Encontrei um verdadeiro exemplo no banco de dados da Folha de São Paulo, que deixa em solo pouco fértil a paixão cega implementada no discurso encontrado na Academia, em especial cursos ligados à Comunicação Social.

É quase unanimidade grandes mestres apontarem “erros” da imprensa quando se está falando sobre alguém ligado à esquerda brasileira que, por uma razão ou outra, é citado em algum escândalo pessoal.

Para muitos, a imprensa do nosso país está contaminada pela polarização política hoje reinante em Pindorama. Mas note, leitor: o queridinho da direita, Flávio Bolsonaro, ocupa todos os dias o noticiário da chamada grande mídia por estar supostamente envolvido no esquema conhecido como “rachadinha” e sua possível ligação com milicianos do Rio de Janeiro.

O site The Intercept Brasil, na pessoa do jornalista Glenn Greenwald, colocou em dúvida as pessoas do ex-juiz Sérgio Moro, hoje ministro da Justiça e Segurança Pública, o procurador Deltan Dallagnol e membros do Ministério Público de Curitiba, que supostamente fizeram uso político da Lava Jato e praticaram atos “completamente corruptos” sob pretexto de combater a corrupção.

O caso tomou repercussão gigantesca na mídia nacional e internacional. E os acadêmicos aplaudiram e concordaram com a notícia. Agora, repito, quando é citado um nome de uma grande liderança da esquerda, presumivelmente envolvido em um escândalo, em especial quando a peça está centrada em atos de corrupção, os jornalistas, ou grande parte deles, estão “associados” aos interesses econômicos dos veículos de comunicação e políticos que “patrocinam” golpes.

O que é um disparate, claro! E aqui procuro mostrar no exemplo pinçado da Folha. Sem prévio julgamento, peço que leia essa “pérola” muito difundida no tempo que frequentei o curso de Jornalismo na UFPB, nos anos 90, cujo exemplo saia da sala de aula para ser citado nas redações as quais passei.

Eis o ensinamento, publicado em 2017, na Folha

Há 37 anos, seção trouxe a notícia do homem que mordeu o cachorro

A seção “Saiu no NP” volta a resgatar, além das reportagens e das participações dos leitores no “Notícias Populares”, colunas seções que marcaram a história do jornal.

Nesta terça (26), você acompanha a publicação da primeira nota da seção “Acontece cada uma!”, que era publicada às terças-feiras.

SOROCABA (Do correspondente) – O pedreiro Juscelino Feliciano estava muito irritado com seu cão vira-latas, anteontem, [neste domingo, 25] quando chegou em sua casa, no Jardim Guadalupe, nesta cidade. De repente, num verdadeiro acesso de loucura, atacou o cachorro a dentadas.

O animal não resistiu à violência do ataque e morreu, com sua cabeça degolada pelo dono. Segundo familiares do pedreiro que testemunharam a cena de sangue, Juscelino não disse nada e apenas avançou contra o animal.

O pedreiro foi encaminhado ao Hospital dos Insanos de Sorocaba, sem ao menos saber que, inconscientemente, ele realizara um dos mais folclóricos exemplos a respeito da definição de notícia, conhecido pelos velhos jornalistas.

Antigamente, nas redações, existia um ditado que alertava os principiantes em jornalismo: “Se um cachorro morde um homem, não é notícia, mas, se um homem morde um cachorro, isso é notícia.

Então Ricardo Coutinho e todos os supostos envolvidos na Operação Calvário são notícia

Isso mesmo! Independente se o ex-governador Ricardo Coutinho (PSB) e seus ex-secretários praticaram ou não atos de corrupção ao longo dos oito anos de governo socialista, não se pode calar. Eles são notícia.

Não por serem de esquerda ou de direita. Amarem a Venezuela ou serem antagônicos ao governo do ultra-direita Jair Bolsonaro. Não é isso. Não há golpe ou tentativa de desqualificar a imagem de ninguém, exceto alguns colegas que levam o fato a questões pessoais e passionais.

Mas, de maneira geral, vejo a mídia paraibana e, de forma abrangente, veículos de comunicação de outros estados tratarem o caso como deve ser. Segundo a Operação Calvário Ricardo Coutinho liderava uma organização criminosa que desviou dinheiro público, e isso é notícia.

Caso a condução do processo investigativo apresente falhas e nada seja provado, que todos citados sejam postos em liberdade, cabendo, nesse caso, uma reparação pecuniária do próprio Estado. O que já seria uma nova notícia.

Por fim, que nenhum homem morda mais o seu cachorro, mas se isso acontecer, a imprensa narrará os fatos. Seja o “pet” e seu dono ligados à direita ou esquerda.

E viva a liberdade de imprensa e aquilo que é NOTÍCIA!

 

Eliabe Castor
PB Agora

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