O presidente Jair Bolsonaro não dá sinais de que vai deixar de adotar o discurso de radicalização, tônica da atual gestão. Em um dia de declarações polêmicas, desafiou o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, a saber “a verdade” sobre o desaparecimento do pai, Fernando Santa Cruz, durante a ditadura militar. Os posicionamentos causaram desconforto. O PT informou que vai entrar com uma ação na Procuradoria-Geral da República (PGR) para que ele seja responsabilizado, inclusive criminalmente. Potencial adversário para as eleições de 2022, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), classificou o comentário como “inaceitável”.

Santa Rosa, por sua vez, chamou de “crueldade e falta de empatia” e afirmou que vai acionar o Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir que Bolsonaro conte o que ele sabe sobre a morte do pai. “Quero saber do presidente o que ele efetivamente sabe, se ele soube nos porões da ditadura, o que é muito grave, porque ele diz que soube à época quando era militar, então ele reconhece relação com os porões da ditadura”, disse.

A manifestação de Bolsonaro a respeito de Santa Cruz decorreu de uma crítica à postura da OAB no caso da investigação sobre Adélio Bispo, autor da facada no então candidato à Presidência pelo PSL, durante a campanha. O homem foi considerado inimputável e, por isso, ficará em um hospital psiquiátrico, não em um presídio. “Por que a OAB impediu que a Polícia Federal entrasse no telefone de um dos caríssimos advogados (do Adélio)? Qual é a intenção da OAB? Quem é essa OAB?”, questionou o presidente, referindo-se à oposição da Ordem ao cumprimento de mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao advogado Zanone Manuel de Oliveira Júnior, que defendeu Adélio, ainda pela manhã, na saída do Palácio da Alvorada.

O comentário sobre o pai de Santa Cruz veio depois. Disse que a “vivência” o fez chegar a “conclusões” sobre o desaparecimento e manifestou que “um dia” poderia contar ao mandatário da OAB como o pai desapareceu. Não demorou muito tempo. Ainda na tarde desta segunda-feira (29/7), em uma transmissão ao vivo em rede social, Bolsonaro deu sua versão da história. Disse que Fernando era militante do grupo Ação Popular, movimento contrário à ditadura militar classificado pelo capitão reformado como “terrorista”. Segundo o capitão reformado, não foram os militares que o mataram, mas, sim, um “núcleo” do movimento.

Em nota oficial, a OAB repudiou as declarações de Bolsonaro. “Apresentamos nossa solidariedade a todas as famílias daqueles que foram mortos, torturados ou desaparecidos, ao longo de nossa história, especialmente durante o Golpe Militar de 1964, inclusive a família de Fernando Santa Cruz, pai de Felipe Santa Cruz, atingidos por manifestações excessivas e de frivolidade extrema do senhor presidente da República.”

Defesa aos militares

O Ação Popular, segundo Bolsonaro, “era o grupo terrorista mais sanguinário que tinha”. O grupo tinha, de acordo com o presidente, “ramificações” pelo Brasil. “E tinha uma grande (ramificação) no Rio de Janeiro. E o pai dele, bastante jovem ainda, veio para o Rio de Janeiro”, comentou. Teria sido esse núcleo o responsável pela morte. “O pessoal da AP (Ação Popular) do Rio de Janeiro ficou estupefato: ‘como pode esse cara vir do Recife se encontrar conosco aqui?’. O contato não seria com ele, seria com a cúpula de Recife. E eles resolveram sumir (com) o pai do Santa Cruz. Essa é a informação que eu tive na época sobre esse episódio”, explicou.

A versão contada por Bolsonaro é fruto do que ele chama de “vivência” da época. “De onde obtive as informações? Com quem eu conversei na época, ora bolas. Conversava com muita gente na fronteira”, declarou. O presidente defendeu os militares, ressaltando que eles não tiveram responsabilidade no desaparecimento de Santa Cruz. “Não foram os militares que mataram ele não, tá? É muito fácil culpar os militares por tudo o que acontece”, ponderou.

Mesmo negando a intenção de polemizar, Bolsonaro continuou. Sugeriu que o presidente da OAB está equivocado em acreditar na “versão” de que o pai foi morto pelos militares. “Não quero mexer com os sentimentos do senhor Santa Cruz, pois não tenho nada de pessoal no tocante a ele. Eu acho que ele está equivocado em acreditar em uma versão apenas do fato, mas ele tem todo direito de me criticar, etc, etc. Mas essa é a versão minha do contato que tive com quem participou ativamente do nosso lado naquele momento para evitar que o Brasil se transformasse em uma Cuba”, sustentou. É, segundo ele, um testemunho do que “viu acontecer naquele momento”. “Até porque ninguém duvida que havia justiçamentos. “Pessoas da própria esquerda, quando desconfiavam de alguém, simplesmente executavam”, acusou.

Live na hora de encontrar francês

As declarações do presidente Jair Bolsonaro em “live” numa rede social nesta segunda-feira (29/7) foram feitas durante o corte de cabelo, no horário em que deveria estar reunido com o chanceler francês, Jean-Yves Le Drian, ministro da Europa e dos Negócios Estrangeiros do país. O encontro com um dos principais atores do acordo entre o Mercosul e a União Europeia foi cancelado por Bolsonaro sob alegação de “problema de agenda”. O governo minimizou o cancelamento, sustentando que o ministro francês havia se reunido, pela manhã, com o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo. “Em função do estabelecimento dessa reunião, o presidente decidiu, em razão de outras agendas, declinar de receber esse ministro aqui”, justificou o porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros. No encontro com Araújo, Le Drian sinalizou que seu país não terá pressa em aprovar o acordo.

Polêmicas não faltaram para o presidente Jair Bolsonaro nesta segunda-feira (29/7). Outro comentário controverso foi dito em relação ao jornalista Glenn Greenwald, um dos fundadores do site The Intercept Brasil. Depois de ter dito, no sábado, que o comunicador “talvez” pegasse uma “cana” no Brasil, ele voltou a comentar o assunto, sugerindo que possa ter havido transações financeiras em torno da publicação das reportagens sobre os diálogos vazados entre o ministro Sérgio Moro e procuradores da força-tarefa da Lava-Jato.

Sem dizer se teve acesso ou não às investigações envolvendo a prisão de supostos hackers na Operação Spoofing, Bolsonaro usou de ilações para insinuar que Greenwald possa ter cometido crimes. “Eu estou achando que, no meu entender, ele cometeu um crime, porque, em outro país, ele estaria já numa outra situação. Espero que a Polícia Federal ligue os pontos todos”, sustentou.

Um dos presos na operação, Walter Delgatti, admitiu, em depoimento, ser a fonte que repassou os diálogos para Greenwald. Contudo, negou ter recebido dinheiro em troca do fornecimento dos diálogos ao jornalista. Ainda assim, Bolsonaro deixou clara a dúvida sobre a veracidade das declarações.

O The Intercept não confirma se recebeu as informações de Delgatti nem como teve acesso aos registros dos diálogos. Para Bolsonaro, são criminosos. Questionado sobre quais seriam os crimes cometidos por Greenwald, o governo se eximiu de responder.

O porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros, limitou-se, em mais de uma ocasião, em diferentes questionamentos de jornalistas no início da noite desta segunda-feira (29/7), a se posicionar por meio de nota oficial. “O presidente tem se pronunciado no entendimento dele, pessoal, com relação a essa invasão de hackers”, afirmou.

“Não tinha ninguém armado para dar um tiro nele né, tudo bem”, afirmou o presidente Jair Bolsonaro, no primeiro pronunciamento sobre a morte a facadas de duas pessoas por um morador de rua domingo, no Rio de Janeiro.

“Tava drogado o cara, né”, disse Bolsonaro sobre o morador de rua. “Tem que buscar a solução para essas coisas, eu estou fazendo o possível aqui”, completou. Como já declarou várias vezes, ele é defensor da legalidade do posse e da porte de armas. “Se você, cidadão armado, em legítima defesa de sua vida e de terceiros, da sua propriedade, você pode atirar, não interessa quantos tiros vai ser, você entra no excludente de ilicitude”, pontuou.

 

Redação com Correio Braziliense

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