Há uma década, surto da gripe suína, causada pela cepa do vírus H1N1, atingiu mais de 75 países e deixou o mundo em alerta. Hoje, o novo coronavírus (Covid-19), pertencente à família de vírus que causam infecções respiratórias, já provocou 34 mortes e 1.891 casos confirmados no Brasil, segundo o Ministério da Saúde.

Em entrevista à Assessoria de Comunicação Social (Ascom) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a médica infectologista Ana Isabel Fernandes, membro da Comissão de Enfrentamento ao Coronavírus da UFPB, defende isolamento social e teste em massa para o vírus descoberto em 31 de dezembro do ano passado, após casos registrados na China.

Além disso, a especialista compara a nova doença com a gripe suína de 2009; analisa se o número de leitos na Paraíba é suficiente; e faz projeção da pandemia e para a criação de vacina. Confira abaixo:

Ascom: O H1N1 também foi uma pandemia, em 2009. O coronavírus é mais grave? Ou as redes sociais e a mídia intensificam a sensação de perigo?

Ana Isabel Fernandes: O H1N1 também foi uma pandemia que matou muita gente, mas já existiam alguns antivirais que funcionavam contra ele. Então, o impacto da letalidade não foi tão grande. O que acontece com o Covid-19 é que é uma transmissão muito explosiva e os casos graves vão necessitar de respirador, isso corresponde a 5% dos infectados.

Se isso acontece de uma vez, uma população, é um impacto muito grande para os serviços de saúde, que não vão ter leitos suficientes para absorver esses casos. E como não existe um antiviral ainda, testado e já aprovado para uso, fica muito mais difícil  tratar esses doentes, e a doença se prolonga muito mais. Dura em torno de três semanas o tempo de internação, então é bem diferente do H1N1, que era algo mais rápido.

Ascom: O segundo contágio de uma mesma pessoa é possível? Se sim, isso pode acarretar nova proliferação após o período de quarentena?

Ana Isabel Fernandes: Ainda não sabemos se é possível reinfecção dentro de uma mesma onda de epidemia. Possivelmente vírus sofre mutações e vai ser possível as pessoas terem infecção de novo.
Mas essas respostas ainda não se têm. Precisa de mais algum tempo para observar como a pandemia vai se comportar.

Há uma preocupação do tempo de distanciamento social não ser o suficiente para a gente evitar que as pessoas que não tiveram o contágio possam ter de forma explosiva quando se liberar a normalidade das coisas.

Mas eu creio que os governos estão atentos para isso e não vão liberar a circulação das pessoas antes de se ter uma comprovação de como as coisas estão acontecendo em cada lugar.

Ascom: As medidas repressivas são necessárias pra reter a propagação do vírus?

Ana Isabel Fernandes: As medidas tomadas foram de extrema importância. Creio que a gente ainda não tem, aqui, pelo menos em João Pessoa, uma situação de calamidade porque essas decisões foram tomadas, a exemplo da UFPB, que fez isso de forma muito responsável, no momento exato que precisávamos fazer.

Muitas pessoas, ainda descrentes, não acreditam muito na necessidade desse isolamento social. É preciso que elas se conscientizem, porque é algo que, se um fizer e o outro não fizer, a gente pode não ter o sucesso desejado.

É necessário que as pessoas entendam que não podem sair correndo para o supermercado e se aglomerarem lá. Estão dispensadas do trabalho, mas se aglomeram fazendo compras. Tudo precisa ser controlado, agora.

Ascom: Há divergências entre a OMS e o Ministério da Saúde sobre os testes em massa ou apenas casos suspeitos. Qual sua avaliação?

Ana Isabel Fernandes: Eu concordo com a necessidade de se fazer teste em massa, porque quando a gente testa mais, a gente sabe onde a doença está se proliferando mais, áreas da cidade, e outras medidas mais agressivas podem ser tomadas.

Então é superimportante, a exemplo de tantos países que fizeram os testes, inclusive para liberar os pacientes  dos isolamentos. Se já negativou o exame, então o indivíduo pode conviver socialmente. Se testar positivo, prolonga-se o isolamento. É importante que a gente também tenha essa ferramenta de controle da infecção em uma comunidade.

Ascom: O que o Brasil está fazendo de certo e errado no combate à doença? Que medidas que ainda não adotou deveria tomar?

Ana Isabel Fernandes: Não adianta, muito, ficar olhando para o passado, mas a gente tinha como evitar esse caos que está acontecendo. Não havia a transmissão local no Brasil. Se a gente tivesse feito o controle das viagens internacionais, evitaria que pessoas infectadas que vieram do exterior circulassem normalmente no país.

Essas pessoas precisavam ter  sido monitoradas. Pelo menos as que tinham sintomas deviam evitar circulação. Talvez devêssemos ter suspendido, por exemplo, o carnaval, porque os casos explodiram depois. Com essa abertura, chegam muitos turistas, uma circulação muito grande de pessoas.

Se tivéssemos tomado esses tipos de medidas no início, talvez tivéssemos evitado esta situação. Outro momento que foi crucial: quando São Paulo explodiu com seus casos, o Ministério da Saúde precisaria ter antecipado os bloqueios às mobilidades das pessoas de lá para outros estados. Devíamos ter coletado amostras, isolado as pessoas sintomáticas e orientado a quarentena para as que tinham chegado de viagem.

Ascom: O número de leitos disponibilizados na Paraíba é suficiente?

Ana Isabel Fernandes: Nenhum estado do país está pronto para uma pandemia dessa monta. A gente vê países de primeiro mundo sofrendo por falta de leitos. É muito difícil fazer uma colocação de que estamos tranquilos com o número de leitos. Não estamos.

As providências estão sendo tomadas. Redes hospitalares estão sendo ampliadas. Leitos estão sendo alocados para isso e a organização de possíveis Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Tudo isso está sendo feito meio que em cima da hora, mas que está sendo resolvido e encaminhado de forma importante.

Contudo, o que eu acho que de mais importante fizemos foi o distanciamento social. Essa medida foi a mais importante para a gente não estar em uma situação caótica como Recife, com falta de plantonistas, com médico já adoecendo, com furos de escalas e a necessidade de ampliar todo o corpo clínico de todos os serviços.

Ascom: Que projeção você faz para essa pandemia na Paraíba?

Ana Isabel Fernandes: Eu tenho esperança de que o nosso cenário vai ser um pouco diferente porque nós começamos as medidas de contenção antes de termos, até, confirmação de casos, aqui. Quando os estados vizinhos anunciavam os seus primeiros casos, nós já fizemos as medidas de contenção. Isso adiou pelo menos em duas semanas o surgimento de casos e, talvez, a maior gravidade deles.

Eu tenho esperança de que podemos fazer muito. Acho que as autoridades, a universidade, as sociedades científicas têm se unido de forma muito importante para cada um dar a sua contribuição no sentido de combatermos esse mal que tem assolado e deixado o mundo perplexo e parado.

Podemos tirar algo positivo de tudo isso se entendermos os movimentos que estamos fazendo agora, de cooperação, de união em torno de um objetivo, que é importante para todos. Não adianta eu ter álcool em gel se meu vizinho não tiver. Não adianta eu fazer o isolamento social se meu vizinho não fizer.

É preciso que todos entrem em uma sintonia e se empenhem no combate a essa doença. Medidas educativas ainda são muito necessárias. É preciso que cada um vá multiplicando. Assim como o vírus faz, ao sair contagiando todo mundo, a gente também pode fazer esse movimento, contagiar com o bem, com informação, com medidas necessárias para o combate à doença.

Ascom: Como a senhora vê o desenvolvimento de vacina e de cura para a doença?

Ana Isabel Fernandes: As vacinas são extremamente promissoras. Muitas grandes empresas trabalhando para esse fim. No entanto, a gente não vai ter isso em curto prazo. Acredito que para o próximo ano, nas mutações do vírus, a gente vai poder evitar novas ondas dessa epidemia, mas, para agora, não temos nenhuma perspectiva. Mas há chances muito boas de sair uma vacina e antivirais também. As informações são da Ascom/ UFPB

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