Não podemos afirmar, de forma categórica, mas esta paralisação do setor de transportes públicos, em João Pessoa, tem contornos de locaute disfarçado ou seja: com apoio de entidade representativa dos trabalhadores. A rigor, locaute quer dizer: a recusa por parte da entidade patronal em ceder aos trabalhadores os instrumentos de trabalho necessários para a sua atividade.

Ao contrário da greve, que ocorre com a paralisação dos trabalhadores, o locaute se dá pela paralisação dos empregadores. Mas, neste caso em questão, por locaute entenda-se a classe trabalhadora sujeitando-se aos interesses patronais, promovendo a paralisação para que as empresas (e não eles) conquistem alguma demanda junto ao poder público.

O que causa estranheza neste movimento – e que lhe dá contorno de locaute – é o discurso dos lideres da categoria, proferido em emissoras de rádio e em outras mídias: acentuando o registro de que as empresas estão em dificuldade para pagar o salário em atraso; que as empresas podem fechar suas portas; o combate ostensivo “à concorrência desleal dos transportes alternativos, moto-taxi”, além da reclamação sobre o alto custo operacional do sistema.

Ora, a exceção da tímida reclamação por um salário que “vai atrasar”, como eles disseram, esta pauta é do empregador. O que tem a ver motorista e cobrador com transporte alternativo? Pelo contrário, eu conheço ex-motorista e ex-cobradores do sistema de transporte público que foram dispensados pelas empresas, e hoje mantém a família com transporte alternativo. Onde já se viu a classe trabalhadora alegar que seus patrões estão em dificuldade e que suas empresas podem fechar?

Não ouvimos, em momento algum, dirigente da classe em paralisação reclamar do excesso de jornada de trabalho dos motoristas e de meia-duzia de cobradores que eles ainda mantêm; de motorista acumular as funções dos cobradores etc e tal; das péssimas condições de trabalho dos motoristas sob aquele calor infernal do motor do carro etc etc.

De boca cheia

As empresas não têm nada que reclamar. As tarifas de João Pessoa estão entre as mais caras do Brasil. O sistema de transporte não oferece contrapartida: é precário; os ônibus sucateados; passageiros se espremem dentro dos coletivos numa sensação térmica de no mínimo 40 graus, sem as condicionado, poltronas saindo do lugar, alguns com barata circulando e já vimos até ônibus com porta caindo no meio da rua.

Detalhe: convém lembrar que estas empresas já reduziram demasiadamente seus gastos. Por exemplo: hoje praticamente não existe mais cobrador, cabendo ao motorista a dirigir e cobrar ao mesmo tempo, atrasando o cumprimento dos horários, pondo todos em risco. Sou usuário de coletivos e inúmeras vezes o motorista dirigia e, ao mesmo tempo, me passava o troco.

O que falta em João Pessoa é autoridade para chamar o feito a ordem. Mas dizem que essas empresas de transporte são galinhas dos ovos de ouro nas campanhas eleitorais, com suas valorosas colaborações…

Wellington Farias

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