Quando Luís XVI subiu ao trono da França em 1774, tinha 19 anos. Em sua coroação realizada no ano seguinte, cavalgou num coche puxado por cavalos enfeitados com prata e ouro, sob o aplauso vigoroso da corte que o acompanhava e, claro, bajulava o monarca.

Algo similar aconteceu em João Pessoa, quando o prefeito da Capital, Luciano Cartaxo (PV), que já migrou por várias siglas partidárias, seguindo seu pragmatismo político, aceitou ser bajulado por “súditos” movidos a contracheques. Posto eleito como alcaide de Nossa Senhora das Neves em 2013, permanece o Verde no trono até o próximo ano.

Como Luis XVI, sempre gostou de ser adulado, não reconhecendo aqueles que o colocaram na “coroa” pessoense. Rompeu com aliados e abrigou no seu “Palácio de Versalhes” uma corte boba e submissa que envergonharia os “bobos” que serviram a monarquia da Baixa e Alta Idade Média da Europa.

Mas para Cartaxo não basta ser apenas “rei”. Tem que implementar um toque “especial”; como o Marquês de Sade. Não em perversão sexual, mas na pouca moral e quase nenhum humanismo. O Verde é desprovido de ética e compaixão. E pasmem, leitor: buscando a alegação de “limpar” o Centro de João Pessoa, proibiu Integrantes da pastoral Nossa Senhora das Neves a exercerem um papel de pura caridade cristã.

Cumprindo ordens do chefe supremo, que em breve sentirá a “Queda da Bastilha”, recomendou aos agentes da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedurb) – os famosos “bombados” – que impedissem os religiosos a distribuir comidas para pessoas em situação de rua no bairro do Centro, em João Pessoa.

A situação, no mínimo desumana, foi iniciada na noite da última segunda-feira (04), havendo a alegação da Prefeitura que no local havia denúncias de tráfico de drogas e exploração sexual na área.

Em entrevista ao portal de notícias G1, o coordenador da Pastoral da Pessoa em Situação de Rua da Arquidiocese, Massilon Ramos, informou que os voluntários estavam distribuindo os alimentos normalmente, com ocorre diariamente há mais de 15 anos, na Praça João Pessoa.

Ou seja: há uma década e meia a ação vinha acontecendo de forma contínua, quando os religiosos foram surpreendidos por guardas municipais, agentes da (Sedurb) e Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) com um cordão de isolamento, impedindo a ação.

Conforme apurado pela coluna em nota emitida pela Prefeitura, o órgão declarou que haverá uma reunião na sexta-feira (8), entre a Secretaria de Desenvolvimento Social e a Pastoral, para definir um novo espaço de doação, suspendendo apenas a Praça João Pessoa como ponto de distribuição.

Mas o ato arbitrário de Prefeitura, sob a conivência dos vereadores da base de sustentação de Luciano Cartaxo na Câmara Municipal de João Pessoa visa outro fim: o desalojar de vidas humanas a fim de servir a interesses comerciais que buscam instalar na localidade equipamentos turísticos, não apontando a realocação dos sem-teto.

E não sou eu que profiro tal afirmação. Em Auto de fé ou auto da fé, ritual de penitência pública de hereges e apóstatas acusados pela Santa Inquisição, buscou Cartaxo, por confissão, ser absolvido pelos pecados e com isso ter parte no reino dos céus. E o confessar do prefeito veio em nota fria e pouco apetitosa.

Enfocava a nota pouco teor técnico: “A recomendação feita excepcionalmente na última segunda-feira, no momento da distribuição da sopa, restringiu-se apenas à Praça João Pessoa, espaço onde foi realizada uma Operação da Guarda Municipal e da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedurb), depois de recorrentes denúncias de vandalismo, tráfico de drogas e de exploração sexual.

No local, foram encontradas armas brancas, objetos perfurantes e fogareiros que poderiam colocar em risco a integridade de quem circula na área, cuja revitalização foi realizada pela atual gestão. Na manhã dessa terça-feira (05), uma equipe já retomou os serviços de reparos e manutenção dos espaços recentemente degradados”.

Mas a pergunta deve ser posta: em 15 anos de trabalho voluntário, havendo a presença da Polícia Militar no local por centenas de vezes, e do próprio aval da Arquidiocese, por que só agora foi constatado o “tal perigo?”.

E nesse rio caudaloso de incertezas, outra alegação da Sedurb, cujo secretário é Zenedy Bezerra, possível escolhido por Cartaxo para disputar o pleito de 2020 como candidato a prefeito da Capital, diz que o passeio público deve ser “limpo” para impedir a ação de supostos crimes e manter a ordem no Centro de João Pessoa a fim de manter os moradores de rua afastados dos turistas.

Em comparação histórica e guardadas as devidas proporções, claro, Hitler utilizou o mecanismo da eugenia, colocando milhões de judeus nos chamados “guetos” a fim de “camuflar” ou “esconder” o que julgava ser uma sub-raça.

Houve também a política nefasta do “Apatahiade” África do Sul e o processo de “branqueamento” implementado por Vargas no chamado Estado Novo, que impedia determinadas etnias de receberem o visto de entrada no país.

Então, seguindo uma lógica preconceituosa, os moradores de rua de João Pessoa são um estorvo para a gestão municipal? É preciso escondê-los?

Ou seria mais correto e humano desenvolver políticas públicas efetivas para dar condições mínimas desses seres, quase invisíveis, quase fantasmas, de terem uma nova chance no que diz respeito à cidadania?

A desculpa passa pelo turismo

Tudo em nome do “progresso”, do “turismo”, da “convivência” pacífica com os “verdadeiros” seres humanos. É assim que a gestão de Cartaxo trabalha.

Negar ou proibir um ser em situação de vulnerabilidade em ter o direito do alimento básico é ato normal para o alcaide e seu “queridinho” Zennedy Bezerra.

Vale ressaltar que o secretário foi um fiasco do grupo “Picolé de Manga” no pleito de 2018. Sua empáfia, pouca simpatia e atos administrativos questionáveis foram ingredientes para sua derrocada humilhante nas urnas.

Em tempo: mesmo com a máquina municipal trabalhando a seu favor, obteve Zennedy Bezerra minguados 13.166. Para finalizar, a todos que trabalham nos projetos sociais da Prefeitura de forma muitas vezes precárias, a coluna parabeniza-os, entendendo que dias melhores virão.

Ah, um adendo: o destino final de Luís XVI foi a guilhotina. Do monarca e da sua esposa, Maria Antonieta. E na política, leitor, quem perde a cabeça, dificilmente a recupera.

A “mea cupa” da PMJP

Em gesto de “mea cupa”, a PMJP, observando a repercussão negativa gerada pela proibição da entrega de alimentos aos moradores que vivem em estado de completa miséria no Centro da cidade, e que recebiam há 15 anos, nas imediações da Praça João Pessoa, o chamado “sopão”, formulou uma reunião às pressas, no início da noite de terça-feira, com integrantes de pastorais e representantes da Arquidiocese da Paraíba.

Ficou estabelecido que as refeições “proibidas” serão distribuídas no Restaurante Popular da Lagoa e o Centro Pop.

Uma fonte ligada a este colunista, e que estava presente na reunião, apontou a pessoa da primeira-dama da Capital, Maisa Cartaxo, como a grande articuladora para o processo exitoso.

Foi a primeira dama, que é católica, a conseguir sensibilizar Luciano Cartaxo e equipe técnica, buscando valer-se de ato humano e cristão.

O prefeito não participou da reunião. Além de Maísa Cartaxo, estiveram presentes o secretário da Sedurb – Zennedy Bezerra, Sedes – Vítor Cavalcante, o vereador Milanez Neto e o Vigário Geral da Arquidiocese da Paraíba, Pe. Luiz Silva Junior.

A coluna registra, aqui, o esforço hercúleo da primeira-dama para equacionar o problema.

Vale lembrar que a Prefeitura da Capital costuma utilizar de artifício ilegítimo e até truculentos, como foi o caso da derrubada de inúmeras casas na Comunidade Porto do Capim e a retirada na calada da noite das mercadorias dos ambulantes que atuavam nas calçadas do Centro da cidade.

O morde de Cartaxo foi vencido pelo assopra da primeira dama.

Eliabe Castor
PB Agora

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