PB Agora – Que outros erros o PT e as esquerdas cometeram?

Ricardo Coutinho – O outro erro do PT e da esquerda e centro-esquerda foi não ter compreendido que os interesses não são iguais. Em qualquer sociedade você tem interesses diferentes. Não adiantava achar que todo mundo estaria satisfeito. Todo mundo está satisfeito quando está ganhando. Quando alguém ganha menos ou reduz aquilo que se ganha, põe as unhas de fora. E mudanças, reformas importantes não foram feitas. Reforma nos meios de comunicação. O papel dos meios de comunicação foi algo estarrecedor, algo que num país civilizado jamais teria acontecido. Numa Inglaterra, França, numa Itália, jamais uma rede de televisão poderia fazer o que foi feito aqui dentro. Se derrubou um governo. Se expressou para a população, se organizou as grandes concentrações. Eu tenho imensas críticas a fazer a Maduro, na Venezuela. Agora, essa história de derrubar um governo é conversa fiada. Eles querem é o petróleo como quiseram o petróleo do Brasil. Não tem essa história de estar preocupado com a ditadura de não sei de onde. Tanto é que eles hoje não estão preocupados com Bolsonaro e nem se preocupam com a China, que tem partido único. Preocupa-se com a disputa que alimenta setores, ideologicamente falando, que aí pega Cuba; e essa coisa da derrubada aqui dentro do governo, com uma rede de televisão agindo como agiu, jamais. Isso não é democracia. Isso é o oposto de democracia. Pois bem, essa conjunção de fatores levou o País a um buraco muito difícil de saída, porque acho que é um buraco que dialoga com o mundo. O mundo passa, não tem essas grandes ondas, 68 foi uma grande onda dentro do mundo; o pós 45, também. Essa onda é profundamente conservadora, do desencanto e da falência desses estados nacionais e, consequentemente, das democracias tradicionais representativas. A democracia representativa é a grande vítima de tudo isso. Dela não dava resposta. O cara é eleito com 68%, como Macron lá na França, e com três meses está com 20% de aprovação. Os estados Nações não conseguem mais cumprir uma pauta, porque estão subjugados a uma grande ordem econômica internacional dominada pelo sistema financeiro. Essa é a questão fundamental. E o Brasil está aumentando tudo isso com as supostas loucuras do presidente da República que não passa um dia sem deixar a Nação estupefata.

PB Agora – Até muito recentemente, por qualquer motivo, os movimentos sociais entravam em cena, para reagir. Por quase nada, por exemplo, o movimento secundarista ia às ruas protestar; do mesmo jeito a Une, que hoje pouco aparece e, quando o faz, é muito timidamente. O que está acontecendo? Por que tanta acomodação?

Ricardo Coutinho – Nessa era da ignorância a que me referi, penso eu, que não sou estudioso, acho que ela traz uma era de desalento. O Brasil passou por um grande processo de renascimento que foi o fim de ditadura, a volta dos movimentos sindicais, do movimento estudantil. Aquilo veio num crescente até 1988. Entramos na década de 90 com a ascensão de Fernando Collor, levando uma porrada muito grande do ponto de vista dos movimentos sociais. Mas eles ficaram por ali, ascenderam de forma diferente com a eleição do presidente Lula, porque passaram a participar do Estado, a ter acento nos conselhos. Então criou-se uma espécie de casta que interferiam nos caminhos do Estado brasileiro, pelo menos no que se refere às políticas públicas; não interferia na política econômica. Porque a visão de Lula era de que podia fazer política conservadora com um País mais moderno socialmente. Não havia esta condição, como não houve concretamente. A economia é uma ciência social, não pode ser vista como ciência exata. Eu gasto de acordo com minha visão política pra sociedade; eu arrecado de acordo com a minha visão política para a sociedade. Minha política de finanças tem que estar atrelada a esse meu pensamento social. Se eu preciso taxar mais, eu taxo mais; se para salvar o Estado eu preciso instituir um fundo, faço, como de fato fiz, eu faço. Vão criticar, sim, e daí?

PB Agora – O Sr. acredita que a condenação e prisão de Lula serão revertidas pela Justiça?

Ricardo Coutinho – Lula é o grande fator da paz social no Brasil. O País está caminhando diretamente para um processo de implosão social e política; de renegar as instituições. Lula é alguém que dialoga com as partes. Lula dialoga com o setor abastado, para o qual começou a cair a ficha… O setor de máquinas está morto; o setor de vestuário vai entrar também; construção civil está morta. Esse pessoal está começando a perceber que aquela história do “patinho amarelo” é uma balela, conversa para derrubar governo, achando que o liberalismo que o outro, por total insuficiência de ideias, sem conhecimento de nada, entregando a condição econômica a um presidente que não tem conhecimento de nada. Essa condição financeira é toda voltada para o setor financeiro internacional. Não tem meio termo e vai tudo cair. Esse pessoal está percebendo que, ao lado disso, você começa a ter uma inquietação social muito profunda, e que Lula, me parece, é o cara que pode, até fora do poder, costurar uma saída para esse País. Acho que alguns já estão percebendo isso. Afora isso, existe uma pauta no meio da estrada, que se chama Luiz Inácio Lula da Silva. Não é possível. Todos os tribunais internacionais dizendo que aquilo é uma farsa; que um juiz não pode combinar com a acusação… Então, acho que esticar essa corda vai ser aprofundar a crise do Brasil e é preciso que alguns setores, particularmente, o Poder Judiciário, que se envolveu num processo muito delicado, recuperem isso, deem a liberdade, que é a Justiça pra Lula. Lula não é nenhum Mandela, mas Lula sabe do trânsito que ele tem e da capacidade de repactuar o Brasil. Eu não estou dizendo (Lula) como presidente, mas como agente público. Tudo isso vai passar. Por mais desgaste que provoque, essas coisas passarão. Essa histeria que nós presenciamos ao longo desses anos, vai nos causar uma grande ressaca mas, necessariamente, vai ter que passar. Porque os nossos problemas são muito grandes, e não se tem como resolver com aquela solução de exclusão que eles estão fazendo. Essa exclusão vai criar um barril de pólvora perigoso.

PB Agora – E como deveria ser esse movimento?

Ricardo Coutinho – Tem que ser um movimento da Justiça como um todo. A Justiça tem que punir quem precisa ser punido. Agora, dentro do devido processo legal, com provas. Ela não pode punir em função do clamor popular, nem por convicção; não pode punir por clamor social em que se diz que alguém fez tal coisa, mas sem a prova de que aquilo foi feito.

PB Agora – Quais foram as reformas que os governos do PT deveriam ter feito?

Ricardo Coutinho – Democratização das Comunicações. A reforma política, porque nós continuamos com o balcão de negócios, alimentado das piores formas possíveis. Não é culpa do PT, porque isso é histórico. Só não foi assim em épocas de exceção, porque eles diziam que tem que ser feito assim, mas faziam o mesmo por outras formas. E a entrega de partes do poder para que partidos se apropriassem. Tudo isso que aconteceu no Brasil não foi para alimentar o Poder Executivo, foi para alimentar o Congresso; para se sustentar politicamente. O que era o mensalão? Era o Executivo, os Ministérios alimentando o Congresso. Foi o Congresso que derrubou Dilma. Então, Ministério tal ia servir a tais deputados das mais diversas formas republicanas e antirrepublicanas. E pegar isso e jogar no colo do Executivo?! A reforma politica era fundamental.

PB Agora – Que outra reforma era preciso?

Ricardo Coutinho – A reforma tributária. Rico no Brasil não paga. Isso é uma excrecência. Eu vejo gente reclamado de imposto. Quem tem que reclamar de imposto é pobre e médio. Rico não pode reclamar de imposto. Entre lucros e dividendos, não paga nada. Como pode, se é exatamente daí que vem a riqueza?! A Previdência se torna o bode expiatório de tudo, o que é outra farsa. O problema da economia não é a Previdência; a economia é que é o problema da Previdência. Nessa farsa do golpe de 2016, a economia desempregou 14 milhões de pessoas. Isto significa que essas pessoas estão desempregadas sem contribuir para a Previdência. Se não estão contribuindo, a Previdência arrecada menos e se torna deficitária. E é claro que têm privilégios ai dentro que precisam ser combatidos e não estão sendo. Militares, por exemplo. É claro que eu sei que um sargento não pode ficar até 65 anos para se aposentar, porque a atividade dele é diferenciada. Ele sai numa patrulha à noite e não sabe se volta. Agora, um coronel se aposentar com 48 anos, não dá. A nação não tem como sustentar isso. Acho também que uma razoabilidade na idade mínima para professores tem que ter. Agora, 83 por cento desse suposto R$ 1 trilhão que serão economizados em dez anos, vir de quem ganha até três salários mínimos, no Regime Geral da Previdência, isso é uma estupidez. A reforma é para massacrar o pobre. É a destruição da Previdência, abrindo espaço para que as pessoas, obrigatoriamente, procurem a previdência privada com o pouco que você tem. A média de contribuição do Regime Geral da Previdência é 5,1 meses; da mulher, 4,8. Isso significa, quando se faz uma projeção, que a idade real possível de se aposentar seria 76,8 para o homem e 74,8 para a mulher. Em 2012, a Previdência era superavitária. A reforma em vez de consertar os privilégios, mantém os privilégios, dá de graça R$ 84 bilhões na exportação do agronegócio, escandalosamente, e joga nas costas de quem pouco ou nada tem. Sou favorável a ajustes na Previdência, que precisam acontecer sempre, porque a expectativa de vida da longevidade das pessoas vai se ampliando. Agora, em nome disso não se pode criminalizar a Previdência. O trabalhador, o garçom, frentista hoje acredita na mentira de que com esta reforma os investimentos voltarão. Isso é mentira, uma farsa. A reforma é um crime do qual a população só irá se aperceber quando for em busca da aposentadoria.

 

Ricardo Coutinho: “Vivemos a era da estupidez; o futuro do Brasil é incerto e Lula será o fator de paz social” – Parte 3

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