
Às vésperas do 8 de março, fica a pergunta incômoda: até quando a sociedade vai aceitar que, em casos de grande magnitude, o espetáculo da difamação recaia sobre mulheres que nada têm a ver com o crime? Até quando vamos confundir apuração com voyeurismo?
Isso não é interesse público. E tem nome: violência.
Thatiane Sonally








