Uma pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Saúde Mental, Sexualidade e Gênero da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) investiga os impactos que o distanciamento social pode causar na saúde mental da comunidade LGBTTQI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Queers, Pessoas Intersex e demais identidades).

Segundo o estudo, coordenado pela professora Sandra Aparecida, com o apoio dos pesquisadores José Abraão, Ivoneide Lucena, Ana Pedrina e Rayane Neves, a qualidade de vida emocional dessa população pode ser agravada em um contexto de aumento das violências físicas, psíquicas e sexuais na quarentena, devido à pandemia do novo coronavírus.

De acordo com Rayane Neves, o trabalho pretende levantar, através de um formulário on-line, quais as principais situações de violência a comunidade LGBTTQI+ está passando. Serão analisados fatores como a prevalência dessa violência, o sujeito que a prática e principalmente se essas situações se agravam durante o período de distanciamento social.

“Podem participar pessoas da comunidade LGBTTQI+ que tenham idade entre 15 e 64 anos. Já colaborou gente do Amazonas, Pará, São Paulo e há grande percentual de participação de paraibanos, onde iniciamos o projeto”, conta a pesquisadora.

“Estamos divulgando nosso formulário para alguns grupos LGBTTQI+, como a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT) e a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ANTRA). Esperamos que a pesquisa se propague mais e mais, com o objetivo principal de formular conhecimento nesse período atípico que vivenciamos”, diz Rayane.

A partir das respostas, os pesquisadores vão analisar, quantitativamente, variáveis como identidade de gênero e sexualidade, relacionando-as aos sintomas de transtornos mentais comuns. Além disso, pretendem estudar as violências físicas, psíquicas e sexuais e aspectos sociodemográficos e econômicos.

Conforme Rayane Neves, a pesquisa se encontra em sua fase inicial de coleta de dados, de produção, de material bibliográfico e de formulação sobre a temática. “Esperamos que seja finalizada em um ano e que os resultados dela sejam positivos para o estudo desenvolvido pelo grupo de pesquisa”.

O trabalho é um dos pioneiros sobre saúde mental da comunidade LGBTTQI+ durante a pandemia. Rayane relata que só tem conhecimento de apenas mais um grupo que se organizou para investigar essa problemática. Contudo, frisa que cada pesquisa se estrutura e tem dados diferenciados a partir da sua amostra.

“É bom que outros grupos também estejam cientificamente preocupados com a qualidade de vida desta comunidade específica, de forma que possamos comparar estatísticas e debater sobre as realidades registradas. Produzir cientificamente dados para esta pesquisa é crucial, uma vez que passamos por um período de subnotificação no nosso país, com uma crescente ideológica neofacista em nossa política”.

Vulnerabilidade

De acordo com dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), a cada 20 horas, ocorre uma morte por Lgbtfobia no Brasil. O grupo registrou a ocorrência de 329 mortes violentas de LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) no ano passado, sendo 297 homicídios e 32 suicídios. Na contabilização dessas mortes, foram notificados 174 gays (52,8%), 118 travestis e transsexuais (35,8%), 32 lésbicas (9,7%) e 5 bissexuais (1,5%). LGBT é uma sigla que abrange menos identidades do que LGBTTQI+.

O relatório aponta que, em termos relativos, as pessoas trans representam a categoria mais vulnerável a mortes violentas. Se há um milhão de travestis e transsexuais no país, como se estima, esse total de 118 mortes sinaliza que o risco de uma pessoa trans ser assassinada é aproximadamente 17 vezes maior do que um gay.

“Segundo James Wareham, em território brasileiro, acontecem mais da metade dos assassinatos da comunidade LGBTTQI+ do mundo. Esse dado nos preocupa enquanto pesquisadores e seres humanos. Precisamos produzir cientificamente conhecimentos que venham a expressar o quanto é necessário pararmos de assassinar por questão de gênero e sexualidade no nosso país”, defende Rayane.

A estudante da UFPB conta ainda que é um tema pouco ou nada explorado nos currículos da área da saúde, sobretudo, da Enfermagem. “Poder compartilhar essa realidade com outros estudantes e pesquisadores ajudará a minimizar o sofrimento e quem sabe a violência contra essas pessoas. Para a sociedade, é importante, pois poderá lançar luz a situações de vida de uma população que ainda é invisibilizada”.

Segundo Rayane Neves, o grupo de pesquisa da UFPB tem a convicção de que esse período de distanciamento social estreita as relações pessoais, deixando essa parcela da população mais suscetível a situações de violência.

O Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou, em junho do ano passado, a criminalização da LGBTfobia, sendo caracterizada por todo tipo de repulsa, preconceito, cerceamento de direitos e atos violentos contra pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros ou travestis. Discriminar uma pessoa por sua orientação sexual e de gênero, agora, é crime inafiançável, imprescritível e que pode ser punido com multa ou até cinco anos de prisão, de acordo com a lei 7716/89.

Redação com assessoria

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