Documentário com depoimentos inéditos sobre ‘Os Trapalhões’ revela a prepotência de Renato Aragão. “Posso fazer a mesma coisa tendo um cachorro, um macaco e um veado”, disse, após rompimento com Dedé, Mussum e Zacarias

Sucesso na televisão brasileira ao longo de trinta anos, ‘Os Trapalhões’ são considerados um dos maiores fenômenos da história da TV nacional. Muito já se escreveu sobre a trajetória de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, mas uma série-documentário em fase de montagem trata justamente dos ângulos não revelados da longa convivência dos palhaços que a audiência amou e aplaudiu durante décadas. As informações foram reveladas com exclusividade pela revista Veja.

Os bastidores abertos ao longo dos 62 depoimentos colhidos para a realização do documentário ‘Trapalhadas Sem Fim’, do diretor Rafael Spaca, expõem uma relação conturbada, com boa dose de ressentimento e divergências artísticas, de um lado, e de arrogância e autoritarismo, de outro, entre os três coadjuvantes — Dedé, Mussum e Zacarias — e Renato Aragão, o cabeça inconteste e o único multimilionário do grupo.

O primeiro racha dos Trapalhões aconteceu em agosto de 1983 e todo mundo ficou sabendo — a Globo passou seis meses exibindo reprises, enquanto se tentava pacificar os ânimos. O motivo era um mistério. Não mais. Testemunhas do desentendimento contam que o estopim da briga foi uma reportagem de capa da Veja, “O Grande Palhaço — Por que Renato Aragão Faz Rir”, que evidenciava a condição de estrela maior de Didi, o que provocou ciumeira nos outros, e escancarava sua fortuna — esse, o empurrão fatal para a rebelião.

Tamanha foi a raiva que Dedé, Mussum e Zacarias anunciaram o rompimento em uma entrevista coletiva, com Didi junto, sem saber de nada e pego de surpresa. Seguiu-se um período tumultuado, com cada lado fazendo trabalhos próprios (e fracassados) e Aragão estrilando com os “traidores” que o trocavam pelo trio de desafetos. Victor Lustosa, diretor assistente dos filmes dos Trapalhões até o fatídico 1983, conta a reação furiosa de Renato Aragão ao ouvir que estava de partida para a produtora rival.

“Ele me falou: ‘você vai morrer de fome e não venha bater na minha porta depois’.” Mais cruel ainda foi a forma como dispensou sumariamente os três ex-colegas, ainda segundo Lustosa: “Não preciso deles. Posso fazer a mesma coisa tendo um cachorro, um macaco e um veado”. Não foi a primeira, nem a última, ofensa pessoal de Didi a Dedé, Mussum e Zacarias.

A reconciliação também é narrada pela primeira vez em detalhes: foi obra do empresário Beto Carrero, então sócio de Aragão, que os convidou para um encontro, sem que um soubesse da presença do outro. Para a surpresa dos presentes, os quatro se cumprimentaram cordialmente, o almoço no restaurante do Hotel Méridien, no Leme, Zona Sul do Rio de Janeiro, prolongou-se até o jantar e o grupo saiu de lá com as pazes feitas.

Houve conversas emocionadas, troca de reminiscências e um novo acordo financeiro. Mussum puxou a reivindicação de aumento da participação dos três nos lucros. Aragão ofereceu, da parte do leão que lhe tocava, mais 1 ponto porcentual para cada um. Oferta aceita, decidiram retomar as gravações no dia seguinte. Estava salva a pátria trapalhona. Dedé também pediu e conseguiu a direção de quatro filmes do grupo.

Testemunhas admitem, durante o documentário, a organização e o talento artístico de Renato Aragão, mas revelam atitudes que consideram injustas e deploráveis. Por exemplo: contam que ele roubava as melhores piadas para si. Ferrugem, ator mirim no auge dos Trapalhões e que contracenou com eles na televisão e nos filmes, relata que certa vez perguntou a Wilson Vaz, redator do programa, por que estava aparecendo pouco. “Ele me mostrou uma pilha de páginas de texto que havia escrito para mim, mas o Renato não deixou que me passasse”, relembra. José Lavigne, que dirigiu Os Trapalhões por alguns meses, confirma ser constante a intervenção de Didi na divisão das piadas.

Várias pessoas da equipe mencionam ainda os comentários e as atitudes racistas a que Mussum era submetido. “Ele deixava bananas na cadeira dele”, conta a camareira Sirene Oliveira. “Meu pai não gostava disso de jeito nenhum”, disse o filho do humorista, Sandro Gomes. Se a brincadeira de mau gosto acontecia fora do palco, Mussum mostrava sua irritação.

O cineasta Silvio Tendler foi contratado pela Renato Aragão Produções para dirigir o documentário ‘O Mundo Mágico dos Trapalhões’, de 1981 (e lhe conferir algum verniz intelectual). “Eu tentei fazer um filme sobre o trabalho deles, mas o Renato queria uma antologia, uma peça de humor popular”, lembra Tendler sobre a obra que se tornaria o documentário brasileiro mais visto de todos os tempos, com 1,8 milhão de espectadores. Outra amostra de que quem manda pode: na fita, ele aparece sozinho em 29 dos noventa minutos. Os filmes dos Trapalhões foram arrasa-quarteirão: até hoje, são deles seis das vinte maiores bilheterias de todos os tempos.

Uma voz inédita entre os entrevistados é Selma Lopes, ex-mulher de Mauro Faccio, o Zacarias, que nunca havia falado em público. Aos 91 anos, ela nega categoricamente os relatos de que o humorista, um gay não assumido que teve vários namorados, tenha morrido de pneumonia decorrente de aids. “A certidão de óbito está comigo e a causa da morte não tem nada a ver com o vírus”, declara.

Dubladora, Selma diz que os dois tiveram um ótimo casamento de oito anos e considera que o que ele fez depois que se separaram não é da sua conta. “Enquanto estava comigo, funcionou muitíssimo bem”, garante. Zacarias morreu em 1990, aos 56 anos, e o programa continuou a ser tocado pelos outros três, mas já sem a mesma audiência cativa. Lavigne, convocado para resolver o problema, incluiu um segundo bloco em que Didi aparecia sozinho. Didi espalhou para todo mundo que era uma decisão do diretor. Não era, desmente agora Lavigne — a ordem partiu de Aragão.

O novo formato com três humoristas não durou muito. Durante a Copa do Mundo de 1994, Mussum morreu, aos 53 anos, por complicações decorrentes de um transplante de coração. Decretou-se então o fim de Os Trapalhões, no ar (com este nome) desde 1976.

Trapalhadas Sem Fim

O documentário ‘Trapalhadas Sem Fim’ contém mais de 70 horas de gravações com depoimentos inéditos e começou a ser produzido em agosto de 2018. Todos os relatos são revelados por profissionais que trabalharam diretamente com os humoristas na frente e também atrás das câmeras.

O diretor Rafael Spaca afirma que a obra jamais seria exibida na Globo. “Jamais. É construção e desconstrução ao mesmo tempo. Os Trapalhões é um produto dela. Pelo teor de alguns depoimentos a Globo não colocaria o documentário no ar… Uma pena. Mas a gente entende a política da Globo, eles gostam de valorizar o seu produto, sua história.”.

“Considero Os Trapalhões como o maior grupo de humor do mundo. Eles atuaram em todas as plataformas de mídia. Cinema sucesso, TV campeões de audiência, quadrinhos sucesso, as apresentações em circo sucesso. E isso foi por décadas”, continua Spaca, que já tem dois livros publicados sobre Os Trapalhões.

Angélica, Tony Ramos, Regina Duarte e vários outros artistas que trabalharam com os Trapalhões aparecem no documentário, sempre cheios de elogios para o quarteto. Mas nenhum dos dois integrantes vivos (Renato Aragão e Dedé Santana) quis aparecer. “Não tenho raiva de ninguém, mas não vou colocar azeitona na empada dos outros”, justificou Dedé, que aos 83 anos passou por sérios problemas financeiros e recebe ajuda do velho companheiro Didi, de 84 anos. De certa forma, e apesar de tudo, esses dois trapalhões continuam juntos.

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Fonte: Pragmatismo Político
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