Por pbagora.com.br

Mídia nacional repercute a política na PB e diz que o peso do funcionalismo e ausência de investimentos marcam a disputa no Estado

O jornal Valor Econômico produziu uma reportagem especial sobre a disputa eleitoral da Paraíba. O jornal, um dos maiores e mais respeitados do Brasil, enviou um repórter especial a João Pessoa e, no auge da indefinição do deputado Pedro Medeiros, o desentendimento comum entre tucanos e socialistas ilustrou a reportagem.

O jornalista apresenta um panorama histórico das disputas no Estado que sofre de miopia política, e atualmente figura o quinto lugar entre os Estados mais pobres do Brasil.

Leia a matéria do Valor Econômico:

Peso do funcionalismo e ausência de investimentos marcam disputa paraibana

Murillo Camarotto, de João Pessoa

Irritado com uma espera que se alongava, o deputado estadual Pedro Medeiros (PSDB) saiu pisando duro no escritório político de Ricardo Coutinho, ex-prefeito de João Pessoa e candidato ao governo da Paraíba pelo PSB. Quando já estava dentro do carro, deveras contrariado, o parlamentar foi interceptado a tempo por um ofegante Coutinho, que saíra às pressas de dentro do prédio, alertado que foi sobre a ira do tucano.

Apesar de integrar a aliança que sustenta Coutinho, o PSDB da Paraíba está dividido. Uma ala do partido, liderada pelo senador Cícero Lucena, declara apoio ao governador José Maranhão (PMDB), que tenta novo mandato.

Atrás nas pesquisas, Coutinho se desdobra para angariar apoio de tucanos indecisos, como Medeiros. Após acalorada negociação, o parlamentar foi convencido a ficar e os dois adentraram o escritório. "Veja o que tenho que passar", disse Coutinho, aliviado.

O episódio ilustra a ferrenha disputa política a que os paraibanos já se acostumaram. A forte polarização entre grupos familiares poderosos é apontada como a grande responsável pelos discretos indicadores sociais e econômicos do Estado, o quinto mais pobre do país. Também é atribuído ao embate político exacerbado o fato de a Paraíba ter ficado para trás durante o virtuoso ciclo de crescimento econômico da região Nordeste nos últimos anos.

"A Paraíba não soube aproveitar o desenvolvimento trazido durante os anos do presidente Lula. O Estado não se apresentou para receber projetos estruturantes, por culpa dessa política cega", afirma Coutinho.

Seu principal aliado, o ex-governador tucano Cássio Cunha Lima, concorda: "Apesar de alguns avanços obtidos durante a minha gestão, a Paraíba ficou mesmo para trás. Podíamos ter crescido muito mais", disse ele, cassado em fevereiro de 2009 sob acusação de compra de votos e que agora luta na Justiça para driblar o Ficha Limpa e concorrer ao Senado.

Coutinho e Cunha Lima, naturalmente, colocam a responsabilidade na conta do atual governador. Maranhão, por sua vez, também acha que a Paraíba perdeu oportunidades de se desenvolver, porém atribui o insucesso aos seis anos em que o antecessor governou. "Agora a economia está reagindo de forma positiva aos ventos favoráveis. Mas encontramos o Estado em dificuldades, em uma crise de gestão sem precedentes", afirmou o governador.

Alfinetadas à parte, as famílias Cunha Lima e Maranhão, que já estiveram do mesmo lado, se revezam no poder desde 1991. "A Paraíba ainda não viveu a ruptura com esses grupos tradicionais, como ocorreu em outros Estados do Nordeste, como a Bahia, com Jaques Wagner; Ceará, com Ciro Gomes; e Pernambuco, com Jarbas Vasconcelos. Aqui houve uma continuação das práticas clientelistas facilitadas pelo fato de o Estado ser o grande empregador", explica o cientista político Lúcio Flávio Vasconcelos, da Universidade Federal da Paraíba.

De acordo com ele, cerca de 46% de toda a massa salarial da Paraíba tem origem no poder público, seja na esfera municipal, estadual ou federal. Números do IPEA e do IBGE, referentes a 2007, mostram que 12,5% da população economicamente ativa do Estado são servidores públicos, a maior taxa do Nordeste. Por esse motivo, explica o cientista, as disputas acabam envolvendo a população de uma forma mais aguda. "Como há uma dependência muito grande, os grupos se digladiam com mais intensidade", justifica Vasconcelos.

O taxista Antonio Alves de Oliveira, por exemplo, se diz frustrado por não ter conseguido uma colocação desde que Maranhão, a quem dará o voto, assumiu o poder. "Ele está colocando todo mundo pra dentro. Eu que não consegui nada pra mim, ainda", lamenta. Eleitor de Coutinho, o recepcionista Daniel Guedes também almeja o serviço público. "Deviam abrir mais vagas sem a obrigação de concurso", reivindica.

Com o grande número de servidores estaduais, a Paraíba estourou o limite imposto pela Lei de Responsabilidade Fiscal no que tange às despesas com a folha de pagamento. Em julho último, o valor representava 52,3% da arrecadação, sendo que o teto exigido é de 49%. "Esse é o grande problema do momento", admitiu Maranhão, que acusa Cunha Lima de ter inchado a máquina.

Apesar do problema, nenhum dos dois principais candidatos ao governo se arrisca a prometer uma redução no quadro de servidores, caso sejam eleitos. Tanto Maranhão quanto Coutinho preferem falar em incentivo à iniciativa privada como forma de reduzir o peso do Estado-patrão.

Quando foi eleito prefeito de João Pessoa pela primeira vez, em 2004, Ricardo Coutinho contou com o apoio de Maranhão, à época senador. O rompimento dois dois veio após as eleições de 2008, quando Coutinho, um ex-petista, venceu em primeiro turno com quase 74% dos votos. Naquele ano, ele também teve o apoio, apesar de mais contido, do atual governador.

Mesmo com uma gestão bem avaliada e popularidade elevada na capital, o ex-prefeito não teve confiança suficiente para disputar o governo sem se aliar às tradicionais famílias paraibanas. Com Cássio Cunha Lima (PSDB) a seu lado, Coutinho quer uma vitória larga em Campina Grande, segundo maior colégio eleitoral do Estado. A chapa conta ainda com o senador Efraim Morais (DEM), que tenta a reeleição após ter seu nome envolvido em contratações de funcionárias fantasmas.

Enquanto Coutinho apoia Dilma Rousseff (PT) para a Presidência da República, o restante da chapa pedirá votos para José Serra (PSDB). "Apesar dessa diferença, vejo a aliança com naturalidade", analisa Cunha Lima. Já Coutinho não nega o pragmatismo eleitoral. "Para tentar implantar meu projeto, tive que agregar apoios. Se eu tenho forças que não querem apoiar quem está no governo, porque não trazê-las?", indagou.

Apesar de o PT da Paraíba estar na chapa do governador, Coutinho também quer usufruir da popularidade de Lula e diz que terá o presidente e Dilma em seu palanque. O PT local, no entanto, garante que somente Maranhão será contemplado. "Ricardo Coutinho está com DEM e PSDB, nossos adversários na eleição nacional. Dilma tem palanque único na Paraíba, e ele é de José Maranhão", garante Rodrigo Soares (PT), candidato a vice na chapa do governador.

Sem o apoio de candidatos ao governo, Serra tentará mais uma vez atrair os votos de Cunha Lima. O ex-governador, que teve a candidatura impugnada pelo TRE-PB, lamenta a divisão do partido no Estado, dizendo que poderá prejudicar tanto a sua própria campanha quanto a de Serra.

Ainda assim, lembrou que, em 2002, o presidenciável tucano obteve na Paraíba o segundo melhor resultado da região Nordeste, com 29,5% dos votos. "Vamos tentar de novo", prometeu Cunha Lima, que deposita no TSE todas as esperanças de levar sua campanha adiante.

 

 

Redação com Valor Econômico

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