Após detonar colunista e pedir fim do contrato de divulgação com site na PB, vereador volta atrás impondo condição

Após criar polêmica por descredenciar uma coluna escrita pela jornalista Claudia Carvalho e criticar o portal parlamentopb, sugerindo inclusive, em requerimento, que a Câmara Municipal suspendesse o contrato de publicidade que tinha com o site, o vereador João Almeida, voltou à tribuna da Casa nesta quinta-feira (03) e acabou escrevendo mais um capítulo para essa história.

Na tribuna, Almeida disse que vai retirar o requerimento de suspensão do contrato do veículo com a CMJP se, e somente se, a jornalista fizer uma retratação pública sobre o que escreveu contra ele.

A jornalista, no entanto, ainda não se manifestou se irá aceitar a ‘proposta’ feita pelo parlamentar, mas em sua coluna, lamentou a tentativa de censura por parte do agente público.

Cláudia Carvalho é radialista e jornalista premiada, com especialização em Jornalismo Cultural. Pioneira no webjornalismo da Paraíba, é apresentadora do Tambaú Debate da Nova Tambaú FM e colunista dominical do jornal "A União".

VEJA O QUE DISSE CLÁUDIA

A censura é tendência

 

 

Na semana que passou, numa discussão sobre a necessidade de preservar a moral e os bons costumes, na Câmara de João Pessoa, o vereador João Almeida (PMDB) externou, de maneira grosseira, sua preocupação com os efeitos maléficos da liberalidade da comunicação de massa sobre o comportamento do brasileiro. Para ser mais exata, ele detonou algumas atrações da Rede Globo que, em sua ótica, banalizam o sexo. Usando as palavras do peemedebista, em alguns programas (Malhação e novelas), existiria "uma putaria" e estímulo "à sacanagem". Em seu momento de indignação, João chegou a se queixar da inexistência de censura sobre o conteúdo televisivo.

 

Não existe censura para os discursos parlamentares. Para eles, criou-se um instrumento de controle chamado "decoro" que deveria fazer com que o nível dos debates travados nos plenários não permitisse, ao menos na forma, o constrangimento do eleitor que elegeu determinado representante. A língua portuguesa, rica e complexa, comporta tantos sinônimos quanto necessários para poupar nossos ouvidos de expressões rasteiras e contraditórias vindas de alguém que se diz preocupado exatamente com a moral. Paradoxalmente, não demonstra "bons costumes".

 

A programação televisiva, assim como a representação política, refletem um momento vivido pela população. Discutível seria imaginar o que significa a libertinagem televisiva sob a ótica do vereador que há poucas semanas exultava com a veiculação, na Câmara, de material produzido pelo xiita Jair Bolsonaro contra políticas públicas do Governo de Dilma Rousseff para a educação sexual de crianças e adolescentes.

 

João, contraditório por excelência, não deve considerar obscena, contudo, a compra de votos. Em 2008, ele foi denunciado por suposta participação num esquema que o Ministério Público Federal classificou como formação de quadrilha. Escutas telefônicas autorizadas pela Justiça na Operação Sufrágio mostraram o aprendiz de censor em conversas com lideranças comunitárias oferecendo material de construção e combustível em prol de sua própria eleição e do amigo e ex-deputado Fabiano Lucena.

 

No país que Charles De Gaulle teria dito não ser sério, o processo acabou sem resultado prático. Fabiano teve vergonha e deixou a política. João não pensou em autocensura. Achou melhor virar o holofote para a Globo.

 

Tristemente, o discurso bizarro do vereador veio em uma semana em que a mídia brasileira foi alvo de duas situações vergonhosas. Em uma delas, o Jornal do Commercio e Diarios Associados de Pernambuco foram impedidos, pela Justiça, de publicar o nome do presidente da Assembleia, Guilherme Uchoa, em matérias sobre um polêmico caso de concessão de guarda de um bebê. Na outra, no Paraná, o jornal Gazeta do Povo, foi proibido de publicar notícias sobre o presidente do Tribunal de Justiça do Estado, Clayton Camargo, investigado pelo CNJ por suspeita de venda de sentença.

 

Blindar os fatos não torna a atividade política, jurídica ou qualquer outra cândida. Vergonha na cara e respeito é que dispensam uso de censura e tornam o mundo um ambiente familiar.



 

 

Márcia Dias/ Ytalo Kubistchek

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