Por pbagora.com.br

O século XX, a Era dos Extremos, segundo o historiador Eric Hobsbawm, teve como traços marcantes, por um lado, o crescimento econômico, os avanços de educação, a revolução tecnológica, a disseminação da produção em massa e da cultura de massa, a consolidação dos meios de comunicação como esfera de poder e o avanço do processo de globalização.

Por outro lado, posições políticas extremadas, polarizadas, contribuíram para a ocorrência de rupturas democráticas e levaram a grandes conflitos mundiais.

Diante desse cenário, a professora e pesquisadora Aline Contti, do Departamento de Relações Internacionais (DRI) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), organizou o livro “Polarizações políticas e desigualdades socioeconômicas na América Latina e na Europa”.

Lançada em 2019, a obra conta com parcerias de pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Gestão Pública e Cooperação Internacional e do Programa de Pós-graduação em Ciência Política e Relações Internacionais da UFPB, do curso de Ciências Sociais da Universidade de Vechta, na Alemanha, e de diversos especialistas no assunto.

Em entrevista à Assessoria de Comunicação Social (Ascom) da UFPB, Aline Contti defende a necessidade de pesquisar as causas das polarizações nos dois blocos, latino e europeu, e os conflitos delas decorrentes.

A professora da UFPB aponta que velhas tensões foram reconfiguradas e novos tensionamentos surgiram. Com a pandemia da Covid-19, alerta para que as instituições regionais da América do Sul elaborem respostas coordenadas sobre os problemas estruturais que aumentam de modo desproporcional neste momento. Segundo Aline Contti, regiões como a Europa e a Ásia possuem esforços conjuntos e coordenados na redução de graves impactos da crise atual. Confira a entrevista:

Ascom – Gostaríamos de que a senhora explicasse melhor como se estruturaram as polarizações e desigualdades entre a América Latina e Europa.

Aline Contti – As justificativas para a importância desses temas na contemporaneidade são muitas. O século XX, a Era dos Extremos, segundo o conhecido historiador Eric Hobsbawm, teve como traços marcantes, por um lado, o crescimento econômico, os avanços nos graus de educação, a revolução tecnológica, a disseminação da produção em massa e da cultura de massa, a consolidação dos meios de comunicação como esfera de poder e o avanço do processo de globalização.

Por outro lado, posições políticas extremadas, polarizadas, contribuíram para a ocorrência de rupturas democráticas e levaram a grandes conflitos mundiais. Esta foi a era das grandes catástrofes humanas, dos barbarismos, da desintegração dos padrões de relacionamento humano e do individualismo absoluto, associal, no mundo desenvolvido ocidental.

Destacaram-se também tensões entre a globalização, processo cada vez mais acelerado, e a incapacidade do comportamento coletivo e das instituições públicas de se adaptarem a ele.

No fim do século, tais fatos, somados a uma nova onda de concentração de riqueza e de consumismo, acabaram por enfraquecer a esfera política, pública. Como observou Dani Rodrik, os governos ficaram divididos entre os grupos inseridos no processo de globalização, com capacidade de prosperar nos mercados mundiais, e os que enfrentaram dificuldades no mundo capitalista globalizado, como os trabalhadores, pensionistas e ambientalistas.

Nesse contexto, a expansão dos regimes democráticos ocorreu em paralelo com as evidências de suas crises e paradoxos. Os desafios colocados pelos ideais democráticos de responsividade, accountability, representação, assim como os desafios substantivos da democracia, agigantaram-se no início do século XXI. Ficou claro que não havíamos chegado ao fim da História. Velhas tensões foram reconfiguradas e novas tensões surgiram.

Ascom – A senhora tem atuado com estudos sobre a resiliência do Mercosul. O que poderia ser apontado como maior condicionante dessa “situação de resistência” no Brasil? De que modo a polarização política e a desigualdade socioeconômica acentuam as estruturas brasileiras e como elas atuam em prol do regionalismo sul-americano?

Aline Contti – O livro tem dois capítulos que tratam do tema. Por meio de mudanças de ciclos e de adaptações a diferentes orientações governamentais, o Mercosul se mostrou resiliente ao longo da sua história.

As estruturas institucionais do Mercosul mostraram-se, portanto, relevantes para fortalecer a inserção econômica internacional do Brasil – por meio da destinação de parcela significativa das exportações brasileiras de manufaturados para a região, assim como pela relativa proteção do mercado regional (no interesse do Brasil).

Evidenciou-se também, historicamente, a relevância das negociações externas do bloco e a ampliação da agenda social. Atualmente, o bloco vive certa paralisação pelas agendas divergentes do eixo central do bloco (Brasil e Argentina).

O Brasil tem uma agenda econômica liberal e estabeleceu medidas de redução da participação social no processo de integração (como a suspensão das eleições diretas para o Parlamento do Mercosul-Parlasul), enquanto o atual governo argentino adota um viés progressista e participativo e, em função da crise argentina, suspendeu a participação do país nas negociações externas do bloco.

O (meu) artigo trata de aprofundar essa análise sobre a polarização do regionalismo sul-americano contemporâneo, analisando as raízes históricas desse fenômeno – em especial as diferentes tradições latino-americana e pan-americana – e a fragmentação institucional que a região vive hoje, fruto também da tensão entre um modelo neoliberal e um modelo progressista de desenvolvimento, que ao invés de serem debatidas e equacionadas na Unasul [União das Nações Sul-Americanas], acabaram por representar um dos pontos centrais da crise dessa instituição.

Ascom – Com a pandemia de Covid-19, o mundo se viu obrigado a partilhar “o bem comum” na busca pelo isolamento social e não proliferação do novo coronavírus (Sars-CoV-2). A senhora analisa que a polarização política e a desigualdade socioeconômica persistem? Há algum indício de conscientização sobre a necessidade de proliferar o “bem comum” de outro modo que não só por causa de uma infecção?

Aline Contti – A crise atual desencadeou grandes diferença nas atuais respostas institucionais da Europa e da América Latina. Ambas as regiões e suas instituições demoraram inicialmente a responder ao grande desafio gerado pela crise.

Contudo, a União Europeia está desenhando e negociando um pacote de reconstrução (destinado a reduzir o impacto da crise) orçado inicialmente em 750 bilhões de euros (intitulado de “Next Generation EU”) e também participando ativamente nos esforços da OMS [Organização Mundial de Saúde] pela construção de uma resposta global à crise (“Coronavirus Global Response”).

A América do Sul, infelizmente, está no outro lado do espectro. Com a crise da Unasul (e do seu respectivo Conselho de Saúde), a região não conseguiu desenhar uma resposta coordenada à atual crise. Além disso, o Brasil não está conseguindo coordenar nem uma resposta em nível nacional, que dirá no nível sul-americano.

Ascom – Para finalizar, como a senhora enxerga os discursos atuais sobre sobrevivência humana a partir de práticas políticas polarizadas e estimuladoras de desigualdades socioeconômicas?

Aline Contti – O mundo já estava repleto de desafios relativos à polarização política e às desigualdades socioeconômicas antes da atual crise. Como é sabido, os momentos de crise abrem também espaço para oportunidades.

Regiões como a Europa e a Ásia, que estão elaborando esforços conjuntos e coordenados de redução dos graves impactos da crise atual, certamente também terão resultados mais alentadores.

Sendo assim, a posição que se apresenta para a América do Sul atualmente é muito grave, pois, diante da crise e de suas consequências nefastas, as instituições regionais não estão conseguindo desenhar respostas coordenadas para os problemas estruturais que se agigantaram atualmente. Nesse caso, as possibilidades de redução dos impactos da crise diminuem muito e vão variar de acordo com as capacidades nacionais.

Redação com UFPB

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