O sol a pino sobre minha carcaça banhada de suor denunciava o superaquecimento do meu corpo. Passos largos, olhos fixos no smatphone para não perder os piques e repiques das notícias, dirigia-me à Assembleia Legislativa para mais um dia de cobertura jornalística naquela Casa.

Nada de novo, no alvoroço sincero dos que transitam no Ponto de Cem Réis, até as minhas retinas abrirem espaço para um cartaz nas mãos de uma senhora de meia idade. Fechei um pouco os olhos para ajustar o foco e ler a frase perturbadora em português deficitário: “Somos venezuelanas estamos aqui pedido sua ajuda obrigado por tudo que Deus deu”.   

Após esforço hercúleo para ler, por estar desprovido do meu “pince-nez”, eclodiu em minha consciência o dever, enquanto cidadão e jornalista, para indagar aquela senhora de rosto amargo e beliscado pelo sofrimento do infortúnio social que a afligia.

Confesso que a abordagem foi difícil. Pensava em compasso dinâmico a forma mais branda e menos invasiva para indagar o que estava a acontecer àquela senhora. Respirei e fui, apresentando-me; não quem sou, e sim o que faço como profissional da imprensa. Eu buscava ajudá-la.

(Texto continua após o vídeo)

 

Dois ou três segundos de hesitação e um largo sorriso surgiu. Disse seu nome, chamando para perto de si uma jovem com um pequeno garoto em seus braços. Eram filha e neto, e estavam ali buscando esmolas, a palavra é justamente essa, para retornarem ao município de Campina Grande. Suas parcas economias foram diluídas com os gatos do deslocamento entre a outrora Vila Nova da Rainha e João Pessoa.

E nosso diálogo começou a se estender, observando a chance oferecida pelo Alto para, de alguma forma, ajudar aqueles seres, tão humanos quanto eu e você, leitor. E assim foi realizada uma entrevista sem maquiagem, cortes ou edição.

Realidade crua de um povo sofrido que foge de um regime ditatorial e desumano aplicado pelo presidente da Venezuela, Nocolás Maduro.

Excluindo as “premissas” ideológicas, a senhora, de nome Maria, explicou-me ser paraibana, natural de Livramento, e que havia migrado para solo venezuelano há 30 anos, quando conheceu seu esposo e lá teve três filhos.

Após três décadas de vida relativamente tranquila, a ebulição social e política na Venezuela a fez retornar à pátria amada na busca de novas oportunidades. Mala, cuia e algum Bolívar na algibeira, Maria, filha e neto rumaram para Roraima e, de lá, para o “sossego” da família residente na sua cidade natal.

Contou Maria que, ao chegar em solo paraibano, não foi bem aceita pelos familiares. A parentela a expulsou. Há dois anos peregrina em casas de almas caridosas. Primeiro em Campina Grande, hoje  com uma família residente em São João do Cariri.

Veio Maria a João Pessoa na esperança de um emprego “prometido” à sua filha, enfermeira que já trabalhou na Assembleia Nacional da Venezuela. Não conseguiu êxito e, sem dinheiro para o retorno, dormiu no terminal rodoviário com seu neto.

Acordou Maria sem perder a esperança. Relatou que conseguiu alguns trocados, imprimiu o currículo da filha, que tem curso para atendente de farmácia, e os três seres humanos, quase invisíveis na multidão, entregaram na rede farmacêutica do Centro de João Pessoa não uma mera folha contando as qualificações da sua primogênita, e sim a esperança de um futuro melhor.

Após nosso encontro, rumei para o trabalho com um “ruminar” na alma. À tarde, liguei para aquela senhora que pretende ir à Venezuela “resgatar” esposo e filho,  a fim de saber como estava. Disse ela que conseguira 30 reais e estava de carona  rumo a seu lar provisório.

Mais aliviado, perguntei se ela não pretendia buscar instituições que dão guarida aos venezuelanos na Paraíba, ouvindo a resposta que outros mais necessitados precisam dos abrigos.

Entendi rapidamente a dignidade e resignação daquela família que, como outras tantas, não importando raça, credo, etnia ou país, continuam a lutar, mesmo em solo infértil.

Aprendi, mais uma vez, que a “Ilíada” e a “Odisséia” de cada uma dependem das suas convicções morais e a forma como a vida deve ser enxergada.

Por fim, peço licença para citar Drummond e, assim, terminar meu relato: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”.

 

Eliabe Castor

PB Agora

 


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