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Até tu, Cícero?

A política também é feita de expectativa. Mas existe um risco quando a expectativa criada é maior do que aquilo que efetivamente se entrega: o anúncio pode acabar chamando mais atenção pela frustração do que pela novidade.

Há pouco mais de uma semana, escrevi sobre o episódio envolvendo o deputado estadual Sargento Neto. Ele havia anunciado um pronunciamento que seria capaz de “impactar as eleições”. A frase naturalmente despertou curiosidade: o que viria?

No dia seguinte, veio a revelação: Sargento Neto, que já é do PL, já apoia Flávio Bolsonaro e já fazia campanha para o senador, anunciou que iria intensificar sua atuação em favor do candidato e promover um adesivaço.

A crítica feita à época não era ao apoio político, mas à distância entre a expectativa criada e o conteúdo apresentado. O que era uma ação de campanha foi embalado como uma grande novidade.

Eis que, uma semana depois, Cícero Lucena oferece um episódio bastante parecido.

O candidato anunciou que interromperia sua agenda para fazer um pronunciamento oficial aos paraibanos e disse que faria uma pausa para “abrir meu coração”. O momento também ocorria em meio às movimentações políticas envolvendo Felipe Leitão, o que naturalmente ampliava a curiosidade sobre o que seria anunciado.

Mas o pronunciamento veio e Cícero concentrou sua fala em críticas a Lucas Ribeiro e em propostas para a segurança pública: criação de uma sala de situação de crise, integração das forças de segurança e melhoria da remuneração dos policiais.

São propostas que podem ser discutidas e cobradas eleitoralmente. O ponto, porém, está na forma como o pronunciamento foi apresentado.

A expectativa sugeria uma revelação política. A entrega foi, essencialmente, uma manifestação de campanha sobre segurança pública e uma nova rodada de críticas ao adversário.

E aqui está a ironia: há poucos dias, eu criticava Sargento Neto por transformar uma ação previsível em um anúncio de grande impacto. Agora, Cícero utiliza uma fórmula de comunicação semelhante.

Não são episódios iguais, nem têm necessariamente o mesmo peso político. Mas há um elemento comum: a construção de suspense para apresentar algo que poderia ter sido anunciado de maneira muito mais direta.

Todo candidato precisa chamar atenção. Faz parte da disputa eleitoral. Mas comunicação não é apenas criar expectativa; é também administrar aquilo que vem depois dela. Quando se anuncia simplesmente uma proposta, o público avalia a proposta.

Quando se anuncia um grande pronunciamento, uma revelação ou algo capaz de “impactar” uma eleição, o público passa a avaliar também se a entrega correspondeu à promessa implícita.

Foi esse o problema que apontei no caso de Sargento Neto.

E é justamente por isso que o episódio de Cícero chama atenção agora.

No jornalismo e na comunicação política, a embalagem pode até transformar uma informação em notícia. Mas, se a embalagem for maior que o conteúdo, ela também pode acabar se tornando a própria notícia.

Talvez seja essa a melhor síntese dos dois episódios: menos suspense e mais objetividade poderiam produzir exatamente o efeito contrário — deixar o conteúdo falar por si.

No fim das contas, continua existindo uma regra básica: quanto maior o suspense, maior a responsabilidade de entregar uma novidade à altura dele.

Quando isso não acontece, o anúncio deixa de ser lembrado pelo que revelou e passa a ser comentado pelo tamanho da expectativa que criou.


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