Paraibano de Serraria, Roberto Luna é remanescente de uma geração de artistas em extinção. Foi contemporâneo de Silvio Santos, Hebe Camargo, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Jacob do Bandolim, Silvio Caldas. Aos 89 anos, Luna é dos últimos grandes nomes da era dourada do rádio. Nascido Valdemir Farias, tornou-se Valdemar por erro de cartório e ganhou o nome artístico de Roberto Luna num improviso do locutor Afrânio Rodrigues ao apresentá-lo como revelação do cenário musical brasileiro.

Nesta entrevista, concedida no apartamento do cantor, no Palacete dos Artistas, em São Paulo, Roberto Luna conta parte da sua invejável trajetória de sucesso. Interprete com cerca de 60 discos gravados e prêmios ganhos, consagrou grandes canções como Relógio, Que Murmurem, Molambo, Confissão e História de um Amor, ele embarcou da Paraíba para o Rio de Janeiro em 1945 num navio que partiu de Recife em comboio por causa da guerra.

No mesmo navio embarcavam para o mesmo destino a Orquestra Tabajara e o maestro Severino Araújo. Roberto Luna fez fama rápido na Cidade Maravilhosa; como tinha repercussão em São Paulo, foi contratado pela Rádio Nacional paulista junto com outros grandes nomes trazidos da Tupi.

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Sergion Reis, Geraldo Luis, Wanderley Cardoso e Roberto Luna, no programa Domingo Show

Seu primeiro contrato profissional foi assinado por Dias Gomes. Luna foi quem primeiro gravou canções de Vinicius de Moraes. No último dia 14, Roberto Luna foi homenageado pela TV Record de São Paulo, no programa Domingo Show comandado por Geraldo Luís. Foi uma tarde inteira de programa com depoimentos de figuras importantes do cenário artístico nacional. Um dos momentos que mais emocionaram o artista foi quando ele foi surpreendido no palco pela presença de Wellington Farias (colunista do PB Agora) e Alberto Farias, primos que não via há cerca de 20 anos.

A entrevista que segue foi conduzida por Wellington, com participação de Alberto.

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"Welter

Welter Silva, Ângela Maria e Roberto Luna

PB Agora – Como surgiu o nome artístico Roberto Luna?

Roberto Luna – Roberto Luna foi Afrânio Rodrigues, locutor da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, quem me deu este nome. Porque quando eu falei o meu nome, eu disse Valdemar de Farias. Então ele disse: “Não, isso aí é nome de caixeiro viajante não fica legal. Posso te batizar artisticamente? ” Eu respondi que sim. Lá no meio do show com artistas da Rádio Nacional e eu começando, ele me anunciou Roberto Luna como uma nova revelação. Foi neste momento que nasceu Roberto Luna como meu nome de artista. Numa casa de show chamada de Táxi-Dancing. Trabalhava com bailarinas. O cliente entrava, pegava o cartão na portaria, sentava numa mesa e, num salão enorme, as bailarinas ficavam sentadas numas cadeiras como as de cinema de antigamente, de madeira e confortável. O cliente escolhia uma delas e convidava para dançar; e picotava no cartão a quantidade de vezes que dançava. Na saída, entregava o cartão e pagava.

PB Agora – Essa história de que você fazia serenatas pelas ruas de Serraria, então, é lenda?

Roberto Luna – Isso não aconteceu, não me recordo. Não sei nem se naquela época em Serraria alguém tocava violão. Fiz muito isso em João Pessoa, às vezes com um conjunto que havia. Inclusive, de vez em quando eu via o Lupércio Miranda que ia a passeio a João Pessoa, foi bandolinista e nesta época já morava no Rio. Ele não nos acompanhava, mas a gente se encontrava com ele, que foi um dos primeiros e melhores credenciados entre os artistas do Rio.

PB Agora – Que grandes músicos chegaram a lhe acompanhar ao longo de sua carreira?

Roberto Luna – Jacob do Bandolim, César Faria (pai do sambista Paulinho da Viola) no violão de sete cordas. Jacob me acompanhou durante muito tempo na Rádio Mauá do Rio de Janeiro.

PB Agora – Um parêntese, para contextualizar: de Campina Grade, você foi pra João Pessoa?

Roberto Luna – Não. Eu vivi em Campina. Era época da guerra e meu pai ficou amigo de Severino Nogueira, que foi o primeiro piloto de avião que chegou em Campina Grande num aviãozinho Piper Cub. Severino foi pra Campina vindo dos Estados Unidos neste aviãozinho que era coberto por um tipo de lona impermeabilizada e pintada de amarelo. E fomos ver a chegada dele pousando num campo de futebol. Sei que ele ao descer foi muito na beirada e rasgou a cauda e parte do corpo do avião nas estacas. Meu pai se entusiasmou e começou a voar com ele. Depois meu pai foi para o Ceará fazer curso de piloto no Aeroclube de Fortaleza, cujos instrutores eram tenentes e capitães da FAB. E meu pai ficou engajado, se brevetou, ganhou primeiro lugar na turma dele. Mas tinha uma moça que também se formou e eles fizeram um acordo com meu pai para ele ceder o primeiro lugar pra ela. Esta moça é uma pioneira importantíssima. Quando meu pai foi pra Fortaleza eu fiquei um tempo em Campina Grande com uma venda que ele comprou para a gente ir sobrevivendo; e deixou um moço que era ajudante dele no caminhão e passou a ser meu auxiliar na bodega. Mas ele bebeu tudo… Eu com doze anos era o dono do negócio. Eu e minha mãe fechamos a bodega e fomos para o Engenho Canadá. Meu pai voltou para o Engenho Canadá já com o brevê. Ele foi convidado pelos norte-americanos para ir trabalhar na base aérea de Belém do Pará. Passou a ser piloto de um coronel americano, ficou numa posição boa.

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Roberto Luna,  Sílvio Luís e Maysa Matarazzo  

PB Agora – E a ida da família para o Rio, por que foi?

Roberto Luna – Quando meu pai voltou do Ceará já veio decidido a ir para o Rio de Janeiro, onde procuraria conhecer a Escola de Pilotos de aviadores da Varig e da Vasp que já operava. Chegamos ao Rio no dia 2 de janeiro de 1945. Embarcamos de Recife. O navio levava também um comboio do Exército que veio se juntar ao Regimento Sampaio no Rio. Uma parte deles foi para a missão no Monte Castelo na Itália. Lembro da volta deles desfilando na Avenida Rio Branco, como heróis, depois do final da guerra.

PB Agora – É verdade que neste mesmo navio embarcava para o Rio de Janeiro o maestro Severino Araújo e a Orquestra Tabajara, que era da Rádio Tabajara da Paraíba?

Roberto Luna – É verdade. Mas a gente não teve contato com os músicos.

PB Agora – Antes de se tornar arista, você trabalhou em que, no Rio de Janeiro?

Roberto Luna – Trabalhei numa fábrica de rádios. Primeiro espanando rádios do mostruário e apendendo a vender os rádios. A fábrica pertencia a um português que namorava uma ex-atriz do Teatro de Revista chamada Esperança de Barros. Nos fins de semana, eu ia entregar os rádios grandes de doze válvulas. E a gente vendia nos morros. Bandido daquela época usava navalha, não tinha dinheiro para comprar revolver. Nós morávamos em Nova Iguaçu. Para chegar ao Rio de metrô de superfície demorava pouco mais de uma hora. Lá, trabalhei num serviço de alto-falantes de um francês chamado Eugênio Beauvalet. Esse cara gostou de mim e nessas serenatas que fazíamos em nova Iguaçu ele me convidou pra trabalhar lá. Também trabalhei num escritório do primeiro importador de louça de vidro que podia ser levado ao fogo (Pirex). A primeira venda fui entregar nas Lojas Americanas. Foi assim que começou a venda de Pirex no Brasil. A louça era importada dos Estados Unidos. Depois fui trabalhar como auxiliar de escritório na Patrimonial AS, uma empresa imobiliária que alugava e vendia apartamentos. Aí tive uma boa ascensão. Como alugava casa, aluguei uma casa em Cascadura no Rio, na Rua Miguel Rangel. Levei meu pai e minha mãe. Ai já comecei a participar dos programas de Calouro.

PB Agora – Quem eram os artistas de sucesso naquela época, quando você era locutor de alto-falante?

Roberto Luna – Era o pessoal da pesada; aquela turma que ninguém chegava perto, ninguém entrava no grupo deles: Orlando Silva, Silvio Caldas, Carlos Galhardo, Isaurinha Garcia, Araci de Almeida, que era muito amiga de Silvio Caldas; Moreira da Silva (rei do samba de breque) que era também motorista de ambulância; Cyro Monteiro, que foi o melhor caráter, a melhor pessoa que conheci no rádio, que era da mesma família de Cauby Peixoto, este grande cantor e pessoa maravilhosa. Eu e Cauby somos contemporâneos, começamos juntos. Cauby em São Paulo, eu no Rio. Tinha Araken Peixoto, irmão de Cauby, e outro irmão que era pianista de jazz. E foi aí que Cauby começou a cantar as músicas americanas.

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Sílvio Santos, Roberto Luna  e Ronald Golias 

PB Agora – Você naturalmente pensava em ser artista, ser cantor, ou alguém lhe induziu à arte, a ser cantor?

Roberto Luna – Eu, realmente, lá em Campina Grande fazia muitas serenatas com meus amigos. E lá apareceu um cearense chamado Catulo de Paula. Eu cantava com ele e ele não gostava. Ele dizia que eu nunca iria cantar.

PB Agora – Nesta fase, em Campina Grande, você já pensava em ser cantor, tinha essa pretensão?

Roberto Luna – Tinha nada! Pensar isso seria uma coisa absurda. Concorrer com Orlando Silva, Silvio Caldas, Francisco Alves, que foram os maiores de toda a história da música popular brasileira… Só teve um grande, que veio a ter ascensão quantos eles que foi Tom Jobim, enquanto músico. E que não tinha nada a ver com Bossa Nova, e eu sou testemunha.

PB Agora – Como assim, Tom Jobim não era da Bossa Nova?

Roberto Luna – Porque quem inventou a batidinha do violão da Bossa Nova foi o Candinho (José Candido de Mello Mattos Sobrinho, de Minas Gerais). Candinho era casado com a Sylvinha Telles. O movimento nasceu lá na Praia de Ipanema. Toda noite por volta das 23 horas ia chegando aquela turminha da Bossa Nova, na beira da praia. E Tom Jobim não vinha porque era pianista da noite em início de carreira. E um dos professores dele de harmonia foi o maestro Alceu Moquino, com quem trabalhei na Rádio Clube do Brasil, e o maestro Cláudio Santoro. Os dois eram eruditos, mas fizerem concessões para ganhar dinheiro com a música. Veio uma época em que eu e Dolores Duran estávamos cantando no Hotel Gloria; ela cantava com o conjunto de Bola Sete, que foi para os Estados Unidos, e eu cantava acompanhado pelos Copacabana, que era conjunto de jazz famoso no Rio de Janeiro: era o Quincas (sax tenor), Kuntz (sax alto e clarineta) e Wagner (piston). Os caras tocavam demais! E eu era crooner. Foi à época que chegou a Ângela Maria para trabalhar no Avenida Danças. E eu trabalhava do lado no Samba Danças. Quando Erasmo Silva levou Ângela Maria para a Rádio Mayrink Veiga, Jaime Moreira Filho locutor esportivo concorrente do Ary Barroso, tinha sido promovido diretor artístico da rádio e eu já fazia alguns programas como convidado. E por lá já estava reinando o Chico Anysio com o seu humor. E ele já chegou arrasando. Inteligente demais, fora de série.

PB Agora – Quando você embarcou com a família para o Rio de Janeiro já tinha a pretensão de ser artista? Em que momento você resolveu ser cantor, depois de perceber que tinha boa voz e dom artístico?

Roberto Luna – Foi tudo muito rápido. Eu cheguei no Rio, descemos na Praça Mauá. Por curiosidade, eu fui numa loja para turistas que apareciam no Rio. Essa loja vendia muitas coleções de borboletas numa espécie de bandeja com feltro coberta de vidro e no meio as borboletas. Vendia-se muito esse tipo de coisa. A loja era do pai de Silvio Santos. A loja ficava na Praça Mauá do lado oposto ao da sede do Jornal A Noite, onde ficava a também a Rádio Nacional.

PB Agora – Mas quem lhe deu a mão na música? Quem lhe empurrou para cima do palco?

Roberto Luna – Primeiro fiz teatro. Comecei no Teatro João Caetano numa companhia de revista com 120 participantes. La conheci o Jota Mayer que era quem escrevia as peças de teatro de revista, parceiro do Chianca de Garcia. O teatro de revista foi muito importante na época. E no serviço de alto-falante de Nova Iguaçu fui apresentado a Assis Valente. Foi ele quem me levou para apresentar para Chianca de Garcia; era maestro e compositor (que compôs o samba Olhos Verdes, Mamãe eu Quero). Ele me aprovou cantando. Mas o Chianca de Garcia olhou pra mim e falou: “Eu gostaria muito de te contratar como cantor, mas você vai desaparecer no meio das meninas”. As meninas que ele falava era o corpo de 12 bailarinas francesas com mais de 2 metros de altura e eu desse tamanhinho… Me arrepio com essas histórias.

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PB Agora – Mas ele não lhe dispensou por maldade, não é?

Roberto Luna – Não, ele me contratou. Contaram pra ele que eu tinha curso de datilografia e gostava de estudar, de ler e de teatro. Ele falou pra Jota Maya: “Chama aquele menino lá da Paraíba, que eu preciso de alguém para datilografar peças. Então, eles passavam os quadros que escreviam e eu datilografava, fechava com os grampos e levava pra censura. Fui desenvolvendo isso aí. E cheguei no cinema. Participei muito das chanchadas da Atlântica com o diretor Manga (José Carlos Aranha Manga). E o Assis tinha portas abertas porque ele foi o autor preferido da Carmen Miranda. E quando eu saí de Nova Iguaçu para morar no Rio, foi tudo muito rápido. Estudei teatro com Ziembinski (Zbigniew Marian Ziembi?ski) que chegou ao Brasil fugido da Polônia, do Nazismo, e o Chianca de Garcia o convidou.

PB Agora – Qual foi o seu primeiro disco lançado?

Roberto Luna – Tem vários primeiros discos. O primeiro foi pelo selo Star, que era dos editores de música Irmãos Vitale. Gravei o bolero Por quanto tempo, de Don Al Bibi. Ele era estrangeiro e veio pro Rio trabalhar na noite. Era época de Orestes Barbosa, com quem tive encontros maravilhosos no Café Nice. No tempo do teatro, toda tarde eu encontrava com Nelson Rodrigues. Eu ia à redação do jornal A Última Hora levando o script que eu fazia, datilografado, já com redação minha. Eu gostava muito dessas coisas de teatro e lá conheci muita gente. Culminou com uma grande amizade com Fernanda Montenegro. Ele começando o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) na rua Major Diogo, no Bexiga. Aquilo foi o centrão de São Paulo cantado pelo Paulo Vanzolini, na música Ronda, que fazia referências à esquina das Avenidas São João e Ipiranga. Agora, veio o Caetano Veloso e, em cima da ideia de Vanzolini fez aquela música Sampa.

PB Agora – Qual foi o seu primeiro show? Qual foi o primeiro palco em que você subiu e se deu conta de que, ali, já era um cantor profissional.

Roberto Luna – Foi no Rio de Janeiro. Já com o pessoal da Casa Neno. Tinha uma firma no Rio Casa Neno que era uma espécie de Casas Bahia, no Rio, cujo dono era Claudio Ramos Neno. Eu trabalhei com eles e fiz amizades. Nessa época, o nordestino era muito bem aceito tanto no Rio como em São Paulo.

PB Agora – A sua transferência do Rio pra São Paulo foi por qual motivação?

Roberto Luna – Foi por causa do Vitor Costa que era diretor-presidente da Rádio Nacional, da Rádio Mayrink Veiga, da Rádio Mauá e da Rádio Mundial. E, por sua vez, inaugurou aqui em São Paulo a Rádio Nacional, que hoje é NBC. E a Rádio Excelsior, a TV Paulista, hoje TV Globo. Ele me mandou pra cá. Disse: “Luna, você vai pra São Paulo para ficar um mês. Se você for bem lá eu te dou um contrato de cinco anos aqui na Rádio Nacional. Eu estava fazendo muito sucesso no Rio e se refletia em São Paulo. Era o início a Rádio Nacional de São Paulo, com Manoel da Nobrega e todo aquele pessoal da Rádio Tupi de São Paulo, inclusive o diretor Demerval Costa Lima, um baiano, poeta, sensacional, homem de rádio maravilhoso. Então vim pra ficar 30 dias, estreei ai e já me puseram de cara nos melhores programas. Tinha um programa chamado Cartaz das 10. Toda semana tinha um dia em que eu era o cartaz das 10. E tinha os artistas da Rádio Nacional que também vinham pra cá, como Isaurinha Garcia, Demônios da Garoa, atuante até hoje e o mais antigo do mundo no gênero. Eles começaram, se não me engano, em 1947. Eu conheci todos os fundadores. Os que vão morrendo são sempre substituídos por filhos de alguém da família.

PB Agora – Quando foi assinado o seu primeiro contrato profissional?

Quem assinou meu contrato como diretor artístico da Rádio Clube do Brasil, hoje Rádio Mundial, foi Dias Gomes. Eu comecei no Rio no rádio em 1948. Em São Paulo, em 1953. Me tornei profissional no Rio de Janeiro em 1948, na Rádio Mundial, trabalhando principalmente no programa do Almirante.

PB Agora – Você passou pelo crivo de Ari Barroso?

Roberto Luna – Passei. Fui gongado umas duas vezes. Eu sofria demais, minhas pernas tremiam. Eu ficava com muito receio, esquecia a letra. Hoje com essa idade eu não esqueço uma letra. Mas eu descobri um comprimido que me acalmava, e toda vez que eu ia fazer um programa eu passei a tomar uma pílula.

PB Agora – Você gravou e vendeu quantos discos?

Roberto Luna – A ideia de quantos foram vendidos eu não tenho. Nunca liguei muito, nem para dinheiro nem para o que ganhei. Houve uma época em que eu fui o cantor mais aclamado como o que mais vendia disco na Emi-Odeon, gravadora de origem Inglesa. Eu gravei em várias gravadoras. Só não gravei na Continental. Quando eu fui trabalhar na Casa Samba Dança, o Jamelão já era veterano lá.

PB Agora – Jamelão é aquele que foi crooner da Orquestra Tabajara de Severino Araújo?

Roberto Luna – Exatamente. Ele foi o último crooner antes de Jota Monteiro e José Ramos.

Roberto Luna – Mas me diz uma coisa, uma curiosidade minha: como nasceu o Wellington Fodinha (kkk)?

PB Agora – (Wellington Farias, entrevistador responde): Foi em 1977, na Rádio Tabajara, onde comecei, levado pelo jornalista Gilvan de Brito. Eu era novo demais, franzino. Mas dava conta do recado. Tinha curso de datilografia e era rápido nas teclas. Também produzia bem notícias e dava uns furos jornalísticos. Ai começaram a comentar: esse menino é foda. Mas como eu era pequenino, começaram a me chama fodinha kkkk. E ficou.

Roberto Luna – Mas você não começou no jornal impresso?

PB Agora – (Wellington): Não. Comecei na Rádio Tabajara, no seu prédio histórico da Rua Rodrigues de Aquino, em João Pessoa. Ainda trabalhava lá Paschoal Carrilho, lembra dele? Dois meses depois ingressei no jornal A União, do Governo do Estado e o terceiro mais antigo do Brasil, como repórter sob o comando e a orientação de Frutuoso Chaves, grande jornalista paraibano, natural de Pilar, terra de José Lins do Rego, nosso grande escritor. Você lembra de Paschoal Carrilho?

Roberto Luna – (vibrando) Paschoal Carrilho!! Claro que lembro dele. Meu querido amigo. Um dia eu estava em Recife, na Jornal do Comercio e chega aquele cara grandão, magrelão e disse: “Eu vim de João Pessoa para te contratar”. Foi a primeira vez que fui a João Pessoa já como cantor.

PB Agora – Quem foram seus melhores amigos no mundo artístico, no meio musical sobretudo?

Roberto Luna – Um deles posso dizer com muito orgulho: Cyro Monteiro, o maior caráter do rádio na minha opinião. Outro foi Orlando Silva, que foi sempre meu ídolo. Silvio Caldas foi grande amigo; eu ia muito no sitio dele. A porta de entrada do sitio era pela cozinha, porque ele mostrava as panelas no fogão à lenha que ele fez. A viúva dele e filho ainda são meus amigos. Ela mora lá ainda. Outra grande amiga foi Hebe Camargo, que me apresentou a muita gente boa de São Paulo. O Carlos Alberto da Nobrega também.

PB Agora – Além da fama como artista, como cantor que encantou multidões, Roberto Luna também carrega a fama de brigão, gostava de umas brigas.

Roberto Luna – Éee… a turma fala. Eu não gostava, não. Ninguém gosta de brigar. Mas eu era meio grosseiro quando cheguei da Paraíba porque encontrei algumas caras amarradas e fazendo pouco caso de mim. Eu ficava triste e aborrecido com isso. De vez em quando eu subia numa mesa, quebrava um litro de uísque… Mas isso foi coisa de muito tempo atrás e reconheço que fui muito grosso com muita gente; e muita gente também foi grossa comigo. Mas eu tenho consciência de que sou um cara simples, humilde e, por que não dizer, bonachão também. Gosto de todo mundo, gosto de fazer amigos. Eu só não fui bom para a minha família (de origem). Porque fui ingrato demais. Eu vim muito criança pra cá. Eu fiz 15 anos aqui. São coisas que fiz porque a profissão me obrigou. Porque eu estava sempre contratado e nunca tive um agente meu, como a maioria tem. Eu mesmo fazia meus negócios; quando tinha que assinar contrato eu mesmo assinava. Porque eu via muita coisa estranha no nosso meio… Tinha um empresário que trabalhava com meu amigo Augusto Calheiro, que costumava dar um banho nos artistas e sumir com a grana.

PB Agora – Mas consta que você deu uma brigada até com Nelson Gonçalves por causa de uma cubana…

Roberto Luna – Nelson foi fazer uma excursão pelo Nordeste e deixou a cubana sob os meus cuidados.

PB Agora – Significa que Nelson Gonçalves não tinha muito juízo ao deixar uma cubana sob seus cuidados… (risos)

Roberto Luna –Nelson era meu amigo; eu era amigo da esposa dele, a Lourdinha Bittencourt, que substituiu Dalva de Oliveira no Trio de Ouro. Eu costumava jantar e almoçar com Nelson. Ele trouxe a cubana do Rio. Quando ele foi fazer a excursão pediu para eu dar uma atenção a ela. (Maria de Lourdes Bittencourt atriz e cantora brasileira que também fez novelas, dentre elas Irmãos Coragem. Foi casada com Nelson Gonçalves, casamento este que durou de 1952 até 1959, quando se separaram.

PB Agora –Você atuou no filme O Bandido da Luz Vermelha. Como se deu a sua escolha para o elenco?

Roberto Luna – Foi a seguinte: eu gosto muito de ler a Folha de São Paulo, desde muito tempo. No ano de 1968, tinha um crítico de cinema com 22 anos de idade. E um cara com essa idade não podia ter uma formação escandalosa (no sentido de imensa) como ele teve. Era Rogério Sganzerla. Ele era crítico de cinema com 22 anos. O cara não teve nem tempo de ver os filmes que tinha que ver. mas ele viu tudo muito rápido e assimilou muita coisa da técnica de fazer cinema. Fez O Bandido da Luz Vermelha, com mais de 40 prêmios internacionais. (Segundo a enciclopédia virtual wikipedia: cineasta brasileiro, mais lembrado pelo filme O Bandido da Luz Vermelha; dirigiu várias outras obras ousadas, como A Mulher de Todos, Sem Essa, Aranha, Copacabana Mon Amour, Tudo É Brasil e O Signo do Caos, entre outras).

PB Agora – Sônia Braga já começa a aparecer aí neste filme.

Roberto Luna – Sônia Braga aparece no filme. Fizemos uma cena juntos, inclusive. Mas ela estava iniciando, novinha, não botaram nem nos créditos. Ela em seguida foi despertada para o teatro, a televisão e o cinema. Tudo começou muito rápido pra ela. Foi um prêmio que Deus nos deu com aquela beleza toda e com a inteligência da menina que ela continua sendo. Também atuou no filme Pagano Sobrinho (Fioravante Pagano Sobrinho, ator e humorista) que foi meu grande amigo e também um dos maiores nomes do rádio brasileiro, da televisão e do teatro. Deus que o tenha! Eu fiz o papel de um pseudo Lucho Gatica, o mesmo nome do grande cantor maravilhoso, que morreu há pouco no México. (Luis Enrique Gatica Silva, mais conhecido como Lucho Gatica, cantor de bolero e ator nascido no Chile. Também foi pai do ator mexicano Luis Gatica e tio do produtor musical chileno Humberto Gatica). Lucho se tornou meu amigo, às vezes até confidente. Grande amigo que também me lembra outro grande amigo que tive: Gregório Barros.

PB agora – Você chegou mesmo a dividir palco com o grande cantor francês Charles Aznavour, ou é mais uma das lendas em torno de sua história artística, apesar de haver este registro em textos jornalísticos?

Roberto Luna – Não. Estive com ele uma das vezes que ele veio ao Brasil. Aznavour também gravava para a Emi-Odeon, lá na França. E o escritório aqui em São Paulo, na pessoa de Oswaldo Gurzoni, diretor de vendas da Odeon na época, nos aproximou. Eu fiquei encantado de ver aquele homem. Dizia-se muito que tinha uma aparência física comigo. Um homem gentil demais, educadíssimo, carinhoso para os colegas, amigos e o público.

PB Agora – Você ganhou muito dinheiro durante a carreira artística?

Roberto Luna – Ganhei e presenteei muito, para minha felicidade e alegria. Estourei tudo muito rápido. Mas foi bom demais. Faria tudo outra vez. Dinheiro não se guarda. Dinheiro é pra percorrer caminhos e caminhos para alegrar todo mundo.

PB Agora – Você foi amigo de Madame Satã? Nos fale um pouco sobre esta figura.

Roberto Luna – Convivi com Madame Satã nas noitadas na Lapa do Rio de Janeiro. Madame Satã era baixinho e bem magrinho, franzino mesmo. Uma personalidade incrível, inteligente, e vivia e trabalhava para uma senhora lá na Lapa. Não vou falar o nome dela porque são segredos de vida maravilhosa que a gente guarda com ciúmes daqueles que também tiveram amizades com ela. Ela foi uma mulher muito digna que fez de Madama Satã um personagem incrível, que a nossa cultura no cinema lembrou desse personagem. Um personagem até hoje citado e com uma história que teve que o cinema contou. Os amigos de Madama Satã eram muito poucos, e ele fazia questão de ser dessa maneira. Quem chegava perto dele tinha que ter muito respeito por ele. Foi uma pessoa tida como violenta, por alguns, e como de muita ternura para outros.

PB Agora – A essa altura da vida, aos 89 anos, quais foram a sua maior alegria e a sua maior tristeza?

Roberto Luna – A minha tristeza maior foi perder parte da minha família, com quem deixei de conviver quando eu fiz 15 anos de idade, que foi quando eu saí do Engenho Canadá (Serraria-PB) e de Campina Grande. De Campina a cidade que tenho no coração porque me ensinou a ler e ter curiosidade na vida, de chegar perto de pessoas intocáveis como foi o meu querido Orlando Silva, Fracisco Alves, Silvio Caldas, Cyro Monteiro, Jacob do Bandolim e o pai do nosso maior sambista Paulinho da Viola, o César Faria, pioneiro em violão de 7 cordas. As alegrias foram muitas. Cito a de hoje, por exemplo, que para mim foi uma das maiores (no programa de Geraldo Luís, da Rede Record de Televisão), quando me botaram de costas no palco. E eu percebi que alguma coisa esquisita, estranha e grandiosa iria acontecer. Eu virei o contrário e dei de frente com vocês, vieram lágrimas no meu rosto (Roberto Luna se emociona ao narrar o reencontro, naquele mesmo dia, com os primos Alberto Farias e Wellington Farias, que foram a São Paulo participar da homenagem da Record lhe homenageou com uma tarde inteira de programa sobre a sua vida). São duas pessoas que tenho no meu coração: Você Wellington e você Alberto, com suas famílias, essa alegria que vocês me proporcionaram hoje foi uma das coisas mais incríveis que me aconteceram na minha vida. Vejo em Alberto o meu Tio Elias, inesquecível, como vejo em Wellington o meu tio Sales. Não posso esquecer o meu tio Ramos.

PB Agora – Qual o seu nome verdadeiro, afinal: Valdemir ou Valdemar?

Roberto Luna – Eu me chamo Valdemar de Farias. Nasci Valdermir, mas acontece que quando foi para viajar da Paraíba para Recife, e de lá embarcar no Navio Pedro II para o Rio de Janeiro, eu tive que levar a certidão de nascimento. Eu nasci em Serraria, mas fui registrado em Campina Grande. Tive que pegar uma segunda via, porque a primeira estava no Colégio PIO XI e não era permitido reaver. Peguei a segunda via no cartório, mas fiquei louco de raiva, porque o escrivão veio falar: olha, não tem Valdemir nenhum; tem Valdemar com a mesma filiação, e a data de nascimento coincide: 1º de Dezembro de 1929. Eu ponderei se não havia como consertar, mas alegaram que a pessoa que fez o registro não estava mais. Contaram uma estória de João sem braço… e como tinha urgência, eu deixei ficar Valdemar mesmo.

PB Agora – Voltando um pouco: quem eram seus pais?

Roberto Luna – Francisco Galdino de Farias, meu pai, natural de Alagoa Grande; minha mãe Albertina Farias de Albuquerque, de Serraria. Mas pouca gente, senão a família, sabia que minha mãe se chamava Albertina. Era chamada de Judith, apelido de família. Meu pai era empregado do então prefeito de Serraria Olegário Juscelino.

PB Agora – Você viveu até que idade em Serraria?

Roberto Luna – Até os oito meses de idade. Porque estourou a Revolução de 30 e eu, bebê, fui levado por Guilhermina para ser escondido dentro das matas (Guilhermina uma negra, moradora do Sitio Canadá, no município de Serraria, que serviu à família Farias por gerações). Minha mãe já tinha esgotado o leite nos seios. Eu não sei se Guilhermina me levou pra Canadá ou ficou comigo nas matas nas redondezas da cidade. Meu pai, depois que a revolução eclodiu, teve que ficar escondido por um tempo. Nos deixou em Serraria e foi para Campina Grande. Depois, foi nos buscar.

PB Agora – E como foi a sua relação com Serraria depois desses episódios? Você voltava à cidade?

Roberto Luna – Toda vez que eu estava de férias eu ia para o Engenho Canadá (pertencente à família Farias até hoje). Mas o meu tio Sales (Manoel Sales de Farias), que era agente de estatística do IBGE me levava à cidade. Na minha lembrança, aí eu já tinha de sete para oito anos. Eu me recordo que quando eu estava com Mamãe Mocinha, a minha avó materna, pedia para a minha tia Bida (Ovídia Aurora de Farias) me servir o almoço por volta das 10 horas, porque eu ia render (substituir eventualmente) o meu tio Elias (Elias Eusébio de Farias) na administração do engenho. Meu tio Elias trabalhava no alambique. E foi aí que eu aprendi tomar uns goles… aquilo pingava de gotinha em gotinha; eu ia lá com o dedinho, esperava o pingo e botava na boca. E como era gostosa a aguardente!

PB Agora – Quem eram seus amigos, seus contemporâneos de férias no Engenho Canadá, em Serraria?

Roberto Luna – Eram Hermes de Castro e José de Augusto, irmão dele, que era soldado da PM. Eles, na verdade, eram amigos do meu Tio Elias, mas às vezes saiam e me levavam. Mas quem me levou pra gandaia mesmo foi o meu tio Sales, com quem frequentei uns ambientes reservados, na periferia da cidade de Serraria…

PB Agora – Você estudou em Campina ou em Serraria?

Roberto Luna – Eu estudei em Campina Grande, no Colégio PIO XI. Não lembro os nomes dos meus colegas; mas sei que a minha turma ficava sempre de castigo após a aula. Minha primeira professora, muito querida da qual tenho muita saudade, não lembro o nome dela. Mas chamávamos ela carinhosamente de miolo de lápis, porque ela era bem negra. Mas aí foi antes do PIO XI. Meus amigos vizinhos eram Paulo Imperiano de Cristo, Iolanda Imperiano, e Pedro Imperiano, Mumuta e Ivan, que era da família de Manequinho.

PB Agora – Como cantor, qual a sua maior alegria?

Roberto Luna – Eu só tive alegria. As tristezas não contam.

PB Agora – Roberto Luna hoje é um cara feliz?

Roberto Luna – Muito. Faria tudo outra vez.

 

Wellington Farias

PB Agora

 


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