Por Wellington Farias
 
 

Numa entrevista reveladora, concedida ao programa Bastidores – ancorado na TV Master pelo jornalista Padre Albeni -, o ex-presidente da Assembleia Legislativa da Paraíba, Gilvan Freire, contou como Cássio Cunha Lima traiu a Cícero Lucena, por mais de uma vez.

Testemunha e personagem de fatos históricos da política recente da Paraíba, Gilvan narra, com riqueza de detalhes, como Cássio negou legenda a Cícero, se aliou a Ricardo Coutinho, arquiadversário de Cícero, além de se juntar com o deputado Ruy Carneiro e o mineiro Aécio Neves, para tomar dele o comando do PSDB.

A coluna transcreve os principais trechos da entrevista de Gilvan, que por trinta anos foi fiel aliado dos Cunha Lima, classifica como uma asneira as declarações do deputado Pedro Cunha Lima contra Cícero, como também a tentativa dele e do pai de se meterem na política de João Pessoa:

Segundo turno em João Pessoa
Gilvan Freire – Eleição está estatisticamente consumada. Eu não vou dizer quem vai ganhar. Eu estou dizendo que, estatisticamente, a eleição está definida. Já são três pesquisas maiores e se estas pesquisas estão se confirmando entre si, estatisticamente o pleito está decidido.

Declaração do presidente estadual do PSDB na Paraíba, Pedro Cunha Lima, que teria chamado Cícero Lucena de ingrato e traidor, porque Cícero teria sido vice na chapa do seu avô, Ronaldo Cunha Lima.

Gilvan Freire – Declarações desse tipo – vindas de Pedro Cunha Lima e vinda de Campina Grande, através de Romero Rodrigues ouvindo o Doutor Cássio – são um desastre total. É uma grande asneira transformar os interesses da campanha de 2020 casados com os interesses de 2022. Por mais que haja correlação entre um pleito e outro, trata-se de um futuro que ninguém saberia dizer como vai se dar. Então, quem é candidato às eleições de 2022 antecipar agora é fazer uma grande besteira e comete um grande amadorismo. Na história política da Paraíba tivemos várias lições nos últimos anos de pleitos que foram antecipados e o resultado foi desastroso.

Traições de Cássio a Cícero Lucena
Gilvan Freire – Com o maior respeito a Pedro vou dizer uma coisa, eu conheço e tenho ligações de trinta anos (com os Cunha Lima): Cássio traiu Cícero Lucena várias vezes. Cícero nunca traiu Cássio. Cícero foi vice de Ronaldo Cunha Lima quando tinha zero possibilidade de ganhar a eleição (para governador da Paraíba). Ronaldo não era o favorito. O favorito era Wilson Braga; e Ronaldo tinha pouquíssima chance de ganhar a eleição. Não estou dizendo que ganhou por causa de Cícero. Estou dizendo que ele escolheu um candidato (a vice) e foi favorecido, porque Cícero reforçou a eleição em João Pessoa e, a partir daí, se fez um líder. Será que Cícero é filho de Cássio e de Ronaldo para ser vice-governador, para ter sido governador, para ter sido senador da República e para ter sido ministro de Estado? Será que Cícero é uma figura de papelão a serviço dessas pessoas?

As traições
Gilvan Freire – A partir de 2014, quando Cássio se negou a trazer Cícero para o palanque. Quando Cássio apoiou Ricardo Coutinho, em 2010. Eu fui favorável, como elemento mais próximo do grupo, a que Cássio fizesse uma aliança com Ricardo Coutinho para poder sair da perseguição que um setor do PMDB (hoje MDB) fazia contra ele, com a expulsão do partido naquela guerra que houve em 1996 ou 1997. Cícero reclamava de mim, porque ele dizia que esse tipo de aliança depunha contra ele; desmoralizava e acabava com ele, porque era uma aliança com o principal inimigo dele (Ricardo Coutinho) que tinha aberto vários processos contra Cícero. Eu insisti porque alguém precisava desempatar o jogo e Ricardo poderia ser usado. Como Cássio não era candidato a governador, mas a senador, era uma oportunidade de destronar Maranhão (José Maranhão, hoje senador) na luta que vinha tendo com Cássio, quando terminou ganhando de Cássio no tapetão, na Justiça Eleitoral. Mas tudo isso num jogo aberto com Cícero, que é como um irmão meu. Mas nós tínhamos que fazer esta aliança e o que não podíamos era perder para Maranhão. Cícero alegava que não se entendia com Ricardo; com Maranhão poderia até se entender. Mas eu disse que Zé Maranhão era nosso inimigo e com ele a gente não tem o que ganhar. Isso aí – o entendimento de Cássio com Ricardo – já foi uma facada no coração de Cícero, que engoliu esse golpe. Eu, que ajudei a fazer a negociação, com meu temperamento não engoliria o golpe. Eu fui pra casa de Ricardo para tratar disso, dizendo que era mais fácil ele se entender com Cássio, que era da mesma geração, e não com Maranhão. Eu ajudei nisso, mas foi um golpe em Cícero. Na campanha em que Cícero foi candidato ao Senado, Cássio restabeleceu a relação de amizade com ele. Mas com uma desconfiança muito grande, porque uma parte dos Cunha Lima e uma parte da família de Cícero trocavam insultos nos bastidores. Mas quando Cícero foi disputar a Prefeitura da Capital, Cássio não teve participação direta na campanha de Cícero. Foi em 2012 e Cícero já era senador. Aí veio um problema que foi o pivô de todos os episódios que surgiram recentemente: é que Cássio, juntamente com Ruy Carneiro, marchou para tomar o PSDB de Cícero. Porque Cícero tinha muito prestígio com Serra e com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem tinha sido ministro e Cássio se julgava desatendido por este setor paulista. Cássio passou a se ligar a Aécio Neves, e passou a querer tomar o partido de Cícero com Ruy Carneiro, que se transferiu de malas e cuia para Aécio Neves contra Cícero. Veja o que é política! Porque Ruy Carneiro é uma cria de Cícero. Então, Ruy se transformou num inimigo de Cícero (…) e ficou ao lado de Cássio quando Cássio estava disputando o PSDB. Cícero ligado a FHC e Serra, e Cássio e Ruy ligados a Aécio Neves. Eles tomaram o partido de Cícero. Cícero passou a não ter prestigio nenhum no partido sob a presidência de Ruy Carneiro. Cícero era senador, mas não tinha o controle do PSDB local que tinha Ruy Carneiro presidente do partido feito por Aécio Neves e Cássio juntos. Cícero ficou cada vez mais enxotado da política, e eu conheço isso de confidência e posso estar revelando agora. Quando chegou para Cícero disputar o mandato de senador, Cássio não deu a oportunidade a ele em 2016. Terminou o mandato de Cícero e ele não teve oportunidade nenhuma porque Cássio negou apoio a Cícero. Em 2014, eu conversei com Cássio, quando ele foi candidato a governador e, na casa de Helder Moura (jornalista), eu disse a Cássio que ele tinha tudo para ganhar a eleição de governador, mas que ele estava desprezando duas coisas que seriam essenciais e, por conta disso, poderia perder a eleição: uma é desprezar Cícero Lucena em João Pessoa, trocando ele por Ruy Carneiro; que ele não poderia desprezar o apoio de Cícero que tinha vinte e tantos anos de convivência; depois, quem tem voto em João Pessoa é Cícero e não Ruy. E, depois, como explicar que Cícero esteja alijado do seu processo de eleição? Foi um ato de traição, de covardia política.

A influência de Pedro e Cássio na eleição atual em João Pessoa.
Gilvan Freire – A essa altura eles estão ferindo os brios do eleitorado de João Pessoa. Porque, primeiro, estão rompendo unilateralmente com Cícero Lucena, sem Cícero dar nenhum motivo. Quer dizer: Cícero não rompeu com eles. Eles vieram, colocaram um candidato, porque não gostam de João Azevêdo (governador). Primeiro colocaram e financiaram Ruy Carneiro do ponto de vista político, contra Cícero. Quando Cícero sentiu que não ia ter legenda porque o partido estava nas mãos de Pedro Cunha Lima, Cícero telefonou pra mim a noite e disse que eles (os Cunha Lima) não iriam lhe dar a legenda. Eu disse que ele procurasse um partido que não fosse tão ruim como esses partidos de aluguel que tem por ai. Cícero disse que não tinha muita alternativa, mas tinha um partido sobre o qual queria a minha opinião; um partido de Agnaldo Ribeiro, de quem Cícero gosta muito. E eu disse que Agnaldo cumpriria com ele porque você é um candidato muito importante para a legenda.

 
 

Por Wellington Farias

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