“Esta obra entrará para os anais e menstruais de Sucupira e do país”. A frase, muito bem construída, foi proferida, certa vez, por Odorico Paraguaçu, personagem criado pelo dramaturgo Dias Gomes. Caricato, o prefeito “sucupirense” foi interpretado por Paulo Gracindo na inesquecível telenovela “O Bem-Amado”, que foi ao ar na década de 70, passando para condição de série no início dos anos 80.

E Odorico era assim. Uma verdadeira figura que misturava “verborragia”, corrupção, demagogia e requintados toques de humor que nem ele mesmo sabia ter. Ao seu lado, um grupo fiel de seguidores, cada um com suas devidas peculiaridades, digamos, pouco convencionais.

A grande meta do alcaide de Sucupira? Inaugurar o cemitério da cidade, construído como a principal promessa de campanha. E havia lógica no empreendimento, pois os mortos eram sepultados na cidade na vizinha. O problema de Odorico é que, após a inauguração da necrópole, as pessoas pararam de morrer, acabando o “sonho” do prefeito de ver, acompanhar e discursar em um enterro.

E nessas lembranças de meninote, comecei a ver semelhanças incríveis nos gestos, gafes e trejeitos de Odorico Paraguaçu e o presidente da República, Jair Bolsonaro. O caso mais recente que faria corar as faces dos habitantes de Sucupira? O episódio envolvendo o deputado estadual Cabo Gilberto (PSL) e o chefe do Executivo brasileiro.

Em vídeo que viralizou, o parlamentar, em evento político, chega ao presidente, que não o reconhece, dá as costas e praticamente deixa o deputado falando só. Nem Odorico seria tão equivocado ou descortês com aqueles que o apoiam de forma incondicional.

O presidente Jair Bolsonaro tentou minimizar o “equívoco” pelas redes sociais, mostrando que Cabo Gilberto é aliado de primeira hora, pondo a culpa pela gafe em si mesmo. Presumo que esse foi o único ato coerente do capitão que, mal assessorado e sempre intempestivo, deixou Cabo Gilberto em saia justa.

Para um presidente da República, o mínimo que se espera dele é ler a lista de convidados presentes no evento, nesse caso a criação do partido Aliança Pelo Brasil, ocorrida na última quarta-feira (20), em Brasília.

Educado e fiel aos seus propósitos conservadores, Cabo Gilberto também minimizou o ocorrido, alegando que ser o presidente “brincalhão”. Mas de fato o “mito” é tudo, menos um ser “brincante”. É homem que persegue os adversários que, para ele, são inimigos pessoais.

Ególatra e insensível para as causas sociais, vem realizando um “desmonte” nas políticas públicas que beneficiam a sociedade brasileira. Faz do cargo uma base familiar que derruba ministros civis e militares.

Bolsonaro consegue surpreender negativamente seus aliados e eleitores. E nesse circo, Cabo Gilberto foi mais uma vítima daquele que um dia buscou explodir bombas em unidades militares do Rio.

O resto, são semelhanças folclóricas da pessoa Bolsonaro e o personagem Odorico Paraguaçu que, em discurso à sombra do coreto de Sucupira, lascou um: “Como diria o rei dos persas, Dario Peito de Aço, pra cada problemática tem uma solucionática. Se não disse, perdeu a oportunidade de ser citado por mim”.

Eliabe Castor
PBAgora

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